Ângelo Chemello Pereira: As Amargas, não…, de Alvaro Moreyra

A entrevista com Ruy Castro, na Parêntese número 20, trazia uma pergunta de Luís Augusto Fischer sobre as personalidades que apareciam no livro Metrópole à beira-mar — O Rio moderno dos anos 20 (CASTRO, Ruy. Companhia das Letras, 2019):

FISCHER- “Das várias figuras retratadas — atores, escritores, jornalistas, cantores, etc. —, tu desenvolveste alguma estima particular por algum? Por quê?”

O início da resposta foi: 

RUY CASTRO- “O gaúcho Alvaro Moreyra talvez tenha sido o principal — isso é fácil de constatar no livro. Dele eu só conhecia o “As Amargas, Não…” e já me encantava, mas a leitura de tudo que ele escreveu, das revistas que dirigiu, seu temperamento, sua inteligência, me conquistaram”. 

Queremos aproveitar a menção a Alvaro Moreyra (1888-1964), esse autor que Ruy aponta com encanto, para apresentar o Retrato escrito de hoje. Então vamos de As Amargas, Não…, uma obra de lembranças em que a cidade natal do escritor gaúcho aparece dessa maneira:

“Porto Alegre… Foi daquele porto que parti… Minha terra… É um céu tão azul que eu nunca mais vi um céu tão azul. É um rio chamado Guaíba, que tem uma ilha chamada Pintada. É uma casa grande. Minha terra… Aquela procissão de noite. O circo de Paulo Cirino. A estação da Estrada de Ferro. O trem de São Leopoldo… As férias… O Riacho, os salgueiros… Os sinos… A banda de música da Floresta Aurora… O Asilo dos Pobres.. Os dois vapores em que se ia para as Pedras Brancas: o Cupi e o Pirajá… Dona Nuquinha que cantava: “Não vá, não vá, meu benzinho, não vá senão eu choro…” Jerônimo que tinha sido escravo… O homem que limpava a chaminé… Os jardins dos Moinhos de Vento… Vocês… Minha terra cabe toda dentro de mim. Ela é do tamanho da minha infância… Porto Alegre! Ah! terra bem amada! Que carícia te chamar: minha terra… te repetir minha… minha… minha…”

A escrita de Alvaro Moreyra vem composta de pequenos blocos de recordação. E o conjunto descontínuo faz com que se possa encontrar a cidade em meio aos saltos no tempo. Uma Porto Alegre que faz falta, mas que pode voltar. Como ela volta? Na escrita.

“Saudade de Porto Alegre, desejo de estar perto, olhando, ouvindo, servindo aquela luz, aquele ar, pondo na boca e na alma o gosto da infância… acordar com os sinos da Igreja do Rosário, e o pregão do velho de botas, que vendia carne de terneiro gordo: – “Tenerê. Tenerê, tá godinho, godinho, godinho…” – Da sacada alta, o rio Guaíba, em frente, parecia de ouro. Quem me ensinava os nomes das ilhas, e apontava, certa, para cada uma, era minha avó Maria Angélica, de olhos apagados, meu primeiro amor, minha primeira dor. Exclamou uma vez: – Que dia bonito! –Via-a cheia de sol, perguntei: – É pelo sol que a senhora adivinha? –   Respondeu: – Não, querido, repara: é pelo céu todo azul. Os cegos não adivinham, os cegos se lembram…”

Porto Alegre se mostra ainda com seus prédios e suas ruas. Esse passeio urbano faz com que o autor possa reencontrar os amigos. Outros seis autores que com ele são chamados de “os Sete”.

“… o arranha-céu era o Malakof, com marcas de balas da revolução, perto do jardim que tinha grades, quase em frente do Mercado; do último andar, por sobre as árvores; se via a Doca, cheia de lanchões e de melancias. Mas na Rua da Igreja as casas eram mais altas. Foi da Rua da Igreja que nós saimos, – não foi, Homero Prates? Não foi, Carlos Azevedo? – daquela esquina onde ficava a Faculdade de Direito, e onde, depois da Escola Normal, ficou a Polícia, que o fogo destruiu. Foi de lá que saimos, em 1908, vocês dois, Felippe d’Oliveira, Eduardo Guimaraens, Antonio Barreto, Francisco Barreto, eu… os Sete… Há tantos anos!”

O texto de Alvaro Moreyra traz a infância que permite ser recomposta em companhia da cidade. Ela está no texto parecendo pertencer ao autor, fazendo parte dele. A intimidade é tanta que através do Guaíba, autor e rio conseguem até conversar.

“Nunca tirei do coração a cidade onde nasci, a cidade que me viu menino, por tantas ruas que ainda existem, debaixo do céu mais bonito do mundo, ruas remotas como aquelas avós que estão dormindo lá em cima, entre os muros brancos da ladeira da Azenha. Na manhã de primavera, que em Porto Alegre é mesmo primavera (eu tinha os olhos cheios de rosas) – parei diante do rio, largo, longo, a se perder de vista. Estendi-lhe as minhas mãos: – Bom dia, Guaíba! Como você é bonito! – E bem da terra, bem da gente, senti que ele me respondeu: – Não… não sou eu… são essas ilhas… – Você é a água que passa e leva a luz do sol, a luz da lua e das estrelas, os clarins da madrugada, os ecos da Ave-Maria, todas as serenatas. Rumores, claridades, ressonâncias, reflexos, em você, se transformam no silêncio puro, na sombra profunda. Que importam as margens! O rio segue para a frente! O rio é um caminho sem fim…”

Clique no link abaixo e acessa a obra que está disponível no site da ABL:

MOREYRA, Alvaro. As amargas, não– : (lembranças) / Alvaro Moreyra ; [apresentação Antonio Carlos Secchin]. Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2007.


Ângelo Chemello Pereira é formado em Publicidade e mestrando em Literatura.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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