Arthur de Faria: série As Origens, Parte VIII — A utopia da Casa A Electrica

Saverio Leonetti era uma figura. O italiano nasceu – as fontes divergem – em Cremona ou em Catanzaro, na província da Calábria, dia 16 de outubro de 1875. Chegou em Porto Alegre quando se acendiam as primeiras luzes do século XX. Tinha 25 anos, muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender. Era um ragazzo solto no mundo – ainda que já casado –, em plena virada de século. Nada parecia difícil. Principalmente para quem tinha a mesma vontade de fazer a América que motivara tantos compatriotas seus a se mandarem para o outro lado do Atlântico (gente como, pra ficar em um exemplo, o pai de Radamés Gnattali, de quem ainda falaremos muito, e que havia feito o mesmo poucos anos antes).

A saga de Leonetti começa numa terra que recebia buona gente aos magotes, importando até a máfia siciliana: os Estados Unidos. Aliás, falando em máfia, o pesquisador Hardy Vedana adorava contar a versão de que Leonetti teria engravidado uma moça de família cujo pai era ligado a essa turma – e que, por isso, ele teria se mandado da Itália. A versão é cinematograficamente ótima, mas tão pouco comprovável que Vedana nem sequer a cita em seu livro definitivo sobre o tema: A Electrica e os Discos Gaúcho.

O fato é que, em Nova York, nem Saverio nem seu irmão e companheiro de viagem Emilio acharam o que queriam. Embarcam então em outro navio, para uma cidade que era, nesse momento, quase uma colônia italiana: Buenos Aires. A capital argentina recebera nada menos que 800 mil imigrantes vindos da Itália durante a segunda metade do século XIX. Ali, a influência dos oriundi é até hoje imediatamente conferível, por exemplo, em qualquer breve lista de tangueiros: Piazzolla, Pugliese, Troilo, Berlingieri, Tarantino, Marconi, Di Sarli, Canaro…

Mas também não estava na capital portenha o que Leonetti procurava.

Contrariando todas as expectativas, ele se agradou mesmo foi de uma pequena capital regional, de pouco mais de 100 mil habitantes, chamada Porto Alegre. Tinha sido a penúltima escala do navio que trazia os irmãos dos Estados Unidos, e haviam ficado ali dois dias antes de seguir para Montevideo e, finalmente, Buenos Aires. Pois não é que aquele lugarzinho parecia ser o mais fértil terreno para as ideias do italiano?

Dito e feito: mal chegam a seu destino argentino, ele manda Emilio de volta pra capital gaúcha com a missão de alugar um prédio a fim de montarem uma loja. Enquanto isso, ele retorna ao mar, num navio rumo aos Estados Unidos. Missão: comprar o primeiro estoque que vai abastecer a loja na cidadezita.

Resultado: em novembro de 1908, Saverio e Emilio Leonetti inauguram sua primeira firma porto-alegrense, dedicada ao ramo de artigos de papelaria, cartões, postais, no varejo e no atacado. Vendiam também louças e brinquedos importados da Alemanha, França e Itália, instrumentos musicais, gramofones, discos e agulhas.

Além disso, eram os representantes locais das lâmpadas Osram para todo o estado – numa época em que a luz elétrica deixava rapidamente de ser um luxo de poucos para se espalhar pelos lares.

Deram-se muito bem, os gringos. Em tempos novidadeiros como aqueles, Porto Alegre não fugia à regra.

Os objetos de desejo número um eram os gramofones, que, devido aos seus altos preços, ainda eram privilégio de ricos. Importado da Europa, na primeira década do século um aparelho desses custava entre 75 e 450 mil réis, quando o salário de um trabalhador não passava de 150 mil. Pra piorar, os únicos discos que havia também eram, em sua maioria, fabricados no Velho Continente. Chapas com as vozes de grandes tenores, como Caruso, ou álbuns com 20 ou mais discos de 78rpm registrando óperas completas. Todos caros: um único disquinho variava entre três e seis mil réis. 

Além disso, em Porto Alegre eram encontrados em apenas três endereços: a Relojoaria Guarany, a Guinle & Cia e a Au Palais Royal. Leonetti abriu um olho gordo pro negócio e, em 1911, muda o nome de sua loja – que ficava originalmente na Rua dos Andradas 275-A, depois no 413 e finalmente no 302 – para Casa A Electrica.

Chegava bem a tempo de pegar a explosão (mundial) de interesse em música gravada. Meia década depois, já passaria de uma dezena o número de estabelecimentos comerciais porto-alegrenses que vendiam gramofones, discos, agulhas e outros acessórios.

* * *

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, desde agosto de 1902 a Casa Edison era a pioneira das gravações no Brasil. Seu dono era o tcheco naturalizado norte-americano Fred Figner, uma das figuras mais comentadas da Capital Federal. O cara tinha estratégia. Montara primeiro uma fábrica das suas máquinas Figner, fonógrafos com cilindros descartáveis e regraváveis, que eram o que havia de mais moderno então. Logo depois, se pusera a gravar. Leonetti certamente prestou atenção nisso.

E aí se dá margem para o primeiro da série de equívocos que este texto se propõe a esclarecer. É o que afirma que, quando começou seus trabalhos, a Edison era a única gravadora da América Latina

Só que em Buenos Aires, por exemplo, o primeiro estúdio de gravação (então chamado de laboratório de fonografia) é de 1900, e a primeira propaganda sobre discos gravados saiu na revista Caras y Caretas de 23 do mesmo agosto de 1902 em que a Casa Edison começou seus trabalhos.

Para que os discos fossem vendidos, obviamente já tinham sido gravados. Em seguida, fabricados, a partir de suas matrizes. E só havia fábricas nos Estados Unidos e na Europa. Para percorrer o longo percurso oceânico de ida e volta, as gravações teriam de ter sido feitas bem antes de agosto de 1902. Ou seja: não. A Edison não foi a primeira gravadora da América Latina.

E nada garante que, de toda a América Latina, só em Buenos Aires se gravasse antes que no Rio de Janeiro. Haveria de se conferir isso nos demais países (quem se habilita?). O mais irônico disso é que quem tem fama de se achar o centro do mundo são justamente os argentinos, e não os brasileiros…

Saverio na época em que chegou a Porto Alegre
A capa do livro do pesquisador Hardy Vedana, com um dos selos da Casa A Electrica, o “Disco Gaúcho”

Arthur de Faria nasceu no ano que não terminou, é compositor de profissão (15 discos, meia centena de trilhas) e doutorando em literatura brasileira na UFRGS por puro amor desinteressado. Publicou Elis, uma biografia musical (Arquipélago, 2015).

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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