Arthur de Faria: História do rock gaúcho – capítulo 3

E aí os Beatles.

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O quarteto chega aqui no começo de 1964, em dois compactos: I Want to Hold Your Hand e Please Please Me. Até o final do ano do Golpe Militar teria dois LPs editados no Brasil: Beatlemania, que era o With the Beatles quase na íntegra, e Beatles Again, uma salada mista. A partir daí, se tornaram assunto obrigatório onde dois ou mais jovens se encontrassem – para dançar ou não, para falar mal ou falar bem. Como já havia acontecido nos momentos rock anteriores, a febre se espalha definitivamente com o filme A Hard Day’s Night – traduzido aqui para Os Reis do Ié-Ié-Ié

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Era só o que faltava. 

Mais do que em muitas cidades brasileiras, em Porto Alegre todo jovem músico de classe média queria ser um beatle. As exceções eram os bossa-novistas tardios ou alguns militantes da nascente MPB engajada – mas muitos destes passaram a ter vida dupla.

Em 1965 (mais especificamente, domingo, 22 de agosto), estreia na TV Record o programa Jovem Guarda, que em dois anos suplantaria a popularidade de seu concorrente Fino [da Bossa], apresentado pela gaúcha Elis Regina – que, em um ano a contar de março de 64, foi embora de Porto Alegre, ganhou o Primeiro Festival de MPB e virou a maior cantora do País. Ali nascia a Jovem Guarda, com Roberto Carlos assumindo o posto de ídolo maior da maior parte da juventude nacional e (con)fundindo rock com o que foi batizado no Brasil de iê-iê-iê (por causa de Os Reis do Iê-Iê-Iê, título que, por sua vez, vinha da canção She Loves You, com aquele momento Yeah, Yeah, Yeah…). 

Só que em Porto Alegre se tocava mais rock do que jovem guarda. Tanto que, em 1967, ano em que a Tropicália vem embaralhar tudo de vez, mais de uma centena de bandas locais tinha nos Beatles – e não em Roberto Carlos – a base ou parte muito importante de seu repertório. 

Para quem tocava “rock” ficou muito fácil trabalhar com música. Em todos os clubes do Estado, a base das festas jovens não eram mais orquestras ou conjuntos melódicos, mas sim bandas de guitarra (já com vocais). Chegavam a revezar-se até oito por noite, e as melhores faziam seis, sete bailes num final de semana. Todo mundo correndo de um lado pra outro, cada um na sua Kombi, com seu próprio equipamento – que tinha de ser montado em 15 minutos – e seu roadie (na época chamado de “bicão”). 

Nesse final de década de 1960 o mercado local para o gênero estava tão sedimentado que engana-se quem acha que os anos de 1980 foram o grande momento do rock gaúcho. Ao menos em quantidade. Nestes finais de 60 a cena efervescia. O cenário é que não permitia maiores ambições. Disco, por exemplo, nem pensar. A maior aspiração era fazer o maior número de bailinhos possível, com eventuais aparições no rádio ao vivo e nos programas televisivos, também ao vivo. 

Mas programas não faltavam (infinitamente mais do que hoje): TV de Brinquedo, apresentado por Antônio Gabriel na TV Piratini, Parque Infantil, de Valdemar Garcia, Q-Sucessos e Juventude em Brasa, com Daltro Cavalheiro – que nos fins de semana realizava com os grupos a famosa ‘Seis Horas de Iê-iê-iê’, lotando o Dinamite, o União e Progresso, a Sociedade Espanhola e outros clubes importantes da cidade. O melhor de todos, o sonho das bandas, era na TV Gaúcha:  se chamava GR-Show e era apresentado pelo esfuziante Glênio Reis.

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Além disso, havia o rádio, e a Rádio Difusora tinha desde 1961 o seu Lactaclube – de 65 a 69 rebatizado de Clube Difusora Banrisul  -, onde os Dazzles eram reis. 

Além dos Dazzles, o cenário da capital gaúcha fervia com The Brazilian Beatles, Os Minis, Os Felinos, os conjuntos femininos As Brasas e As Andorinhas, Os Maníacos, Os Boinas Azuis, The Baby’s, The Thunder’s, Os Incendiários, Os Alucinantes, Os Corsários, The Tigers, Os Morcegos ou Os Corujas. Pra não falar no Liverpool, sobre o qual nos debruçaremos com vagar. No total, só em Porto Alegre, mais de 200 bandas. Todas com muito trabalho.

Heleno Gimenez ficou conhecido como um dos grandes nomes da música regional gaúcha. Mas começou nesse cenário rock, como vários outros nomes do gênero – nacionalmente, o mesmo aconteceu com os hoje sertanejos Sérgio Reis ou Eduardo Araújo, por exemplo.

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Heleno, no baixo, com sua primeira banda: The Riders (acervo Heleno Gimenez)


Nos anos 1960 a guitarra-base de Heleno liderava Os Bárbaros, que se completava com Samir (saxofone), Vladmir (guitarra solo), Valdomiro (baixo elétrico) e Betinho Baraldo (bateria). E é de Heleno um interessantíssimo e detalhado depoimento sobre esse cena, revelado aos poucos num diálogo de Facebook, em 2013:

Seguíamos, como todos os outros grupos jovens, o caminho do rock instrumental internacional dos grupos The Ventures, The Shadows, e dos nacionais The Jet Blacks, The Jordans e Os Incríveis. O repertório era quase o mesmo em todos os conjuntos dessa época (…) que fizeram nome nas tão famosas reuniões dançantes. Todos iniciavam o baile ao som de “O Milionário”, “Blue Star”, “Apache”, “Tema para Jovens Enamorados”… 

O transporte era feito em Kombis alugadas, e numa única noite tocávamos em vários clubes, sendo uma ou duas horas de apresentação em cada. Todos se encontravam entre chegadas e saídas, carregando seus amplificadores e lindas guitarras modelo STAR, onde a parte frontal era revestida de fórmica em cores diversas, fabricadas pelo Seu Adão, da Mil Sons (hoje Martin Sons). 

Importante: rock e tecnologia sempre andaram ligados. E, nestes tempos heroicos em que ninguém sonhava com a possibilidade de entrar numa loja e comprar uma guitarra Gibson ou um baixo Fender, todo mundo se virava com os tão toscos quanto corajosos instrumentos que, desde os anos 50, eram construídos por seu Adão Martins em parceria com o Zé das Guitarras, na fábrica Mil Sons, no Partenon.

Segue Heleno:

Havia apenas um efeito sonoro para os solistas: o “trêmolo”, que era feito em um taco de madeira com um botão igual ao de uma campainha usada nas portas das casas, e quando pressionado pelo pé do guitarrista, uma das válvulas do amplificador acendia e apagava em uma velocidade já previamente regulada por um potenciômetro (6L6 era o nome dessa válvula). Lembro que tínhamos sempre três ou quatro de reserva, pois queimavam com frequência. 

Surgiu então o aparelho True Reverber da Giannini, que trazia para o efeito de reverberação uma espécie de caixa feita em metal, e em seu interior havia duas molas esticadas. O cuidado com essa caixa era imprescindível, pois a qualquer trepidação as molas vibravam e um tipo de estouro saía pelos alto-falantes. 

Pouco tempo depois a fábrica Phelpa lança o amplificador “Apache” com “câmara de eco”, o efeito sonoro tão desejado pelos guitarristas. O mecanismo criado para produzir o eco era sensacional: imaginem uma fita de gravador de rolo de 2 canais emendada nas pontas com mais ou menos 20cm de diâmetro. Chamava-se “fita sem fim”, e girava como uma correia em velocidade também controlada por sobre 3 cabeças de gravador, colocadas em ordem triangular, que faziam trabalho simultâneo, gravando, apagando e reproduzindo as notas emitidas. 

Não posso deixar de citar aqui as excelentes guitarras que surgiram depois: a Gemimi e a tão cobiçada Super Sonic da Giannini, inspirada na Fender Telecaster, que nós, músicos, só víamos em fotos de capas de LPs dos conjuntos internacionais. Nos dias de hoje quem tem uma Super Sonic sabe a relíquia que tem… 
(…)
O lucro dessa imensa quantidade de grupos musicais era recolhido por dois empresários: Rosário Vechio e Rubens Quinteiro, que também contratavam e traziam os shows de artistas famosos do centro do país para se apresentarem em Porto Alegre, na maioria das vezes acompanhados pelos grupos aqui já citados. (…) As salas destes empresários situavam-se no edifício Chaves Barcelos, conhecido como edifício do Relógio, bem na esquina da Rua dos Andradas com a General Câmara, onde o entra-e-sai de músicos era uma constante. Feitos os contatos empresariais, os artistas se reuniam na frente do prédio para contar o que haviam conseguido de trabalho para o fim de semana que se aproximava. Este local  também ficou conhecido pelo nome de Largo dos Músicos. 

Na proporção inversa de trabalho, iam as orquestras, melódicos e todos os músicos que tinham tido sua formação nas décadas anteriores. Evidentemente, era franca a hostilidade. Os novos músicos eram um bando de macacos, cabeludos e outras amabilidades do gênero. Na verdade, os ‘veteranos nacionalistas’ tocavam quase tanta música americana quanto os ‘jovens americanizados’. Só as músicas é que eram diferentes.

Poucos desses veteranos souberam manter-se ‘na crista da onda’. Entre os não-músicos, o caso mais interessante é o do radialista Glênio Reis, o do GR Show. Primeiro disk-jóquei (DJ) do Rio Grande do Sul, Glênio começou a carreira no final dos anos 1950, na Difusora, e foi o primeiro locutor a falar de maneira informal no sul do Brasil, além de ter sido o pioneiro a, já trintão, tocar discos de Jimi Hendrix, Janis Joplin ou Steppenwolf. Do rádio foi pra TV e arrebentou no programa de auditório de maior sucesso na TV Gaúcha: o GR Show

Glênio tornou-se um importante porta-voz de todos os jovens, com 25 anos a mais que eles. Em seu programa, um dos quadros de maior sucesso era o que apresentava bandas locais tocando o melhor da Jovem Guarda, do rock e da Tropicália. Pra ele, que desde o final dos anos 50 se dedicava a testar os limites das conservadoras ondas sonoras do rádio porto-alegrense, nada era estranho:

Aquelas coisas água-com-açúcar que tocavam (na
rádio) não batiam muito comigo. Enquanto as outras
rádios entravam com tangos e boleros, eu botava rock
pauleira mesmo. Umas faixas de seis, sete minutos.

Em 1968, quando estreou o GR-Show, Glênio era um jovem de 50 anos. Morreu jovem – e trabalhando. Ainda que tivesse 86 anos quando isso aconteceu, dia 15 de Agosto de 2014.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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