Arthur de Faria: Série As Origens – Capítulo XXIII – Marino e Paulino

Não encerremos este capítulo sobre os “jazz” de Porto Alegre sem seguir as histórias de Marino e Paulino, dois instrumentistas negros, basicamente saxofonistas, e tão importantes quanto esquecidos na história da música da cidade.

O porto-alegrense Marino dos Santos nasceu no bairro Mont´Serrat dia 26 de abril de 1908. E, como seus já citados contemporâneos Paulo Coelho, Radamés Gnattali, Dante Santoro e Lupicínio Rodrigues, aos 15 anos já era um músico de respeito. O que se botava no leite dessas crianças é um mistério perdido.

Marino nos anos 30 (Reprodução: VEDANA, Hardy. Jazz em Porto Alegre. Porto Alegre: L&PM, 1987)  

Com seis, tocava cavaquinho nos saraus familiares. Aos nove, começou a estudar violão, e já se apresentava em público cantando e tocando. Aos 12 – em 1920 – é admitido na orquestrinha do irmão, que tinha flauta, três violinos, violoncelo, dois violões e ele no cavaquinho e na bandola. O repertório variava: para os bailes na Colônia Africana, maxixes, quadrilhas e tanguinhos. Para as plateias de brancos, valsas e pot-pourris de operetas. Como isso soava ou era arranjado, não se sabe, afinal ninguém ali lia ou escrevia música.

Já era um nome relativamente conhecido quando, em 1923, Albino Rosa o chama para o regional Espia Só. E aí entram duas versões para a descoberta de Marino como saxofonista. Mais uma vez, ambas contadas pelo mesmo pesquisador, e no mesmo livro: de Hardy Vedana, Jazz em Porto Alegre.

A versão A é que já se contou aqui (na coluna anterior): Albino adquiriu um lote de instrumentos, incluindo saxofones, e equipou o pessoal.

Já a versão B é Hollywood puro: Marino sonhava em comprar um instrumento caro e ainda raro como aquele. Achar, até tinha achado. Estava lá, na vitrine da loja de música do Valcareggi (que segue firme até hoje, no mesmo endereço, na rua João Alfredo, bairro Cidade Baixa). Mas cadê dinheiro? Pois a mágica solução vem por obra e graça de um anjo de guarda de nome Oswaldo Vergara (Jaguarão, fronteira com o Uruguai, 1883 – Porto Alegre, 1973, professor, advogado e político de grande presença na cena gaúcha em seu tempo), o doutor para quem, nas horas ocupadas, Marino trabalhava como… motorista.

Foi no exercício de sua função que, um belo dia, ele desviou-se da rota do doutor para passar, por acaso, na frente da loja. Parou o carro e, num ímpeto, lascou: 

– O senhor tem que comprar aquele instrumento pra mim!

Deu certo. 

O doutor abriu a carteira e lhe presenteou com os 200 mil réis necessários. Em cinco minutos Marino era o feliz proprietário de um saxofone, indo levar seu patrão para uma audiência no fórum. E não foi só. O filho do doutor tocava piano, e foi com o “Dr. Jr.” no acompanhamento que Marino começou a aprender, totalmente autodidata, o novo instrumento. Mal tocava as primeiras notas quando enfrentou o primeiro baile. Instrumento na mão, muita cara de pau e uma certa capacidade de improvisação foram as armas usadas pra enfrentar, no Jazz Espia Só, seu vasto repertório de… cinco músicas.

Qual das duas versões é a exata? Vai saber…

Paulino nos anos 1950 (Foto: autor desconhecido)

Voltando a Paulino “Mô Nêgo” Mathias: esse tinha nascido em Santo Antônio da Patrulha (73 km a leste de Porto Alegre), dia 10 de janeiro de 1910. Mais um que, aos 15 anos, já era profissional. Tocava bandolim no grupo Os Boêmios – cujo violonista e cantor era Zé Bernardes, da futura dupla regionalista/caipira Oswaldinho & Zé Bernardes. Os Boêmios, contradizendo o nome, eram então um dos conjuntos musicais mais requisitados para animar… piqueniques! (Sempre lembrando que não havia caixinhas portáteis com bluetooth, nem rádio, e gramofones não eram nem portáteis nem baratos; portanto a melhor opção para se ouvir música num piquenique era contratar uma banda.)

Da trajetória de Marino e Paulino no Espia Só, já se falou. 

Sigamos pois, daí.

Marino sai do grupo em 1928 pra tocar com Paulo Coelho na Confeitaria Central. E foi meio no susto: estava lá ele tocando um baile na Colônia Africana quando vê entrar porta adentro um branco: o já então famoso Paulo. Quase tão jovem quanto Marino (tinha míseros 18 anos, contra os 20 do saxofonista), Coelho era uma estrela na cidade, e vinha fazer um convite irrecusável: queria que Marino fosse o principal solista do jazz que ele estava montando para tocar na confeitaria. Marino hesitou, hesitou, e não topou: 

Eu tinha até vergonha de conversar com ele. Me sentia inferiorizado em virtude de ele tocar nas melhores casas do centro da cidade, e eu, na periferia

Não disse pro Paulo, mas também sabia que não lia música suficientemente bem pra enfrentar um aluno de Guilherme Fontainha no Conservatório de Música de Porto Alegre. Mas ficaram de se falar.

A solução encontrada foi a mais óbvia: Marino deu uma intensiva de estudos em leitura musical e, quando achou que dava pra encarar, procurou Paulo. Assumiu o posto na hora. A partir dali, se Porto Alegre teve seu Duke Ellington, e ele foi Paulo, Marino foi seu Johnny Hodges: 

Eu era uma pedra bruta que fui (sic) lapidada por PauloFeliz daquele que foi acompanhado pelo melhor pianista da América Latina, sem favor nenhum.

O único intervalo na parceria foi quando, em 1930, empolgado com a Revolução, Marino se alista nas forças getulistas (não que eu quisesse ser militar, mas sabe como é o entusiasmo cívico! Ainda mais sendo gaúcho, e naqueles dias!). Foi parar em Passo Fundo, norte do Rio Grande do Sul. Lá, fez exame de música e, sempre modestíssimo, se surpreendeu quando foi aprovado na parte teórica. Dali, se mandou para o Rio de Janeiro com o Sétimo Batalhão de Combate. Fez um novo concurso, passou em terceiro lugar, e ganhou o posto de terceiro-sargento-músico. 

E aí, pombas, estava no Rio de Janeiro de 1930, sendo um bom músico. É evidente que passou a fugir do quartel para, com seu sax soprano, fazer uma pós-graduação em choro, ministrada nos piores botecos do Mangue. Quando se sentiu diplomado honoris causa, voltou pra Porto Alegre, deu baixa, e reassumiu seu posto com Paulo Coelho, embarcando com ele para uma gloriosa estada de um ano em Buenos Aires.

A partir daí, Marino também vai também fazendo alguma fama como compositor. É seu um choro que ficou clássico nas rodas locais, Saxofonista Triste, além da polca com o bárbaro título de Jair Furando e a polca-valsa Silvinha – prova definitiva de que a época era mesmo de fusões: que diabos é uma polca-valsa?!?

Popularidade e trabalho não faltavam. Em meados dos anos 1930, além de brilhar na orquestra de Paulo, também integra o Jazz Carris. E, como todos ali tinham de trabalhar não só como músico, virou motorneiro. Ou quase:  Como eu tocava e compunha razoavelmente bem, o diretor da Carris seguidamente me dispensava do serviço de motorneiro. Daí a facilidade de tocar em três lugares (na rádio e nos cafés – com Paulo –, e na Carris)

Claro que também pode ter pesado o fato do motorneiro Marino ter entrado com tudo em cima de outro bonde, pelo simples fato de que pegou na firma às cinco da manhã, virado de um baile terminado às quatro. Que horas ele dormiu? Dirigindo o bonde, claro.

Quando Paulo Coelho morreu, ainda jovem, Marino já tinha saído do jazz-band e formado seus próprios conjuntos. Um deles era um quarteto com o lendário pianista Swing, para tocar na Boate Marabá. O outro era a Marino e Sua Orquestra, com 10 figuras, arranjada pelo mesmo Swing e contratada da Rádio Difusora. Essa era um time de responsa: entre outros, o velho parceiro Paulino Mathias no sax tenor, guitarra e contrabaixo, o futuro Maestro Macedinho no sax alto e Horacina Corrêa no vocal.

Sua moral é tanta que, em 1941, quando é feito o primeiro concurso de jazz bands de Porto Alegre, a matéria da Folha da Tarde intitulada Qual será o melhor jazz da cidade? coloca como grande questão a dúvida: 

Marino. Ele aceitará ou não? “It’s the question”! Por enquanto, o popular saxofonista nada decidiu. 

E segue: 

Em Marino, indiscutivelmente, reside uma boa parcela do interêsse que despertará a contenda.

A popularidade da Orquestra logo os leva a São Paulo, contratados pela Rádio Cultura. Tocam algum tempo por lá, mas o que faz sucesso mesmo é um quinteto paralelo, com Marino no clarinete, Swing no piano, Paulino no contrabaixo, mais trompete e bateria. Tanto que, quando acaba o primeiro contrato, os músicos, sintomaticamente gaúchos, decidem voltar pra casa. Só ele fica.

Trabalha com grandes orquestras paulistas, como a de Sylvio Mazzuca, e só volta a Porto Alegre em 1948, novamente por um bom motivo. Fundar a melhor big-band surgida desde a Jazz-Band de Paulo Coelho: a Orquestra Ernani & Marino. O grupo, que além dos dois (Ernani Oliveira, trompete) tinha também como estrela o baterista Natalício, faz muito sucesso até 1954, quando Marino vai embora de novo. Desta vez para o Rio, direto para a orquestra da TV Tupi.

Enquanto isso tudo acontecia, Paulino Mathias fazia seu nome nos melhores cabarés da época: o Dancing Royal, o Dancing Oriente (ambos nos anos de 1930 e 40) e o Castelo Rosado (nos 1950). Ao mesmo tempo, iluminava as transmissões da Rádio Gaúcha, para a qual fora contratado já em 1934: era um grande improvisador, coisa rara nestes tempos. E, apesar de ter se estabelecido como saxofonista e clarinetista, seguia tocando – e bem – bandolim, violino e violão.

Em 1960, Marino volta pela última vez a Porto Alegre, e novamente pra tocar na melhor big-band de então. Que, desta vez, é a Orquestra de Karl Faust, da Rádio Gaúcha – onde permanece até que, no final dos anos de 1960, o alemão Faust volta para sua terra natal, a rádio perde seu público para a TV, as Big Bands perdem trabalho para as bandas de guitarra e os conjuntos melódicos e Marino e Paulinho passam a viver o périplo de toda sua geração de instrumentistas, passando da mais alta glória para empregos crescentemente indignos, em boates e inferninhos cada vez mais decadentes. Até o momento em que nem isso mais havia.

Paulino morre em Porto Alegre, em 1977, completamente esquecido. Tão ou mais que Marino, que se vai três anos depois, morando modestamente numa casinha na Vila Nova (zona rural no extremo sul de Porto Alegre). 

Na Porto Alegre de 1980, ninguém queria saber de velhos saxofonistas de tempos idos.


Arthur de Faria nasceu no ano que não terminou, é compositor de profissão (15 discos, meia centena de trilhas) e doutorando em literatura brasileira na UFRGS por puro amor desinteressado. Publicou Elis, uma biografia musical (Arquipélago, 2015).

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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