Arthur de Faria: Série As Origens – Parte XX

Se no final dos anos 1910 quem volta de estudar música no Instituto (para cegos) Benjamin Constant é o nosso já citado Arthur Elsner, uma década depois acontece o mesmo com outro grande músico: o violonista Levino Albano da Conceição. Tem quem garanta que ele nasceu em Caçapava (RS), mas a maior parte dos pesquisadores afirma que ele veio ao mundo em Cuiabá, Mato Grosso. Também não há consenso quanto ao ano: 1895 ou 1896. O dia é mais fácil: 12. Já o mês varia: outubro ou novembro. É, amigo: dureza essa vida de pesquisador!

Enquanto Elsner era cego de nascença, Levino perdera a visão aos sete anos. Mas aos nove (há quem diga aos 12), em Cuiabá, já era conhecido como um craque do violão – e grande improvisador! Mais um da longa série de meninos-prodígio deste capítulo. Que geração!

Aos 22, não se sabe como nem por quê, estava morando em Porto Alegre. E é na capital gaúcha que vai estrear oficialmente num palco, com um concerto no Theatro São Pedro, em 1918. Logo em seguida, está no Rio de Janeiro, no Benjamin Constant. Lá, se especializa em violão com o renomado professor Joaquim dos Santos e logo está dando aula de música a seus colegas.

Volta a Porto Alegre e passa alguns anos no estado, deixando a comunidade musical boquiaberta. Tocava na capital e no interior, fazendo imenso sucesso entre plateias cheias de músicos. Que estavam lá para ver de perto suas interpretações muito pessoais de páginas eruditas adaptadas, como A Cavalaria Rusticana, ou os dificílimos tanguinhos e choros que compunha. Peças que, já pelo título, avisavam o que vinha pela frente: Marciano no ChoroNão CombinaNão Salta José ou Há Quem Resista? Como quase todos os grandes músicos de sua geração, logo entrou para a turma de Octavio Dutra.

  Nos anos 1930, era um dos maiores nomes do instrumento no país, figurinha carimbada na revista carioca O Violão, chamado de O Rei do Violão pela imprensa e destaque do Dicionario de Guitarristas, editado em 1935 em Buenos Aires por Domingo Prat. Diz ali:

Es considerado como uno de los más grandes solistas de su patria, alcanzando su
nombre una notoriedad en verdad muy grande.

Como Octavio Dutra, também fez nome como maestro-ensaiador de alguns dos melhores grupos carnavalescos de então, como o Bloco dos Tigres (os dois chegam a assinar em parceria uma série de sucessos momescos, como Victoria). E aí, em 1939 – há quem fale em 1933 – muda-se novamente para o Rio. Dali, viaja pelos principais palcos do Brasil, sempre achando um tempo para fundar escolas de música para cegos (com apoio do Instituto Benjamin Constant) e dar aulas para futuros virtuoses. Como Dilermando Reis, que começou sua carreira, ainda garoto, acompanhando o mestre.

Para lembrar o amor que sempre teve à terra que primeiro o reconheceu à grande (e talvez o tenha parido), compôs peças como Canção Gaúcha ou Saudades do Rio Grande. No fim da vida, foi morar em Cuiabá. Onde, segundo alguns, morreu em algum ponto dos anos de 1950. Mas outros afirmam – apostaria nessa – que sua morte foi em Niterói, no Rio, dia 19 de fevereiro de 1955.

* * *

Na literatura, a Porto Alegre pré-Revolução de 30 está imersa nas vanguardas modernistas, com nomes como Tyrteu Rocha Vianna, Ernani Fornari, Athos Damasceno e Augusto Meyer – todos fazendo boa poesia sobre temas urbanos e regionais.

Na política, com uma única ausência entre 1908 e 1913, o que temos é Borges de Medeiros. Governando o estado como um imperador por 24 anos – desde 1897 “vencera” cinco eleições (algumas inclusive sem adversários). Por ele passaram nada menos que onze presidentes da república! Afinal, rezava pela cartilha de Augusto Comte, que garantia que “toda escolha dos superiores pelos inferiores é profundamente anárquica”.

O pessoal até que tentou derrubá-lo, na sangrenta Revolução de 23, liderada por um Assis Brasil furibundo por perder mais uma eleição fraudada. Foram 324 dias de muita correria e poucos (mas sangrentos) combates. Mas não tinha como: contra as metralhadoras dos legalistas, os revolucionários iam com cargas de lanceiros, a mesma estratégia usada um século antes, na Revolução Farroupilha. Dá pra se dizer que acabava ali, cruamente, a Belle Époque nos perdidos suis do Brasil. Porto Alegre tinha então pouco mais de 205 mil habitantes: quase o dobro de dez anos antes.

Cinco anos depois, em 1928, o mesmo Getúlio Vargas que havia coordenado a fraude da eleição de 1922 como presidente da Comissão de Constituição e Poderes da Assembleia dos Representantes começa sua irresistível ascensão política justamente conciliando os até então inconciliáveis chimangos e maragatos.

E ainda nessa década, entre 1924 e 1927, um líder tenentista gaúcho, extremamente carismático, parte de Santo Ângelo e percorre 25 mil quilômetros de Brasis à frente da sua coluna de milhares de homens. Queriam derrubar o governo de Artur Bernardes. Acabaram dispersos, na Bolívia. E o tal líder, de nome Luís Carlos Prestes, começaria ali sua lenda. Ainda pintando o cenário desses anos de 1920, há que se falar dos cafés e confeitarias com música ao vivo, então popularíssimos. 

Porto Alegre tinha mais de trinta, cada um com sua orquestrinha E sua típica de tango ou ambos. Cenário brilhantemente retratado in loco pelo cronista Achylles Porto Alegre, em 1920: 

O “café” moderno é o ponto de reunião dos intellectuais, dos
jornalistas, dos artistas e dos políticos. Ahi, entre uma fumaça e um gole
de café, se combinam os mais arrojados planos litterarios, artísticos e
administrativos. Ahi se concebem num relance, deante da chavena ou do
calice inspirador, o poema, o romance, o artigo de fundo, a chronica, o
quadro, a eleição do presidente da Republica ou a organisação de um
ministerio. Ahi se planejam revoluções e deposições de governo. Ahi se
guinda o indivíduo ao Capitolio ou se o arremessa da Rocha Tarpea. Ahi, o
escriptor naturalista ou realista vai estudar, surpreender e apanhar os
typos vivos de seus contos, de suas novellas e romances. (…) É, por assim dizer,
o “pivot” da vida contemporanea.

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Já que se falou nas orquestras típicas…

O Rio Grande do Sul ouvia muito tango. Muito. Nas cidades da fronteira com a Argentina e o Uruguai, então, não tinha nem graça. O processo se intensificaria nos anos de 1930, com as rádios El Mundo e Belgrano, argentinas e tangueiras, sendo tão ou mais escutadas nessas cidades do que as emissoras brasileiras. O futuro sambista Túlio Piva, por exemplo, morador da fronteiriça Santiago do Boqueirão, só ouvia essas rádios. Radamés Gnattali lembrava claramente da década de 1920 na sua cidade: 

Em Porto Alegre, só se tocava tango argentino. O samba estava restrito ao Rio.

Ainda haveria outros surtos tangueiros nas décadas seguintes, mas esse primeiro foi talvez o mais importante. Ribombou no sul com força de trovoada, mas soou em todo o país: A Media Luz e La Cumparsita estavam entre as músicas mais tocadas no Brasil de 1927. No ano seguinte, emplacam da mesma forma CaminitoChe PapusaMano a Mano e Esta Noche me Emborracho, sucessos de Carlos Gardel. No mesmo ano, também, se torna muito popular um dos primeiros tangos argentinos brasileiros (sic), composto em espanhol por Raul Roulien: Adiós Mis Farras. O primeiro havia sido escrito 10 anos antes, por Ernesto Nazareth: Nove de Julho.

Nenhum gênero internacional suplantava a popularidade do ritmo argentino no Brasil desse momento. Até na Bahia – Jorge Amado que o diga – se tocava e dançava o ritmo portenho. Octavio Dutra – sempre ele – chegou a escrever arranjos para tangos de Gardel, para serem tocados com seu regional. E compôs também mais de um tango argentino (lembra, né? nessa época ainda havia, forte, o tango brasileiro, que já era bem diferente).

O surto era tão generalizado que, por toda a década de 1920, as grandes atrações dos cabarés gaúchos eram típicas de tango, e não a música brasileira, cubana ou americana tocada por orquestras, jazz-bands ou seja-lá-o-que-for. Sim: muitas casas noturnas, confeitarias e cafés tinham duas bandas contratadas, e uma delas era só para tocar tangos e milongas (a outra tocava todas as outras músicas).

E até se dançavam maxixes, mas não pegava bem. Mesmo que já em 1898 o Correio do Povo registrasse o gênero tocado com cavaquinhos, violões e pandeiros, ainda era “música de negros”, e suas coreografias só eram permitidas a eles. As exceções eram o Carnaval ou os puteiros de todos os níveis. Tá lá no jornal A Federação, em 1906: 

O maxixe é tudo que há de mais puro brasileiro. É a nossa dansa
popular. Está bem claro que não é dansado nos salões da melhor roda
social; não é uma dansa distincta. Mas é sempre dansada nos
cafés-concertos, sociedades de rapazes e em todas as festas populares.

Para que se tenha uma ideia da segregação que sofriam no estado os ritmos negros cariocas – então já popularíssimos no resto do país -, é demonstrativo o exemplo, mais uma vez, de Octavio Dutra. O principal compositor dos primeiros 30 anos da música de Porto Alegre compôs (que se saiba) 482 músicas. Destas, míseras 16 eram sambas e outras duas, sambas-canções. Um retrato do contexto muito peculiar em que viviam os gaúchos, desde então se sentindo diferentes do resto do seu próprio país. Maxixes, lundus e, logo depois, os primeiros sambas, eram coisa de negros e pronto. Quem comprava discos não comprava esses discos. Muitos deles, as fábricas nem mandavam para as lojas do sul.

Mais um dado para defender a tese: nas pioneiras gravações dos Discos Rio-grandenses, em 1913, as 102 músicas registradas em Porto Alegre são 16 polcas, 15 valsas, 14 schottischs, 11 modinhas, 11 dobrados e nenhum samba ou maxixe. Enquanto isso, depois de conquistarem os cabarés e dancings, as típicas de tango permaneceriam em alta pelos 50 anos seguintes.

Por mais de meio século, umas épocas mais, outras menos, todo mundo em Porto Alegre sabia ao menos os passos básicos do tango. Como prova definitiva de que desde a década de 1910 o ritmo já era incorporadamente gaúcho, há uma notícia publicada no Correio do Povo, em 1914. Nela, um jornalista não identificado fala com curiosidade e espanto sobre a polêmica que o excesso de voluptuosidade nas coreografias do ritmo estava despertando na Europa. O texto se espantava justamente com o choque dos europeus perante algo que para os leitores gaúchos já era tão corriqueiro. E dançado até no carnaval.

Se o samba custou a emplacar – e o maxixe só o faria no final da década de 1920 – a avassaladora febre nordestina que se espalhou pelo Brasil nos primeiros anos do século XX pegou forte na gauchada. O micróbio da tal enfermidade se chamava Turunas Pernambucanos, grupo que havia descido do Recife para encantar o público gaúcho em 1924. 


Tururnas Pernambucanos (Foto: domínio público)


Na onda, até Octavio Dutra escreveu uma canção sertaneja – chamada justamente… Sertaneja, sucesso no carnaval. E não foi só: aproveitou a passagem dos Turunas para compor umas coisinhas em parceria com o saxofonista Ratinho, uma das estrelas do grupo (o qual tinha também o violonista Jararaca, com quem Ratinho formaria depois a dupla Jararaca & Ratinho).Mas não é espantoso que os chorões daqui se deixassem influenciar pelos pernambucanos. Afinal, no Rio, três anos depois, um novo grupo nos mesmos moldes, os Turunas da Mauriceia, motivaria o surgimento de discípulos como o Bando de Tangarás – que reunia, entre outros, Noel Rosa, Almirante e João de Barro.


Turunas da Mauriceia (Foto: domínio público)

E o curioso é que eles já eram produto da influência dos citados Turunas Pernambucanos. Que, por sua vez, tinham nascido totalmente influenciados por um grupo… carioca! Os Oito Batutas, de Donga e Pixinguinha, que haviam passado por Pernambuco em 1922. Oito Batutas que, por sua vez, fora criado por inspiração no Grupo de Caxangá, liderado pelo violonista pernambucano João Pernambuco. Isso é que é globalização…


Pixinguinha e grupo em Porto Alegre (Foto: domínio público)

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Para ouvir


Arthur de Faria nasceu no ano que não terminou, é compositor de profissão (15 discos, meia centena de trilhas) e doutorando em literatura brasileira na UFRGS por puro amor desinteressado. Publicou Elis, uma biografia musical (Arquipélago, 2015).

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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