Cláudia Laitano: A palavra é: Apropriação cultural

APROPRIAÇÃO CULTURAL

“Apropriação cultural existe, mas é MUITO diferente do que a galera pinta por aí. Fantasia não é apropriação cultural. Pode ser escárnio, babaquice, racismo, mas não é apropriação cultural. Apropriação é quando essas empresas usam luta social pra lucrar e geral acha lindo…” (@RikkHardo no Twitter)  

 

DEFINIÇÃO:

  • Adoção de elementos de uma cultura por membros de outra cultura. O gesto pode ser controverso quando a cultura que está sendo apropriada é parte de um grupo historicamente oprimido.

ORIGEM: 

  • O termo surgiu na década de 1980 em discussões acadêmicas sobre pós-colonialismo e o tratamento de culturas minoritárias. A partir daí, a expressão chegou ao léxico moderno, podendo referir-se tanto a elementos como maquiagem, figurino, penteados e tatuagens, quanto à linguagem e até a certas práticas de bem-estar associadas a culturas não ocidentais. 

QUEM USOU:

  • “A atriz Alessandra Negrini desfilou no domingo (16) no bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, durante o pré-Carnaval de São Paulo, paramentada com um cocar e pinturas indígenas no rosto e no corpo. Negrini é rainha do bloco e estava acompanhada de lideranças indígenas, entre as quais Sônia Guajajara, candidata à vice-presidência pelo PSOL em 2018 e coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, associação nacional de entidades que representam povos indígenas de todo o país. O traje da artista reavivou a discussão sobre apropriação cultural, que não se restringe ao Carnaval, mas tem aparecido em meio à festa em anos recentes. Alguns grupos questionam o uso de símbolos culturais de setores minoritários, entre eles indígenas, como fantasia. Em 2018, a ativista indígena Katú Mirim publicou um vídeo que deu início à campanha #ÍndioNãoÉFantasia. Para ela, a caracterização reforça estereótipos. ‘Pessoas não são fantasia, nossa cultura não é fantasia. Ela existe, nós existimos’, disse na época”. (Juliana Domingos de Lima, no Nexo, em 17 de fevereiro)

 

 

  • “Sobrou até pro Cacique de Ramos. Na onda de ataques a Negrini, algum muleke piranhíssimo solta uma trolada e disse que o Cacique era racista, porque tem um índio como símbolo. Foi preciso o Luiz Simas vir a público explicar a ORIGEM do Cacique. A lista feita no Diário Oficial de BH pelo prefeito Kalil me soa mais como conquista de consumidor, como hipocrisia, do que como consciência. Dizer pras pessoas não se ‘vestirem de mulher’ ou levantar diversos pontos até relevantes para reflexão, e isso não ser acompanhado de EDUCAÇÃO CONTINUADA SOBRE DIVERSIDADE E MINORIAS no restante do ano, funciona pra quem? Pros clientes. Pro vendedor. Mas educar, não educa. Ando cansado de sermos, nós mesmos, progressistas, uma geração um tanto hipócrita. Costumo dizer que o lado progressista da força não precisa de Bolsonaro dando tiro na gente, a gente se mata sozinho. Em todo caso, a turma tá conseguindo algo que os evangélicos não conseguiram: fuder o Carnaval. (Anderson França, na Folha de S. Paulo, em 18 de fevereiro)

 

  • “Estamos vivendo a maior ofensiva em séculos de nossa história. Essa semana está tramitando no Congresso uma MP que tenta regularizar a grilagem, o PL da Devastação quer impor a mineração e a exploração das terras indígenas, um evangélico missionário está em um posto estratégico da FUNAI e pode provocar a extinção de povos não contactados. São muitos os ataques. Não nos esqueçamos, o momento é grave e dramático, querem nos dizimar! Por isso, reafirmamos que o momento é de união entre todos, e não atacar uma aliada por se juntar a nós em um protesto. Alessandra Negrini colocou seu corpo e sua voz a serviço de uma das causas mais urgentes. Fez uso de uma pintura feita por um artista indígena para visibilizar o nosso movimento. Sua construção foi cuidadosa e permanentemente dialógica, compreendendo que a luta indígena é coletiva. É preciso que façamos a discussão sobre apropriação cultural com responsabilidade, diferenciando quem quer se apropriar de fato das nossas culturas, ou ridicularizá-las, daqueles que colocam seu legado artístico e político à disposição da luta. Alessandra Negrini é ativista, além de artista, e faz parte do Movimento 342 Artes, que muito vem contribuindo com o movimento indígena. Esteve conosco em momentos fundamentais. Portanto, ela conta com o nosso respeito e agradecimento. E assim será, sempre quem estiver ao nosso lado.” (Nota publicada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil em 17 de fevereiro)

 

  • Confira a opinião de indígenas sobre a polêmica em torno da apropriação cultural em reportagem de 2018 da BBC Brasil: 

https://www.youtube.com/watch?v=JMPf4ozR2lQ


Cláudia Laitano é jornalista, com especialização em Economia da Cultura. É mestranda em Literatura pela UFRGS, com pesquisa sobre Carlos Reverbel. É autora de “Agora eu era” e “Meus livros, meus filmes e tudo o mais”, ambos pela L&PM.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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