Cláudia Laitano: Quarentena

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QUARENTENA

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DEFINIÇÃO:

  • Restrição ao movimento de pessoas e mercadorias com o objetivo de impedir a propagação de doenças ou pragas. Frequentemente usado em conexão à situação daqueles que podem ter sido expostos a uma doença transmissível, mas não têm um diagnóstico médico confirmado. 

ORIGEM: 

  • Do italiano “quarantino”, uma variante de “quaranta giorni” (quarenta dias) expressão usada no dialeto veneziano dos séculos 14 e 15 para designar o período em que todos os navios deveriam ser isolados antes que os passageiros e a tripulação pudessem desembarcar em terra durante a epidemia da Peste Negra. 

QUEM USOU:

  • “Em todo o mundo, uma cultura do coronavírus está surgindo, espontânea e criativamente, para lidar com o medo, as restrições à vida cotidiana e o tedioso isolamento imposto pela quarentena. ‘Este é um filme ruim de ficção científica que se tornou real’, diz Agustín Fuentes, antropólogo da Universidade de Notre Dame, referindo-se ao modo como a Covid-19 vem afetando a rotina das pessoas. Fuentes prevê que um profundo processo evolutivo deve garantir a sobrevivência da espécie à medida que as pandemias se tornarem mais comuns. Para o antropólogo, essa evolução já é visível. ‘O que importa para os seres humanos é a conexão. A quarentena exigirá que as pessoas se conectem de outras maneiras. Uma das coisas surpreendentes da espécie humana é que, com o tempo, nos tornamos muito criativos. Nós nos adaptamos para sobreviver. É nisso que as pessoas devem apostar agora – criando maneiras incrivelmente imaginativas para encontrar conexões, mesmo quando não estão juntas no mesmo espaço físico “. (Robin Wright, New Yorker, 12 de março)
  • “Quando você está em quarentena e angustiado, fica difícil pensar em outras coisas. Uma estratégia de alto risco talvez seja mergulhar de cabeça em algumas das mais terríveis pragas da literatura, de Sófocles a Albert Camus, para colocar as coisas em perspectiva. Há algum consolo na experiência humana ao longo dos séculos. Os grandes temas – o medo causado pela falta de compreensão dos acontecimentos, a vulnerabilidade dos médicos, o surgimento de pessoas cínicas tentando tirar proveito da situação – se repetem ao longo dos séculos. Você se sente culpado por sua obsessão em acompanhar as atualizações diárias de mortos e infectados? Os escritores ingleses Samuel Pepys e Daniel Defoe compartilhavam o mesmo fascínio. Se você se sentir realmente deprimido, lembre-se de Giovanni Boccaccio, que observou que em tempos de praga ‘um homem morto não vale mais do que uma cabra morta’. Veja só, você já deve estar se sentindo melhor!” (Paola Tamma e Christian Oliver no site Politico, em 15 de março)

Confira a lista sugerida pelo site Politico (politico.com) para enfrentar a quarentena em boa companhia: 

A Peste (1947) – Albert Camus

  • O romance por excelência sobre como a psique humana reage em tempos de peste, confinamento e medo da morte. Os personagens de Camus refletem todo o espectro de comportamento, desde a abordagem científica e prática de Rieux, um médico que combate a praga que assola a cidade portuária de Oran, na Argélia, até o aproveitador Cottard, que aprecia o infortúnio coletivo, mas eventualmente enlouquece, e o padre Paneloux, que encontra consolo na vontade de Deus, mas acaba ficando doente. A Peste é uma ode à humanidade nos seus tempos mais sombrios.

Um Diário do Ano da Peste (1722) – Daniel Defoe

  • Camus era fã de Defoe e deve muito ao trabalho de falso jornalismo do autor inglês, no qual uma Londres infestada por uma peste, no ano de 1665, torna-se uma fervilhante colônia de formigas humanas. (O livro é narrado como um suposto relato pessoal, mas Defoe tinha apenas cinco anos na época da epidemia.) O narrador reflete sobre temas como a vontade divina, a ascensão dos vigaristas e as vantagens e desvantagens de trancar as pessoas em suas casas. Defoe termina com a triste nota de que a gratidão a Deus dos sobreviventes duraria pouco e logo eles voltariam aos seus hábitos antigos.

O Diário de Samuel Pepys (publicado postumamente em 1825)

  • Ao contrário de Defoe, o memorialista Samuel Pepys (1633 – 1703) foi uma autêntica testemunha dos horrores da epidemia de peste bubônica que matou um quarto dos londrinos em 1665. Trata-se de uma visão aterradora de despovoamento, incêndios nas ruas e bater de sinos incessante. Pepys perde conhecidos próximos, incluindo seu padeiro, e masca tabaco na esperança de proteger-se da doença. Embora extremamente cuidadoso em alguns aspectos, Pepys também é um playboy com uma certa queda pelas ligações extraconjugais que assume riscos enormes para visitar a amante cujo criado morreu de peste. Sua carreira, porém, vai de vento em popa e ele acaba descrevendo 1665 como um ano em que “nunca viveu tão alegremente”.

Os Noivos (1840) – Alessandro Manzoni

  • Leitura obrigatória para estudantes italianos do Ensino Médio, Os Noivos fornece um relato historicamente preciso da peste bubônica que destruiu um quarto da população de Milão entre 1629 e 1631. Particularmente pungente é a descrição de Manzoni de uma multidão tomada por uma psicose coletiva e o linchamento público de pessoas injustamente acusadas de espalhar a praga intencionalmente. Paralelos com recentes ataques a pessoas de ascendência asiática são dolorosamente óbvios.

O Decameron (1371) – Boccaccio

  • Em uma abordagem mais direta ao tema da peste, Boccaccio imagina um grupo de 10 jovens, fugindo da Peste Negra que devastava Florença, encontrando refúgio nas colinas da Toscana. Eles se divertem narrando uma história por dia, durante 10 dias, contando cem histórias que vão do trágico ao irreverente. Se você não conseguir encontrar uma cópia do livro em seu confinamento solitário, a adaptação cinematográfica de Pier Paolo Pasolini, de 1971, com música do mestre Ennio Morricone, é uma excelente alternativa.

Morte em Veneza (1912) – Thomas Mann

  • Um escritor desenvolve um amor obsessivo e não correspondido por um belo adolescente. Enquanto isso, uma misteriosa cólera se espalha rapidamente pelos labirintos dos canais de Veneza. O romance de Mann é menos sobre a praga do que sobre a tensão entre a contenção apolínea e o abandono dionisíaco, mas é uma leitura obrigatória e você sucumbirá à bela escrita de Mann. O diretor italiano Luchino Visconti assina uma adaptação memorável, lançada em 1971.

O Último Homem (1826) – Mary Shelley

  • O livro da mesma autora de Frankenstein é frequentemente descrito como o primeiro romance apocalíptico da literatura inglesa. A ação se passa no final do século 21, quando uma praga mortal de natureza desconhecida varre o mundo. O romance é fortemente inspirado por eventos trágicos na vida de Shelley, como a morte de seu marido e filhos, que se refletem no final sombrio do romance: os humanos morrem aos milhões até o último homem do título.

A Peste de Atenas (século 5 AC) – Tucídides e Sófocles

  • O historiador grego Tucídides ganha seu lugar na lista por ser não apenas uma testemunha ocular, mas também um sobrevivente da praga que devastou Atenas por volta de 430 AC. Não há consenso sobre qual era a doença, mas era cruel: causava sede insaciável, febre, espasmos, úlceras, vômitos e perda total de memória. A praga enfraqueceu Atenas em sua guerra contra Esparta e custou a vida do grande estadista da cidade, Péricles. Tucídides observa que a epidemia também provocou um colapso na lei e na moral, com as pessoas gastando seu dinheiro com os prazeres da vida. Sófocles abre a ação da tragédia Édipo Rei mostrando uma cidade arrasada pela peste. “O deus portador de fogo, a peste mais odiosa, invadiu nossa cidade”, diz o dramaturgo. E isso antes que as coisas se tornassem verdadeiramente trágicas.

Nêmesis (2010) – Philip Roth

  • Neste livro breve e poderoso, um jovem professor de educação física de Newark, Nova Jersey, tenta manter a cabeça fria enquanto a poliomielite consome sua comunidade. O pânico gradualmente toma conta do bairro Weequahic, nos anos 1950, sem cura à vista e sem entendimento de como a doença se espalha.

Cláudia Laitano é jornalista, com especialização em Economia da Cultura. É mestranda em Literatura pela UFRGS, com pesquisa sobre Carlos Reverbel. É autora de “Agora eu era” e “Meus livros, meus filmes e tudo o mais”, ambos pela L&PM.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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