Éder da Silveira: O retalho, Philippe Lançon

Lá pelas tantas páginas lidas de O retalho, o seu autor, Philippe Lançon, nos apresenta uma bela interpretação do fio, tênue, que separa a vida e a morte, fio com o qual seu relato é tecido. Se, no dia 6 de janeiro de 2015, o Charlie Hebdo era um “jornalzinho que não fazia mal a ninguém”, os atentados que quase custaram a vida do autor, um dia depois, fizeram lembrar os tempos que o Charlie fizera mal a cretinos, a políticos corruptos e a imbecis que se levam a sério demais. O revival do jornal, no entanto, custou muito caro.   

O dia 7 de janeiro de 2015, uma quarta feira, tinha tudo para ser mais um dia que começaria com a reunião de pauta no Charlie Hebdo. Charb, Cabu, Bernard Maris, Wolinsky e Philippe Lançon discutiam, riam e se provocavam como sempre costumava acontecer. Submissão, romance que recém havia sido publicado por Michel Houellebecq, que estampava a capa do Charlie daquela semana, estava no centro dos debates. 

Eram 11h25, talvez fossem 11h28; Lançon confessa que a memória o trai ao tentar reconstituir aqueles minutos com precisão, quando ele decidiu ir embora. Precisava ir para o Libération. Já de pé, com a mochila preta no ombro, decide mostrar um livro com fotografias de grandes jazzistas que tocaram no Blue Note a Cabu. 

Tudo aconteceu muito rápido. Ao menos é assim que ele lembra. Dois homens de preto, encapuzados, invadem a redação do Charlie Hebdo. A cada disparo de kalashnikov, ele só consegue ouvir gritos. Allah Akbar, gritavam os atiradores, cujos rostos não viu, apenas as pernas, de calças pretas e as botas militares. Ao seu lado, jazia o corpo de Bernard Maris, com quem há poucos minutos discutia a pauta da próxima edição do Charlie Hebdo. A última imagem do amigo é a do seu crânio esfacelado.

Enquanto inúmeros países ao redor do Mundo acompanhavam as notícias do atentado ao pequeno jornal político e satírico parisiense, que a maioria dos estupefatos com tamanha violência sequer conhecia, começava um longo périplo de Lançon por hospitais franceses. Primeiro, o Salpetrière, meses depois, o Invalides. Nas redes, enquanto o #jesuischarlie tornava-se uma avalanche, Lançon lutava para sobreviver. Um tiro de fuzil destruiu a parte inferior do seu rosto, arrancando-lhe o queixo de quase a metade dos dentes.

O atentado ao Charlie Hebdo, o terrorismo e a jornada pessoal de Lançon estão presentes nas páginas de O retalho. O livro, no entanto, não é um acerto de contas com o terrorismo e muito menos uma espécie de manual de autoajuda. Não procure em suas páginas denúncias do islamismo ou um autor que, movido pela coragem e determinação, conseguiu superar todos os obstáculos e nos conta a sua lição de superação. 

Neste belo livro, Lançon repensa sua vida à luz dos conflitos que a profissão o fez acompanhar de perto, como a guerra do Iraque, onde foi correspondente. Repassa recordações dos anos em Cuba, dos companheiros de geração, das mulheres que amou e presta um tributo emocionante aos jornalistas do Charlie Hebdo.   

Ao falar do atentado que matou os seus amigos do Charlie Hebdo, dos irmãos K., procura compreender o fenômeno do recrutamento de descendentes de povos árabes empobrecidos, que engrossam as periferias de Paris. Não há, no entanto, discursos de perdão judaico-cristão. Há muita dor, de parte a parte, e Lançon sabe bem disso.

O retalho, como todo o grande livro, segue reverberando por muito tempo após o término da leitura. Um elemento, entre tantos, que me marcou na leitura deste livro é o papel da música e da literatura na vida de Lançon, em especial durante os dez meses em que viveu em hospitais. É praticamente impossível terminar o livro sem ouvir alguma peça de Bach, seja “Variações Goldberg”, com Glenn Gould, seja “Arte da fuga”, com Zhu Xiao-Mei.

Ler O retalho, lindamente traduzido do francês por Julia Simões, é um convite à liberdade de pensamento e ao papel transgressor do humor e da ironia. Até porque, como disse certa feita o Millôr Fernandes, o “humorista não solta o último suspiro – solta a última ironia”. 
Philippe Lançon. O retalho. Trad. Júlia Simões. São Paulo: Todavia, 2020.


Éder da Silveira é doutor em História pela UFRGS e professor da UFCSPA, tem um canal de comentários sobre livros: https://www.youtube.com/channel/UC6Hy53wYsLLgNa3xtfb24Jw

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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