Editorial 32: Três partos

Qual é o nosso negócio, na Parêntese? Investir nossas melhores energias na defesa e no aperfeiçoamento da opinião pública, pensando na democracia e na igualdade de direitos. Credo modesto, mas nítido. 

Tão nítido que ficamos realmente felizes com três partos recentes. Pela ordem de nascimento, o primeiro é O crush de Álvares de Azevedo, de Jandiro Adriano Koch (editora Libretos). Depois vem Democracia Fútbol Club o jogo de bola além das quatro linhas, de Roberto Jardim (editora Ludopédio). Também saindo do forno, Aqui dentro, de Nathallia Protazio (editora Venas Abiertas). 

Três livros, de três colaboradores regulares desta Parêntese. Três autores de textos que sempre dão gosto de ler, pela fluência e pela inteligência, cada um em seu metiê. Uma alegria muito grande, do tamanho dos sonhos que cada um deposita na humanidade, ao conceber, escrever e publicar um livro – que agora precisa chegar ao leitor. 

Uma alegria porque, antes de qualquer coisa, um livro é um ato de fé na opinião pública.

O Jandiro segue, neste livro, seu projeto de mapear e entender o mundo letrado brasileiro a partir de um ângulo preciso, o tema da homossexualidade, do homoerotismo, das lendas, impasses, fantasias e realizações que ele carrega e implica.

O Roberto biografa onze jogadores de futebol, mais um treinador, de comprovada e corajosa postura democrática, na América, África e Europa. Praticantes desse esporte verdadeiramente mundial que tanto se presta a embustes, falcatruas, cortinas de fumaça e outras manobras, os biografados merecem ser conhecidos pela postura comprometida com valores decentes.

A Nathallia conta histórias, em textos ao mesmo tempo profundos em sua escavação das torturas da alma feminina e leves em sua afirmação da vida, da vontade de encontrar o bom, o belo, o justo. Eu só imagino onde ela vai parar; mas dá pra ver que não vai ser em nenhum lugar imediato, nem óbvio.

Alegria também é ter aqui uma entrevista com a Tânia Carvalho. Quem é ela? Se for necessário fazer comparações, aqui vão duas: a Tânia é uma Leila Diniz que não morreu jovem. A que eu mais gosto é outra: ela é parente da Chiquita Bacana, aquela que transava todas sem perder o tom. (Na dúvida, dê um google.) Grande Tânia, a conversa aqui registrada é também um muito obrigado nosso a ela. 

A reportagem traz um passeio pelos monumentos da cidade, essa forma de memória em pedra, cal e bronze, que é menos eterna do que quer parecer. Lela Martorano assina o sensível ensaio de fotos. Na parceria com o Plantabaja aparecem os bichos de nossa quarentena. Pablito Aguiar desenha o efeito dos panelaços no Centro. 

De conhecidos, o leitor vai encontrar aqui os sempre fortes José Falero e a já mencionada Nathallia Protazio, mais o Rafael Escobar com o capítulo 7 de seu Jonas Pasteleiro, que caminha para seu desfecho. Sim, Arthur de Faria e Cláudia Laitano, presentes com graça e agudeza. Jandiro Koch passeia, figurada e literalmente, pela vida e obra de Qorpo-Santo. Frederico Bartz faz outro passeio pela cidade, agora enfocando lugares de luta antifascista na cidade. E Julia da Rosa Simões oferece o desfecho da história breve mas marcante do Petit Casino. 

As estreias são outros três motivos de alegria. Eduardo Vicentini de Medeiros inaugura uma curiosa série, “Até que a razão os separe”, trazendo à cena o pensamento de dez filósofos sobre o casamento. Vinícius Rodrigues, nosso especialista em quadrinhos, começa sua colaboração para a Parêntese com um perfil do clássico cartunista Sampaulo. 

E finalmente Graça Craidy, artista e cidadã do mundo, oferece uma pensata sobre Maria Coussirat Camargo, pintora que abriu mão da carreira em favor da carreira de seu marido, Iberê Camargo, um talento superior da pintura brasileira. Mas antes de parar ela deixou sua marca, que a Graça comenta, inaugurando nossa Galeria Breve.

– Luís Augusto Fischer

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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