Editorial: Parêntese 10

Reportagem, ideias e boas histórias – é disso que se trata aqui, na Parêntese.
Reportagem todos sabem como é: descrever e narrar, com detalhes pertinentes e alguma visada global, uma ação, um caso, um problema de interesse público. Um dos pensadores fortes da língua portuguesa, Millôr Fernandes, chegava ao ponto de dizer que jornalismo é reportagem, o resto é armazém de secos e molhados.

Talvez seja preciso explicar ao leitor mais jovem o que era um armazém de secos e molhados (sim, foi daí que a famosa banda de Ney Matogrosso tirou seu nome). Era um comércio geral, que vendia secos (de grãos e farinhas a tecidos, tamancos e ferramentas) e molhados (bebidas, leite, fumo em rolo, querosene, vá saber o que mais). Era o antigo supermercado, mas em escala de vizinhança amena. 

Parêntese se orgulha de sempre ter uma reportagem – como a deste número, que aborda tema hard: um brasileiro, que atuou em posto de chefia durante a ditadura, está sendo processado em Roma pelo desaparecimento do ítalo-argentino Lorenzo Viñas. Se no Brasil não soubemos enfrentar essa página da história com altivez (e vivemos agora à sombra dessa falha), na Argentina, no Chile e até na remota Itália ocorreu e ocorre o contrário: a justiça examina as responsabilidades de gente que, durante o lamentável ciclo ditatorial da Guerra Fria, violou direitos humanos elementares em nome do Estado que deveria preservar os mesmos direitos. Janaina Cesar assina a importante reportagem.

Na seção de secos, temos a conversa com Jeferson Tenório, talentoso escritor (segue também uma resenha de seu primeiro e muito bom romance), as fotos de Fernando Schmidt, um minimalista professor da matéria, a crônica de José Falero contando de sua inesperada iniciação em Cartola. Simetricamente, Demétrio Xavier conta como, onde, quando e com que emoção conheceu ao vivo outro gênio americano, ninguém menos que Atahualpa Yupanqui, aquele que veio para contar.

Carnaval é seco ou molhado? Escolha aí, enquanto lê a rica matéria assinada por Jackson Raymundo, que dá uma notícia ampla sobre o carnaval carioca que vem aí – temas, enredos, enfrentamentos, alegrias. Nova seção – aqui a gente inaugura nova seção à toa, para acompanhar a verve dos colaboradores: agora é “Memórias emocionadas”, que vai abrigar lembranças da cidade (de qualquer cidade), neste caso num texto de Andréa Bonow, que não leva às lágrimas, mas umedece o olhar mais sensível.

Seguimos com a “Enciclopédia urgente”, mais uma vez contando com texto de Norberto Flach, um clássico moderno, abordando agora o polêmico termo “Lawfare”. Na jovem seção de Cláudia Laitano, “A palavra é…”, outro termo do inglês: o que é, de onde vem, para onde vai a “alt-right”?

O cartum de Kayser já está ali, à vista. A velha (sim, este é o número 10, minha gente!) e boa seção “Retrato escrito” traz outra colaboradora, Katia Suman, que revisitou a instigante obra, mezzo crônica, mezzo memória, de Humberto Gessinger. 

Aproveite. Parêntese não precisa ser lida de uma sentada. Talvez o caso seja ir até o armazém da esquina, comprar uma bebida, ou fazer um mate em casa mesmo, e ir sorvendo aos poucos. Uma matéria agora, outra amanhã, e assim vai. Tem toda uma semana para ler.

E para assinar – não esqueça do nosso presente: diga “presente”!
(Trocadilho ruim também vale como propaganda?)

Luís Augusto Fischer

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

A revista digital Parêntese é enviada todos os sábados aos assinantes premium do Matinal Jornalismo. 

Para receber a próxima edição, assine o Matinal. Assim você apoia o jornalismo de Porto Alegre e receba todos os nossos produtos.

Receba as newsletters do Matinal! De segunda a sexta, trazemos as principais notícias de Porto Alegre e RS. Na quinta, enviamos uma agenda cultural completa por Roger Lerina. No sábado sai a Parêntese, com reportagens, entrevistas e análises exclusivas.