Eliane Brum: Armada com palitos de fósforo

Crédito: Editora Arquipélago/Divulgação

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Como fazer uma entrevista com a Eliane Brum? Autora de uns quantos livros marcantes no cenário nacional e, agora, fora do país também, jornalista daquelas de ter gosto pela fronteira da notícia, lá onde ela nem sabe que é ou deveria ser notícia, ela agora está morando no coração do mundo que, para ela, é o centro do planeta, a Amazônia. 

Mas eu estava lendo seu livro mais novo, Brasil, construtor de ruínas – um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago Editorial, 2019), e me pareceu que era preciso falar com ela. O livro é difícil de descrever e me deixou muito impressionado por mais este feito da Eliane (confira a resenha aqui). Fui impactado por ela pelo menos desde seu primeiro livro, em que se propôs uma pauta até então inimaginada mas que clamava por um repórter: o que restava, na memória das pessoas comuns, da famosa Coluna Prestes (1925-27)? Restava algo, afinal, daquela jornada que entrou para os livros de história? Pois ela foi lá e inventou um jeito de rever tudo. O livro se chama Coluna Prestes – o avesso da lenda (Artes e Ofícios, 1994).

Nem sempre gosto de ler a Eliane, mas já concluí faz tempo que quando não gosto é porque eu não quero saber do que ela ali diz, com delicadeza, nitidez e muita firmeza. Seu romance, Uma duas, eu não consegui ler. Abri, atravessei umas 30 páginas e não aguentei, emocionalmente. Não aguentei porque, como as crianças que frequentemente voltamos a ser, tem coisa escrita por ela que dói, que atrapalha com vigor aquele mínimo bem-estar alienado que é a maior parte da nossa vida. 

Por exemplo este novo livro. 

Nunca fui amigo próximo da Eliane, enquanto ela viveu no Rio Grande do Sul, sua, nossa terra natal. Mas fui e sou muito amigo de gente muito chegada a ela, e como leitor acompanhei sua trajetória, primeiro na Zero Hora, depois em livros e em outros veículos pelo Brasil afora, até sua atual posição, no El País.

Decidi tentar a entrevista depois de ver uma entrevista dela para Bruno Torturra, outro jornalista que admiro. E pensei que tinha que contar para ela da minha admiração. Lembrei de uma passagem encantadora de Meus desacontecimentos – a história da minha vida com as palavras (Leya, 2014): Eliane com cinco ou seis anos (nasceu em 66), com a consciência de que há uma ditadura no país, ela fica sabendo que seu pai, professor com trabalho comunitário importante na cidade, estava sendo acossado pela repressão, encarnada ali pelo prefeito da cidade. E ela resolve reagir: pega uma caixa de fósforos em casa e, sem avisar ninguém, sai para vingar seu pai, seu herói – vai até o prédio da prefeitura e tenta, com seu escasso arsenal, botar fogo no prédio. 

Naturalmente deu em nada, os palitos se desmanchavam na pedra fria do prédio. Mas a lembrança permaneceu e, em alguma medida, forjou a jornalista, que segue encostando palitos de fósforo, para nosso bem. 

Confira, a seguir, a entrevista respondida em 14 de fevereiro, por e-mail.

Parêntese — Como foi o teu movimento, interno e externo, até tu te mudares para Altamira, onde tu tá vivendo agora? Precisou abandonar algum projeto? Algum conforto? 

Eliane Brum — Viver em Altamira é um longo percurso que ainda não acabou. Eu cubro diferentes Amazônias há mais de 20 anos, mas essa região do Xingu desde 2004. E, desde 2011, vinha regularmente, com minhas próprias economias, acompanhar algumas famílias no processo de expulsão pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Em 2016, eu estava andando pelas ruas de Altamira, num mês de janeiro. Era inverno amazônico, mas estava chovendo muito pouco. Eu tinha vindo com alguns psicanalistas para fazer uma pesquisa prévia para o projeto Refugiados de Belo Monte/Clínica de Cuidado, porque tinha percebido que algumas daquelas pessoas estavam em sofrimento mental intenso, aniquilador, por terem sido arrancadas de suas ilhas e beiradões do rio. Precisavam de outro tipo de escuta. Uma tarde eu estava andando pela rua e pensei. Se eu me alinho junto às pessoas que defendem que a Amazônia é o centro do mundo, por que eu não estou no centro do mundo?

Para ser capaz de me fazer esta pergunta, precisei fazer uma jornada interna, que nem eu mesma havia percebido que fazia. E dali em diante, eu comecei a ir para Altamira dentro de mim. E passei a viabilizar isso externamente. Fiz um projeto financiado pela Fundação Ford, em parceria com a Amazônia Real, para um ano de pesquisa jornalística, dando sequência ao que, por seis anos, eu havia feito sem financiamento algum, e que hoje continuo fazendo sem financiamento a não ser o das palestras que faço. Me planejei para ficar apenas um ano em Altamira, mas estava mentindo para mim mesma. Logo fui percebendo que um ano, mesmo para alguém que acreditava conhecer bem a região, era só um cisco no tempo. Eu sabia que me transformaria, mas nunca imaginei que me transformaria tanto. 

Porque não tinha referências para saber. Mudar o ponto de partida do meu olhar, ver o Brasil e o mundo desde a Amazônia, viver com os povos da floresta e também com os movimentos sociais urbanos de Altamira têm me mudado muito profundamente. Mudou minha relação com o próprio tempo, meu jeito de estar no mundo, minha conexão com a natureza, acho que mudou meu próprio corpo. Só recentemente eu compreendi que eu tinha vindo me desbranquear. Sei que vou morrer tentando, mas quero muito me desbranquear. No sentido de descolonizar minha forma de estar no planeta, minha própria mente e a forma como olho para o mundo. 

Ser branco, você sabe, é um conceito que vai muito além da cor da pele. Em diferentes línguas indígenas, branco é sinônimo de inimigo. Branco é aquele que acredita ser proprietário da terra. Ser índio é pertencer à terra. Assim, eu vim ficar perto deles para me desbranquear e para lutar ao lado deles. Já vivemos uma guerra climática. Como diz Eduardo Viveiros de Castro — que é, junto com intelectuais indígenas como Davi Kopenawa e Ailton Krenak, e intelectuais negros como Achille Mbembe, um dos pensadores que mais ecoam em mim — “os índios sabem como viver depois do fim do mundo porque o mundo deles terminou em 1500”. A vida é banzeiro, a versão xinguana de “redemunho”. 

Aprendi aqui que a alegria é a melhor forma de rexistência, com x. E tenho aprendido a viver depois do fim do mundo enquanto lutamos para adiar o fim do mundo.  Sinto profundamente que estou exatamente no lugar onde devo estar. Para mim, hoje, numa época de guerra climática, a questão é apenas em qual linha de frente você vai estar. A Amazônia é a minha. E parte desta luta é fazer as pessoas do centro-sul compreenderem que, num planeta em processo de superaquecimento global, a floresta é o centro. Periferia é Brasília, São Paulo, Porto Alegre. Altamira é centro. 

P — O livro O colecionador das almas sobradas foi traduzido para o inglês agora. Tem já alguma repercussão do teu trabalho nessa nova dimensão, que te coloca em contato potencial com uma imensa fatia da opinião pública mundial, algo com que em geral os brasileiros nem sonhamos? 

EB — Essa foi uma experiência incrível. Primeiro, de tradução. Tive um encontro amoroso com Diane Grosklaus-Whitty, uma tradutora que até hoje não conheci pessoalmente. Acho que a tradução é uma espécie de possessão do corpo de palavras de um outro, que o tradutor tem que tornar seu. Diane fez um trabalho incrível e sempre tivemos — e temos — uma troca muito intensa. Depois, tive o enorme prazer de ser editada pela Graywolf, nos Estados Unidos, e pela Granta, no Reino Unido. Foi um processo de edição imensamente respeitoso. E, por fim, tive essa surpresa de o livro ser tão bem recebido nos Estados Unidos, onde foi lançado primeiro. 

Eu já estava muito feliz por um livro de reportagens de uma brasileira ser publicado em inglês. Sabemos o quanto é difícil isso acontecer. Há uma estatística que todos repetem, mas que nunca consegui encontrar a fonte, então tem que olhar para ela com um pouco de suspeição, de que apenas 3% dos livros publicados em inglês são de autores não anglófonos. E, nestes 3%, estariam todas as outras línguas. Então, isso já era incrível para mim. 

Eu já tinha tido uma experiência anterior, em 2012, quando o Uma Duas, meu primeiro (e até agora único) romance, foi traduzido para o inglês pela Amazon. Foi bem intenso. Mas, neste momento, publicar um livro de reportagens foi ainda mais forte. The collector of leftover souls (O colecionador das almas sobradas) entrou na lista dos dez melhores livros traduzidos em 2019 do National Book Award. Tive dezenas de resenhas incríveis nos Estados Unidos. É muito maluco como o mundo funciona. Eu lancei ao mesmo tempo um livro nos Estados Unidos e um livro no Brasil, o Brasil Construtor de Ruínas. Aqui, nenhum dos grandes jornais fez resenha dos meus livros. Nos Estados Unidos, meu livro foi resenhado pela New Yorker e pelo New York Times. Neste ano, o livro será lançado na Itália e na Polônia. E traduções em outras línguas já estão em negociação. 

Estou muito feliz, porque, como escrevo na apresentação do livro, precisamos derrubar muros. Mais do que nunca, precisamos derrubar os muros que os déspotas deste momento histórico não param de construir. Ser traduzida em outras línguas é uma forma de derrubar muros.

P — Teu trabalho me parece ter alcançado um patamar talvez inédito, pela combinação entre a tua antiga simpatia pelos desvalidos, pelos derrotados, pelos de baixo, e a tua vontade e tua pertinácia em encontrar um novo jeito discursivo de dizer coisas invisíveis e mesmo indizíveis. Faz sentido isso pra ti? E no caso concreto de Altamira, da realidade monstruosa de Belo Monte, isso está sendo vivido como, na tua produção atual?

EB — Faz todo o sentido. Estou vivendo um entremundos, entrepalavras. Este é o título da minha apresentação, no The collector of leftover souls. Mas em inglês fica mais interessante, por que é BetweenWorlds/BetweenWords. Isso significa que ainda não consegui encontrar palavras para nomear as experiências que tenho vivido e os movimentos internos que essas experiências produzem em mim. Tenho a suspeita que essas palavras eu não vou encontrar nas línguas portuguesas, mas tenho a chance de encontrar em línguas indígenas, ou entrelínguas. Nunca tive em mim tantas experiências que não sou capaz de nomear. Ainda não sou capaz. 

P — Qual o horizonte imediato para os teus empenhos de agora? Vem vindo novo livro?

EB — Todo o meu esforço é, como jornalista e escritora, lutar por um comum global, pela Amazônia, pelos oceanos e pelas outras florestas tropicais e pelos povos (e não apenas os humanos) que vivem nelas e foram capazes de viver neste planeta sem exauri-lo como fizeram os brancos. Me integro a uma comunidade que já percebeu que vive um colapso climático e que está tentando criar um outro jeito de ser gente. Faço parte de um movimento iniciado em novembro de 2019, na Terra do Meio e depois em Altamira, chamado Amazônia Centro do Mundo, que é um movimento de conexão das periferias que reivindicam o lugar de centro. Muitas das pessoas ameaçadas de morte hoje na Amazônia, quando fazem aparições públicas, vestem literalmente a camiseta deste movimento. Estamos conectados para além das fronteiras dos nacionalismos de ocasião que nos oprimem e buscamos derrubar os muros que já começaram a ser construídos para consolidar o apartheid climático. E, sim, virá livro novo por aí, mas ainda está sendo gestado e será publicado primeiro em inglês.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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