Fabiano Golgo: A Praga do Teatro Negro

Naquele dia, eu quase morri. E mal sabia que ali havia sido apresentado ao meu futuro. O futuro que não teria vindo se a mágica não existisse, mesmo que camuflada sob a aspereza da realidade.

Eu tinha somente 5 anos. Mal havia adquirido consciência. Mas a professora do jardim de infância e a mãe já tinham tatuado em meu jovem cérebro que não se atravessa rua sem olhar se a “sinaleira” (gauchês para semáforo) estava vermelha para os carros. Eu sabia que somente quando o bonequinho sem rosto do outro “sinal”, aquele dos pedestres (palavra ainda desconhecida, na época, e que eu ainda iria confundir por algum tempo com pederasta e pedregulho), ficava verde. 

Acontece que aquele espetáculo que minha mãe me levou pra assistir, no Teatro do Ipê, atiçara meus hormônios ou seja lá que reações eletroquímicas uma criança produz. O que eu sei é que, até então, nenhuma vivência produzira tanta admiração e maravilhamento. Nem mesmo o álbum de figurinhas da Mônica ou o Almanaque Disney, com o pôster do Esquálido, meu personagem predileto. Fosse meu tio me jogando pro alto e girando comigo até cairmos no sofá, ou aquelas aspirinas cor-de-rosa (infantis) que eu roubava do armarinho do banheiro e deixava desmanchar na língua, o que soltava um misto de docinho com azedinho, nada chegara aos pés do turbilhão de sensações que aquele show de luzes, cores, dança e ilusão de ótica havia me provocado. 

Somente anos mais tarde eu pude dar significado àquelas lembranças, de cérebro quase virgem, ainda aprendendo a pilotar o que percebe. 

Era uma apresentação do Teatro Negro de Praga, um grupo tchecoslovaco que fazia tour pelo mundo, enviado pelo governo comunista do eslovaco Gustav Husák, que traíra a Primavera de Praga de 1968, ajudando as assassinas Tropas do Pacto de Varsóvia, enviadas pelo Kremlin de Leonid Brezhnev para esmagar o esfuziante período de liberdade criativa (e de ir e vir), que havia começado já em 1966, quando o Secretário-Geral Antonín Novotný estava caduco (“Alzheimer” ainda não era parte do vernáculo) demais para notar que uma nova onda de cineastas experimentadores, assim como na França, Brasil e outros lugares, trouxera à tona o que virou o Cinema Novo Tcheco ou Nova Onda Tchecoslovaca (Československá nová vlna). 

Filmes passaram a criticar o regime autoritário, as fronteiras cerradas, e diretores como Miloš Forman (conhecido por seu trabalho hollywoodiano, mais adiante: Hair, Amadeus, O Povo contra Larry Flynt, Homem na Lua, entre outros), Věra Chytilová, Ivan Passer, Pavel Juráček, Jiří Menzel, Jan Němec, Juraj Herz, Juraj Jakubisko revolucionaram a narrativa e estética do cinema europeu e apresentaram ao povo tcheco uma crítica perspicaz e debochada do sistema kafkiano em que viviam. 

Essa ousadia respingou para as outras seis artes e criou asas na mídia. Até os noticiários tiveram a audácia de criticar as filas pra comprar leite, a falta de absorventes femininos ou a hora obrigatória de música russa na TV. O povo começou a “festear”, agora sem medo dos olhos e ouvidos da KGB local, chamada StB (Státní Bezpečnost). A moda deixou de lado os cinzas e marrons, ganhando as cores psicodélicas dos anos 60, e até a taxa de gravidez deu um pulo. Gente livre transa – dizia uma pichação anônima e célebre na parede lateral do Museu Nacional. 

Essa felicidade toda incomodou a terra de Dostoiévsky e Tolstoi. Os russos não permitiam sequer que seus “satélites” vencessem em competições esportivas, quanto menos que um povo ficasse colorido. A pressão no eslovaco Alexander Dubcek, que havia tomado as rédeas de Novotný para oficializar o fim da censura e a abertura das fronteiras, foi se escalando ao longo de 1968, até que em 21 de agosto o território da antiga Boêmia foi estuprado pelos tanques violadores do oásis eslavo, que o Politburo temia que pudesse contaminar o resto do bloco sob seu comando. Os horrores já perpetrados em 1956, em Budapeste, teriam uma reprise em Praga. A cidade que até Hitler ordenara que nunca fosse bombardeada, pois a considerava a mais linda capital do continente, foi atropelada pelos brucutus enviados para apagar as luzes do que Dubcek chamava de “socialismo com a face humana”. 

Tamanha decepção seria difícil de reverter, então ao traidor Husák coube anestesiar a população com pão e circo. 

Depois de encarcerados os artistas que haviam embalado a onda de liberdade e que não haviam fugido, como Forman, o regime deu um jeito de não deixar faltar, por muito tempo, não apenas os absorventes femininos, mas até a última moda do ocidente capitalista, a música pop trash da Europa da época (a la ABBA), muito cinema de comédia (em média, produziam 10 filmes por mês, para um país com população menor que a do Rio Grande do Sul), programas de auditório a granel na TV, distribuindo prêmios (que, como presentes de Natal por aqui, são sempre utilitários, tipo kit de lâminas de barbear ou pacotão cheio de meias…) e o subsídio de viagens internacionais dentro do bloco comunista. 

O destino predileto era a muito mais livre Iugoslávia, onde o Marechal Josip Broz Tito mandava feito imperador, mas era ídolo de boa parte da população, junto com sua estalinista esposa de seios pontudos e protuberantes, a legendária Jovanka (pronunciado Yovanka). De lá, também era mais fácil conseguir fugir, pelas belíssimas praias de Portoroz, Piran ou Koper, na hoje Eslovênia, ou de qualquer uma da agora Croácia, atravessando o Adriático em balsas feitas de pneu velho, até Veneza, ou pela floresta, tentando chegar em Trieste, utilizando antigos túneis construídos pelos partisãos que, liderados por Tito, foram os únicos a derrotarem os nazistas por conta própria e “descalços”, como se diz na região. 

Quem era pego, fazia outra viagem, mas sem passagem de volta, para a Sibéria…

Esse período pacificador se chamou Normalização (Normalizace), e os tchecos nunca viram tanta prosperidade material. Quase todos puderam ter uma segunda casa, nas montanhas, em geral chalés onde passavam os finais de semana do inverno. Também ganharam pequenos pedaços de terra, como um jardim avulso, nos arredores das cidades, onde podiam plantar vegetais (sempre em falta nos armazéns), ter uma piscininha de plástico, um pedaço de grama pra se deitar sob o sol. 

Então, para mostrar ao mundo que estava tudo bem, depois das dramáticas imagens de 68 chocarem as pessoas de bem, Husák mandou o Teatro Negro de Praga ir conquistar corações planeta afora. 

O programa foi tão abrangente que chegou até aos pampas! E eu, nos meus tenros 5 anos, fui introduzido ao que viria a ser meu chão, minha casa por opção, minha amada Praga. Um nome paradoxal para um lugar tão deslumbrante. 

Minha mãe estava à beira de se separar e por isso a agenda cultural dos filhos se intensificara. Era uma espécie de normalização, para suavizar o impacto do “desquite”, como Husák fazia com os então tchecoslovacos. A ida à apresentação do Teatro Negro de Praga fora de supetão, como saída para mais uma das brigas que vinham corroendo a relação. A tensão acionada pela discussão, aguçada pela correria pra se vestir e perfumar pra chegar a tempo na performance, apenas deu a partida no que viria a culminar com minha quase morte. Tão novinho!

O Teatro Negro de Praga se baseia na incapacidade do olho humano de distinguir negro sobre negro. Os atores, completamente vestidos com roupa negra, atuam sobre um fundo negro, o que faz com que o espectador veja apenas aquilo que os atores desejam mostrar. Objetos iluminados, artigos fosforescentes ou personagens flutuando são elementos típicos. Embora a inspiração seja do teatro de sombras chinês, os tchecos revolucionaram a técnica, transformando o Teatro Negro em um espetáculo de luzes, sombras, mímica e acrobacias de deixar a audiência boquiaberta.

Para uma criança, aquilo era muito melhor que qualquer desenho animado ou o Orlando Orfei. 

Meu êxtase foi tamanho, que, quando terminou, eu não queria sair. Eu queria mais. Por que eles não voltavam pro palco? Como isso foi na era pré-moderna, fui arrastado por minha mãe pelo braço, levando vários tapas na orelha e ameaças de surras piores se não parasse com a manha. Surtando, com uma espécie de energia nuclear naqueles neurônios em ápice de desenvolvimento, gritei, berrei, me atirei no chão, implorei. Em vão. Meu vocabulário não me permitia entender o que ela e os outros adultos que adentraram o entrevero tentavam me explicar. Que não tinha como fazer com que aqueles tchecoslovacos mágicos voltassem ao palco. 

Já na frente do enorme prédio da Praia de Belas, trazido pelo segurança, que se dobrara com meu desespero infantil, um dos atores me agarrou pela cintura e trouxe meu rosto até a altura do dele. Assim que meus soluços cessaram, ele disse algo nessa língua que é um quebra-queixo, de tão complicada, de sonoridade dura, que tem frases inteiras sem uma única vogal… 

Aquele choque repentino, a inesperada quebra da distância que mantém a ilusão de fã, a descida do divinizador palco até meu reles nível, a adição do cheiro (forte, agridoce, invasivo, desagradável) do ator, aquele olhar sem efeitos de luz, aquele idioma que parecia um trator, provocaram um tilt no meu já turbinado estado mental, transformando o deslumbre em sobressalto, a fascinação em espanto, o encantamento em assombro. 

Como um gato quando encurralado, escapei do alto de seus braços em queda livre, numa fuga desesperada, como quando me colocaram no colo de um suposto Papai Noel no Centro Comercial João Pessoa (shoppings, como Alzheimer, ainda não tinham surgido no paralelo 30). Ainda senti a ponta dos dedos de minha mãe numa tentativa frustrada de agarrar meu braço, mas um foguete tinha baixado em mim. Outros recebem entidades, orixás, espíritos perdidos, já eu recebi foi um foguete, mesmo. Ou baixou o Super-Homem em mim, pois voei em direção impensada, apenas afoito pra me afastar ao máximo daquele quebrador de encantos. 

Daquele prelúdio à crueldade da natureza, que só nos permite adorar o distante, o não decifrado, não saí ileso. Cada detalhe ficaria pra sempre (ou pelo menos até surgir algum Alzheimer) esculpido na minha memória. Aquela lição precoce de que tudo que se vê muito de perto é… normal. É real. Enquanto é o ilusório, a fantasia, a ficção, o improvável, o inatingível, o que nos fascina. 

Aquele homem que fizera mágica para meus olhos no palco, deixara que eu olhasse dentro dele, com o raio X de alma que quem ainda não foi endurecido pela vida possui, e a palheta de novas cores que me ofereceu, ofuscou seu brilho. Deixou de ser inatingível. 

Aquela decepção inverteu minha veneração para pavor. E eu só queria dar no pé. Por isso, nem vi a sinaleira verde pros carros e o bonequinho vermelho pra mim. Adentrei a larga avenida, ainda de paralelepípedos, com duas faixas para absorver a avalanche de veículos voltando do Centro para a Zona Sul, naquele final de tarde de outono cinzento porto-alegrense, como uma bala perdida. 

Ainda lembro nitidamente daquele momento, quando uma buzina me acordou do surto e olhei para a esquerda, vendo a enxurrada de carros recém-saídos do viaduto que desaguava a Borges na Praia de Belas… 

Naquele milésimo de segundo, toda minha curta vida passou pela minha mente, junto com a epifania de que eu tinha cometido um erro… fatal. 

Como um viado pego de surpresa por faróis na estrada, congelei. Bem no meio da avenida. Teria morrido num sábado, atrapalhando o trânsito, como na música do Chico. Com vida não-vivida. Sim, pelo menos depois de ter visto e me maravilhado com a realidade paralela e impossível do Teatro Negro de Praga. Teria morrido sem a oportunidade de, 22 anos mais tarde, vir morar naquela cidade que mandara seu encanto me fisgar à beira do Guaíba. Não poderia estar agora escrevendo esse relato, 22 anos depois daqueles 22 anos após a quase-morte. 

Vim parar em Praga também porque passava por processo de separação de meu primeiro namorado, Scott, um americano jogador de futebol e estudante de engenharia, cuja família pentecostal e pai militar tornaram impossível nosso relacionamento. Depois de uma briga, sem plano ou objetivo, fui até o aeroporto de Orlando (eu morava em Gainesville, na Flórida, depois de um tempo em Nova York) e perguntei pra moça da KLM para onde saía o primeiro voo internacional mais barato. “Praga”, respondeu logo. “Um grupo acabou de cancelar, tenho 14 lugares, 450 dólares + taxas, quer?” 

Praga! Claro, vou pra Praga. Quase morri por causa de Praga, mas também, se sobrevivi, foi com a enriquecedora lembrança de que o escurinho do teatro, ou do cinema (e do quarto) pode ser palco do que há de melhor na vida, que é o não-real, a fantasia, o truque de ótica que transforma o banal em excepcional, o trivial em especial. E a centelha de sabedoria básica sobre como tudo aquilo a que somos expostos em excesso, o que vemos em muito detalhe, perde a mágica. Por isso o casamento amortece o desejo e santo de casa nunca faz milagre. Aquele dia de êxtase e decepção, de abalo e comoção, que me incutiu a essencialidade do turvo para melhor apreciação da cor, me deram a certeza de que Praga era o destino. 

Tudo que aconteceu em Praga, depois disso, dá mais que um livro, talvez até um seriado da Netflix com várias temporadas e episódios inacreditáveis. 

Minha vida adulta de verdade se deu aqui. Minhas fantasias se tornaram realidade aqui. Exatamente o que eu desejara, anos a fio, aconteceu nessa cidade que sediou os bruxos e alquimistas da Europa, durante o reinado de Rudolfo II, patriarca dos artistas e tresloucados de sua época. Não tem estrangeiro que se mude pra cá e não diga a mesma coisa: em Praga, a realidade surge da mágica. Teus desejos mais secretos se concretizam. Mãe Praga tem garras, bem disse Franz Kafka, um de seus filhos mais conhecidos. 

Eu só tive essa sorte de ter vindo pra cá em 1997 e, de forma inesperada, ter virado diretor de jornais, revistas importantes e de vir influenciando essa nação há duas décadas com minhas colunas, programas de TV e rádio, livros e websites graças àquele dia no Ipê, que depois virou Ipergs. E que nem tinha circunflexo, pois não era a árvore, mas sim o arranha-céu. Mas escrever Ipê sem acento é como escrever estreia com esse “e” abandonado. Não consigo.

Se não tivesse aquele dia em 1975 sido tão mágico e trágico, não teria ficado gravado feito cicatriz em minha memória, aí eu não teria aceitado o bilhete da KLM pra Praga (via Amsterdã). 

Depois de anos acuado pelos valores preconceituosos sob os quais cresci, frustrado com a discriminação impregnada no subconsciente coletivo, ao enfrentar o fim de um intenso primeiro relacionamento, não fosse essa mão forte – ou as garras – de Praga, eu não teria sobrevivido. 

Bem como não teria sobrevivido aos 5 anos se, naquele milésimo de segundo em que, feito * viado, me vi paralisado frente aos carros vindo em minha direção, imóvel no aguardo da morte iminente, fui alçado novamente ao nível daqueles olhos azuis enormes do ator tcheco (ou eslovaco? Nunca saberei…) que, do nada, surgiu no meio da avenida e, feito Super-Homem de verdade, agarrou meu esquálido corpo de quase bebê a tempo de evitar os carros e voou comigo de volta para a calçada, onde ambos caímos por cima de minha mãe, que gritava desesperadamente, enquanto me dava tapas na cabeça e dizia que queria me matar… por ter quase morrido.


Fabiano Golgo, 50 anos, de Porto Alegre, foi estudar Jornalismo e Antropologia Cultural nos EUA, entre 1989 e 1997, e mudou-se para Praga, na República Tcheca, onde se transformou em Editor-Chefe e diretor de jornais, revistas e websites, apresentador de programas de TV e rádio, além de manter há 20 anos coluna semanal de opinião em veículo local de destaque. Solteiro, sem filhos, colorado, libriano, mas com ego leonino.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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