Flávio Wild: Feridas abertas

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Porto Alegre, janeiro de 2020, 36 graus. Percorri a pé da Bento Gonçalves à Voluntários da Pátria, da Independência à Marechal Floriano, com apenas o celular e a vontade de registrar fachadas antigas, datadas das primeiras décadas do século XX, quando a arquitetura seguiu os estilos neoclássico, eclético e, depois, modernista. Ornamentadas com alegorias e estatuárias, as fachadas neoclássicas se espelhavam na cultura europeia, ao gosto da nova ordem social burguesa e seu desejo de superação do passado colonial.

São edificações que compartilham a mesma origem da casa onde nasci e vivi por 35 anos. Construída em 1920, na rua Dona Laura 19, o local ficava no alto da chamada Colônia Africana – hoje bairro Rio Branco – porque lá construiu seus casebres grande parte dos escravos alforriados. A escritura conta que ela pertenceu à família Vasconcellos, e foi cedida por ação hipotecária ao industrialista sírio Elias Rahel, que, em 1962, vendeu-a para o meu pai.  

Na minha infância, algumas casas ornamentadas, mas já decadentes, nas ruas Castro Alves e Casemiro de Abreu, eram habitadas por idosos descendentes de escravos, que lá viviam e tinham pequenos comércios com artigos de armarinho e revistas. 

Na Dona Laura 19, era amigo dos morcegos que habitavam o sótão. Quando subia lá, o pai tinha que armar a escada sobre uma mesa para conseguir alcançar o alçapão, no alto do pé-direito de quatro metros. Ao descer, trazia impregnado nas roupas o cheiro característico dos bichos. Nos dezembros, a casa era tomada por cupins. Ficava tão infestada que se podia vê-los como uma grande massa em movimento sobre os tabuões do piso e os peitoris das janelas. Para fugir do calor e dos insetos, passávamos as tardes no porão, que se mantinha fresco. Nos agostos, a umidade escorria nos azulejos dos banheiros em gotas contínuas. Os espelhos ficavam embaçados. A casa virava um grande frigorífico, sem calefação, e nos aquecíamos com estufas alimentadas por pequenos botijões de gás. Nas madrugadas sem chuva, dormia com os miados loucos dos gatos no cio, que pulavam os muros repletos de heras e espinhos. Os canteiros, com roseiras e arandelas, viravam cemitério quando morriam os animais de estimação. Estão lá a gata Mimi e sua descendência e o cãozinho Leco, que morreu atropelado após escapar pelo portão. Apesar dos infortúnios de habitar uma casa antiga, a vida seguia feliz. No ano das Diretas Já, o pai morreu, e pela primeira vez vi a mãe chorar. A casa nunca mais foi a mesma. As histórias foram se diluindo, perdendo força, num sinal inequívoco de colapso e finitude.

Nesse mosaico de fachadas que fotografei, um passado de esplendor ainda se vislumbra na decadência presente. São edificações envelhecidas, com perda de memória, reboco e solidez e, algumas, de uso. Estão predestinadas à ruína. Mas ainda seguem em pé.


Flávio Wild é designer gráfico, fotógrafo e arquiteto. É autor do livro de contos e fotografias Silêncio em Siena (7Letras, 2010).

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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