Frederico Bartz: Os lugares do antifascismo em Porto Alegre

Durante as últimas semanas se intensificaram as manifestações antifascistas em diversas partes do Brasil. A atualidade do debate sobre o antifascismo, do combate à exploração de classe, ao preconceito racial, à opressão de gênero e à homofobia, que estão vinculadas à luta antifascista, se mostram mais necessárias do que nunca. No entanto, se conhece muito pouco sobre a importância da luta contra o fascismo no passado, nem se conhecem os locais que eram ponto de reunião e organização dos antifascistas em nossa própria cidade. Essa memória é um elemento importante das lutas no momento presente, pois reforça a ideia de que existem tradições de resistência, que devem ser conhecidas e reivindicadas. 

A luta contra o fascismo em Porto Alegre foi um movimento muito amplo, diverso e multifacetado, que teve sua maior força entre o final dos anos 1920 e a primeira metade dos anos 1940. Uma das razões para essa pluralidade do movimento antifascista era o fato que o fascismo se apresentava em diversas variantes, dependendo da origem nacional dos sujeitos. Nesse período a cidade de Porto Alegre ainda tinha diversas comunidades étnicas que mantinham vínculos com seus países de origem, e isto foi um elemento de penetração do fascismo.  Mas, como sempre é necessário afirmar, onde o fascismo avança, se levantam barreiras de resistência e luta, e, no caso de Porto Alegre, elas foram muitas.

O antifascismo começa a se organizar localmente dentro da comunidade italiana, com a formação do Grêmio Antifascista Giacomo Matteoti, fundado no ano de 1926 para combater a influência do fascismo italiano. Durante os anos 1930, surgiram outros movimentos, como a Liga dos Direitos Humanos, principal organização dos antinazistas alemães, com forte influência anarquista, e o Centro Republicano Espanhol, que congregou os membros daquela comunidade contrários ao franquismo. Não eram apenas os imigrantes que enfrentavam este problema, pois os brasileiros tinham seu próprio fascismo a combater, o integralismo. Para barrar seu avanço foi criado, por influência comunista, o Comitê Antiguerreiro, e em 1935 foi instalada em Porto Alegre a maior organização antifascista do período, a Aliança Nacional Libertadora. Os judeus progressistas, reunidos no Círculo Social Israelita e no Grêmio Esportivo Israelita, igualmente davam combate aos integralistas que marchavam pelas ruas do Bonfim. Também é necessário registrar o caso dos ucranianos e bielorrussos, que combatiam os fascistas poloneses que desejavam sua assimilação e fundaram Luz Operária Russo Branca e Ucraniana. 

Para melhor caracterizar esses espaços de luta e organização, escolhi alguns exemplos de lugares de memória antifascista em Porto Alegre para contar sua história.

  • 1. Livraria Americana (Grêmio Giacomo Matteoti): Para combater o avanço do fascismo na colônia italiana local um grupo de imigrantes formou, em 23 de junho de 1926, o Grêmio Antifascista Giácomo Matteotti. Este foi o primeiro grupo do gênero surgido em Porto Alegre. O nome escolhido homenageava o líder do Partido Socialista italiano assassinado por fascistas na Itália em 1924, após denunciar publicamente os crimes do regime encabeçado por Mussolini. Esse grupo era formado principalmente por artistas, artesãos e profissionais liberais, tendo um forte apoio da maçonaria. Sua primeira sede e um dos seus locais e reunião era a Livraria Americana, que ficava na esquina da rua dos Andradas com a rua General Câmara. 

Livraria Americana (Acervo Museu Joaquim Felizardo)

  • 2. Livraria internacional (Liga dos Direitos Humanos): Como resposta à ascensão do nazismo na Alemanha no ano de 1933 foi fundada a Liga Für Menschenrecht (Liga dos Direitos Humanos) e começou a ser publicado o jornal Aktion, com a única finalidade de combater a ação dos nazistas no Rio Grande do Sul e no Brasil. Uma das principais figuras da luta antinazista em Porto Alegre foi o anarquista alemão Friedrich Kniestedt, que já era uma liderança importante do movimento operário local e que administrava, junto com sua companheira Elisa Hedwig, a Livraria Internacional, localizada na rua Voluntários da Pátria, n.1195. Esse local se tornou um dos pontos nevrálgicos da luta antinazista na cidade, sediando reuniões organizativas e sendo o local de edição do jornal Aktion.

Foto da Livraria Internacional (Memórias de um Imigrante Anarquista, trad. René Gertz)

  • 3. Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos (Centro Republicano Espanhol): Durante os anos 1930, o edifício da Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos, na rua Andrade Neves, era o principal ponto de encontro desta comunidade em Porto Alegre. Foi fundado o Centro Republicano Espanhol, que congregava os elementos mais progressistas da colônia, entre os quais o arquiteto Fernando Corona, que havia projetado a sede da Sociedade. Depois do início da Guerra Civil, em 1936, o Centro Republicano, que funcionava nas dependências do prédio, passou a ser um importante ponto de apoio de uma rede que arrecadava donativos, fazia circular propaganda e articulava a ida de combatentes antifascistas para a Espanha. 

Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos (Foto de Lucas Prochnow)

  • 4. Teatro São Pedro (Aliança Nacional Libertadora): A Aliança Nacional Libertadora (ALN) foi fundada em 1935, com o objetivo de unificar as forças progressistas do país no combate ao fascismo e ao autoritarismo, ao mesmo tempo em que procurava articular uma revolução democrática e popular. A instalação da ALN no Rio Grande do Sul foi um grande acontecimento, com a lotação completa do Teatro São Pedro. A Aliança teve uma forte influência comunista, isso se fez notar no seu lançamento, em que se destacaram nomes locais e nacionais vinculados ao partido como Dyonélio Machado, Aparício Cora de Almeida e Maura de Senna Pereira. Logo após sua instalação, em julho de 1935, a ALN foi fechada e duramente perseguida pelos Governos de Getúlio vargas e Flores da Cunha.

Teatro São Pedro durante os anos 1930 (Acervo Prati Fotos antigas)

1-Livraria Americana (Grêmio Giacomo Matteoti)
2- Livraria internacional (Liga dos Direitos Humanos)
3- Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos (Centro Republicano Espanhol)
4- Teatro São Pedro (Aliança Nacional Libertadora)


Frederico Duarte Bartz – Doutor em História, Técnico em Assuntos Educacionais na UFRGS e Coordenador do Projeto Caminhos Operários em Porto Alegre

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

A revista digital Parêntese é enviada todos os sábados aos assinantes premium do Matinal Jornalismo. 

Para receber a próxima edição, assine o Matinal. Assim você apoia o jornalismo de Porto Alegre e receba todos os nossos produtos.

Receba as newsletters do Matinal! De segunda a sexta, trazemos as principais notícias de Porto Alegre e RS. Na quinta, enviamos uma agenda cultural completa por Roger Lerina. No sábado sai a Parêntese, com reportagens, entrevistas e análises exclusivas.