Gabrielle Toson: Martinica

FRANCESA, ANTILHANA, AFRICANA

No sul da Martinica, a poucos quilômetros do centro da comuna de Sainte-Luce, há uma floresta chamada Montravail, uma das poucas áreas de natureza nativa abertas à visitação e facilmente acessíveis. Trilhas que seguem cursos d’água e mesas para a realização de piqueniques estão entre as atrações do local. Estive lá pela primeira vez a convite de amigos martinicanos para participar de um brunch ital, termo apropriado da cultura rastafari que, na Martinica, faz referência à alimentação sem nada de origem animal. Guria de Porto Alegre, branca, universitária, urbana e – para completar o combo dos privilégios – vegana, eu estava morando em uma região onde veganismo, entre outras tendências contemporâneas das metrópoles, não existe. Suspeito que o tal brunch foi pensado para que eu me sentisse definitivamente integrada à vida local. Por um lado, foi mesmo. Provei pela primeira e única vez os pois d’Angole e os pâtés salés, o Robinson e o Amour Caché, entre outras especialidades da culinária antilhana impecavelmente elaboradas, para mim, em versão ital.

Os espaços conviviais de Montravail são concorridos, por isso meus amigos haviam chegado cedo a fim de reservar um dos quiosques maiores. Estávamos em um grupo de 10, talvez 12 pessoas. Em dado momento, uma senhora se aproximou e perguntou se ela e a famíla poderiam compartilhar da nossa sombra, pois era aniversário da neta e fazia muito calor, os demais quiosques ficavam longe, ela com dificuldade para caminhar…  Sim, claro que podiam. Em poucos minutos, vi se armar ao nosso lado uma festa inteira com cerca de 30 participantes, decoração, música, pares dançando o zouk, comes e bebes, presentes e uma aniversariante com vestido de paetês fazendo poses para a câmera fotográfica. Logo voltou a senhorinha, distribuindo fatias de bolo e refrigerante para quem quisesse. Tal qual a garagem de casa, mas no meio da floresta. Evento mais tipicamente martinicano, impossível. 

Departamento ultramarino da França desde 1946, a Martinica conta com pouco mais de 376 mil habitantes em seus cerca de 1.100 km², de tal maneira que, se nem todo mundo se conhece, a maioria age como se conhecesse. Em uma ilha afamada pelas paisagens cartão-postal com praias de coqueiros altos e água cristalina, vegetação diversa e abundante e animais amistosos que aparecem a qualquer hora do dia, a voz da sua gente animada é um encanto em particular. Antíteses do estereótipo do francês padrão, os martinicanos são geralmente extrovertidos, puxam conversa sem cerimônia, sorriem com facilidade, falam alto e têm o hábito de cumprimentar afetuosamente até quem cruza seu caminho pela rua, seja conhecido ou não. 

Há um provérbio em crioulo que diz “tan fè tan, tan kité tan”¹, algo como “o tempo fez seu tempo, o tempo deixou seu tempo”¹. Marcada por uma história que alude aos séculos de colonização, massacres e escravidão, a verdade é que a Martinica se formou e se reformou ao longo do tempo por meio da influência de diferentes povos migratórios, característica que atribui à região um caráter multicultural. Mais de 85% da população é composta por descendentes de ex-escravizados e, em número menor, de indígenas. Porcentagem que não se reflete na organização da sociedade como um todo, pois, mesmo nos dias de hoje, quem detém o poder econômico e político são os membros de famílias herdeiras dos antigos colonizadores, chamados békés, e imigrantes brancos vindos da França europeia. 

O que se tem, nesse cenário, é um arranjo étnico-racial completamente amalgamado aos hábitos e costumes da população. Uma pluralidade que se reflete tanto na diversidade cultural quanto na ausência de uma identidade própria, uma vez que não há um consenso social em relação à origem de quem nasce na Martinica. Dizer-se “francês”, “martinicano” ou “antilhano” é uma escolha política, mas essa discussão não existe para além de um fraco movimento independentista. Não só isso. Pouco se fala sobre racismo e nada se fala sobre preconceitos de gênero e de orientação sexual, sobre discursos de ódio e sobre tantas outras manifestações de intolerância, presentes na sociedade martinicana como em todas as outras, mas lá de forma totalmente velada e integrada ao “ser martinicano”.

Nesse contexto, amabilidade não necessariamente significa acolhimento. E aqui entra a segunda parte da estória. À época dessa minha lembrança do bruch ital, poucas semanas após as últimas eleições presidenciais no Brasil, o mundo ainda tentava entender o que acontecia e os porquês de tudo o que acontecia do lado de cá. Onde quer que eu chegasse, o tema era, sempre, política. Na ocasião, não foi diferente; e nesse mesmo dia, na forêt de Montravail, senti como poucas vezes o peso de ser mulher estrangeira vivendo em um lugar onde ser mulher, e mulher estrangeira (e branca), infelizmente não vai muito bem no cartão de visitas. 

Não lembro exatamente em que momento a atmosfera agradável e os risos do almoço se transformaram em debate político, mas lembro da forma como, naturalmente, uma a uma, as mulheres começaram a desistir da conversa para organizar a louça, enquanto os homens se fechavam em um círculo. Entre comentários razoáveis e alguns absolutamente inaceitáveis, lembro de tentar, eu também, mulher e brasileira, me posicionar sobre o que acontecia no meu país – e não conseguir, pois eu simplesmente não era ouvida. Para além de um caso típico de mansplaining, era como se eu não estivesse ali. 

Não foi a única vez em que vivenciei uma situação de sexismo, e certamente não foi a pior. Mas, aos meus olhos, é uma das que melhor ilustra a discrepância da vida nas Antilhas. De um lado, a alegria e o carinho daquelas pessoas tentando me receber e me oportunizar uma experiência que se aproximasse o máximo possível à sua real cultura; de outro, o caráter excludente indissociável dessa mesma cultura, na qual eu não pude me expressar em uma conversa “de homens”, não apenas por ser mulher, mas porque naquela sociedade cada pessoa tem seu lugar pré-estabelecido, e não havia outro para mim a não ser o da estrangeira, única mulher estrangeira branca em grupo de martinicanas e martinicanos. Tudo bem eu estar lá, degustar a culinária local, falar um pouco sobre praia, ensino de português e bronzeado. Mas querer discutir política (ainda que fosse a do meu país) era ir longe demais. 

O contraste esteve presente nos sete meses em que morei na Martinica, entre outubro de 2018 e maio de 2019. Selecionada em um programa do governo francês para trabalhar como assistente de língua portuguesa, o que eu tinha em mente na época da minha inscrição era a França Metropolitana que existe no imaginário da maior parte de quem se interessa pelo universo francófono. O Caribe passava longe das minhas expectativas, o que fez de cada um dos meus dia lá, uma nova surpresa. Dividida entre o encantamento com a natureza e a frustração pelos inúmeros problemas de mobilidade e serviços deficitários, entre a cultura riquíssima e o pouco interesse das pessoas por sua própria história e questões sociais, entre a gentileza, a simpatia e o bom-humor e o machismo, a homofobia e outros preconceitos. 

Nesse quadro de beleza extraordinária e desigualdade latente, eu também encontrei muitas semelhanças com o Brasil, em especial naquilo que remonta à nossa própria história. O que talvez tenha me permitido entender algumas coisas, ainda que eu não seja capaz de explicá-las. Na Martinica tem carnaval de rua com bloco, “carro alegórico” e fantasia; tem dombwé pois rouj épi latché cochon, prato à base de feijão vermelho e com as partes menos nobres do porco, muito semelhante à nossa feijoada; tem também a lenda da sereia Manman Dlo, personagem mítica quase idêntica à Iemanjá; tem a ladja e o bèlè, manifestações culturais de combate e dança que lembram a capoeira; e ainda o rum, um dos principais produtos de exportação que, assim como a cachaça, subsiste desde os tempos da cultura açucareira. Martinica é Madinina, é l’île aux fleurs, a ilha das flores. É francesa, mas é caribenha, e antilhana, e africana. É de todos, mas não necessariamente para todos.

 ¹Em uma tradução literal do francês: “le temps a fait son temps, le temps a quitté son temps”.
























Gabrielle Toson é formada em Jornalismo e licencianda em Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Entre 2018 e 2019, atuou como assistente estrangeira de língua portuguesa na Academia da Martinica. É bolsista ministrante de língua francesa no Núcleo de Ensino de Línguas em Extensão (NELE), projeto de extensão vinculado à UFRGS.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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