Guto Leite: Se correr, o banco pega…

Limpando o terreno: o Itaú não apoia a cultura brasileira. O lucro líquido do Itaú em 2019 foi de 28,4 bilhões de reais. Seu investimento em cultura foi de 248 milhões, 0,8% do lucro, mais da metade com renúncia fiscal. O edital de música do projeto “Arte como Respiro”, que será comentado aqui, ofereceu 160 cachês de 5 mil reais e 40 de 2.500 reais, totalizando 900 mil reais, o que significa 0,003% do lucro líquido do Itaú do ano passado. Se o edital oferecesse um auxílio de cinco mil reais a 60.000 músicos – cobrindo todos os profissionais que vivem de música no Brasil, segundo a OMB –, gastaria 300 milhões de reais, ou 1,1% do lucro de 2019. 

Com o perdão da redundância: em tempos de pandemia, com milhares de mortos ao dia no país, se o Itaú reservasse 3% de seu lucro líquido de 2019 para incentivar artistas do teatro, da música e da literatura, dando cinco mil reais por artista, remuneraria cerca de 170.000 artistas brasileiros. Isso seria apoiar a cultura brasileira em tempos de crise ou não. Mas o Itaú não mobiliza, sequer excepcionalmente, 3% de seu lucro para incentivar a cultura. Se o Itaú não apoia a cultura brasileira, o que faz? O que é o Itaú Cultural? O que ganha o Itaú ao fingir que apoia a cultura brasileira? Ganha a imagem de apoiador? Faz as vezes do Estado no que tange à cultura e com isso opera na ideologia para a defesa de um Estado mínimo? Investe numa sutil e inútil compensação em relação ao estrago social, à catástrofe, que um lucro de 30 bilhões por ano acarreta em uma sociedade como a nossa – como ricos que saem de restaurantes caros e dão viandas a mendigos? Quantos mortos o lucro do Itaú provoca por ano para termos uma peça de teatro, um show ou um projeto literário?

Indo ao ponto: na semana passada saiu o resultado do edital emergencial de apoio à música do Itaú Cultural, o “Respiro”, e os nomes de alguns grandes artistas figuravam na lista de aprovados. Segundo os organizadores, só dez por cento dos selecionados (20 talvez) são artistas famosos e o edital teria contemplado diversos estados brasileiros e cidades do interior desses estados. Ver artistas consagrados na lista irritou e decepcionou milhares de artistas que enviaram seus projetos acreditando tratar-se de um edital feito para ajudar justamente artistas que não podem contar com uma rede de apoio de milhares de fãs – posição que pode ser sintetizada com agudeza pelo depoimento do compositor Luciano Mello. (A cantora e compositora Zélia Duncan publicou vídeo argumentando pela legitimidade de sua inscrição, mas depois o retirou das redes). 

Ao mesmo tempo, como saber se tal ou qual artista consagrado precisa ou não desses valores? Olhando a lista, pelo que se sabe de alguns deles, certamente cinco mil reais não seriam necessários agora – muito menos seriam mais necessários a eles do que aos artistas preteridos que estão completamente sem renda e sem horizontes. Agora, há nomes ali que sei que precisam, mesmo sendo famosos. Casos de artistas que não só não contam com os valores, como também não seriam capazes de consegui-los com vaquinhas virtuais, lives pagas, apelo aos fãs… como saber? Se considerarmos progressistas, “de esquerda”, boa parte desses artistas, podemos confiar em suas consciências para julgarem se necessitam ou não do dinheiro? É certo que a elaboração do edital poderia ter se precavido inserindo alguns critérios – como “artistas com até cinco discos lançados”, por exemplo (critérios melhores seriam “artistas enquadrados no MEI” ou “artistas cujo imposto de renda tenha sido abaixo de determinado valor”) –, mas daí perderia a oportunidade de  ter grandes nomes associados a sua marca por só 5 mil reais. Não existe almoço grátis. No edital original eram 80 e não 160 selecionados. Por que alteraram? Pelo volume de inscritos? Para que os artistas famosos não parecessem muitos numa lista mais enxuta?

(For god sake. It’s a bank!)

Agora sim, o ponto: e se olharmos pelo outro lado? Muitos grandes artistas não se inscreveram no edital. Por que não o fizeram? Porque têm consciência social? Por coerência? Não. Acho que não o fizeram basicamente porque não precisam. Alguns dos que se inscreveram não precisam, mas pensam que precisam, ou pensam que merecem, com maior ou menor dose de cinismo. À moda dos banqueiros, vamos brincar com vidas e números… Vamos supor que metade dos artistas famosos selecionados não precise. (Sim, já é horrível porque deixaram dez artistas à míngua por sua falta de sensibilidade. Artistas com falta de sensibilidade, é isso mesmo). Complementarmente, vamos supor que metade daqueles artistas precisa da grana. E nem estou falando para manter a cadeia produtiva de músicos e técnicos que trabalham para eles, como disse Caetano (que não se inscreveu), mas para si mesmos, que precisam da grana para comer, pagar as contas, sobreviver, essas coisas. 

Para mim, este é o cerne: conheço alguns artistas com uma dezena de discos lançados que precisam de cinco mil reais e não teriam como tirar o dinheiro de outro lugar. No Brasil, a indústria cultural, que é deletéria, não se ramificou o bastante para dar condição razoável a músicos extraordinários. Alguns deles, famosos em nichos no mundo da música, vivem de fazer show ou de outros projetos por ora paralisados e não têm fãs o bastante para lhes dar suporte. Sem uma estrutura profissional consolidada na sociedade brasileira, os músicos geralmente vivem num pacto romântico, em que são mais vistos do que pagos, mais reconhecidos do que remunerados. Editais como esse do Itaú Cultural escancaram essa realidade, humilhando selecionados e não selecionados. O que o Itaú acha que os músicos brasileiros merecem em tempos de isolamento? 0.003% de seu lucro líquido do ano passado.

(É obvio que o Itaú não é um banco. Se fosse um banco, não apoiaria a cultura. Mas o Itaú não apoia a cultura. Então, vejam só, é um banco mesmo. Vocês estão me entendendo?)

Como já analisado por muitos, esse processo de modernização incompleta tem perversões singulares em nosso país. Se fosse tudo estruturado, talvez os músicos pudessem contar com o apoio do Estado, como na Alemanha ou na França. Se não houvesse estrutura alguma, os artistas já saberiam de antemão do deus nos acuda e da arte como algo de poucos e para poucos. Nem impessoal nem pessoal, nunca às claras. Nunca se sabe de onde vem o golpe e com quem se está falando no Brasil. Seria melhor então não ter edital nenhum? Ou ter edital de outro tipo, como os do Santander ou do Banco do Brasil (que abrem edital para patrocinar via Lei Rouanet)? Parece esquisito, mas depende. Um mecanismo que auxilie imediatamente as pessoas mas que prejudique uma conquista mediada mais sólida é bom ou ruim? Então os artistas não devem se inscrever em editais de bancos, marcas de produtos de beleza, empresas de telefonia, governos fascistas? Claro que devem. A objetividade das formas estéticas tem relativa autonomia frente aos arranjos de conveniência, e não conheço espaços melhores do que a educação e a arte para quaisquer transformações que se queira no mundo – se o Itaú quisesse mudar o mundo, investia um percentual maior de seus lucros em artistas. Neste caso específico, contudo, em que as migalhas do banco – bom dizer, que alimentariam, cada uma, noventa por cento das famílias deste país – podem sustentar artistas que precisam por alguns meses, e caso o artista não precise, melhor que não se inscreva. Alguns deles, com reconhecida militância antineoliberal e antibolsonarista, o mínimo que poderiam ter feito era não se inscreverem, ao preço de verem o que chutam pela porta lhes entrar pela janela.

(Mas, então, tu tá reclamando do quê?)

Este texto não é uma reclamação. Claro que seria melhor que artistas em condição confortável e capazes de obter os valores por outros meios não tivessem se inscrito. Também seria melhor, se o objetivo do Itaú fosse ajudar artistas em condições precárias nesse momento, que fizessem um edital que impedisse a participação de artistas entre os 5% mais ricos do país (quem ganha mais do que R$ 5.000 por mês). Mas este texto é uma hipótese de leitura da estrutura de incentivo à arte no país, ainda mais esboroada agora que temos um governo federal ignorante. Os artistas bem de vida que se inscreveram não o deveriam ter feito, mas a responsabilidade é sempre estrutural. Se tem um banco, um meio banco, um não banco, na parada, a culpa é do banco. Como os mordomos personificam o medo que a elite tem dos empregados nos romances policiais, os bancos simbolizam a espoliação da população brasileira e nunca fazem outra coisa, senão isso.

p.s.: agradeço pelo diálogo com o produtor Cleverson Ferreira na construção desse texto. Ele discorda parcialmente do meu argumento.


Guto Leite é poeta, cancionista e professor de Literatura Brasileira na UFRGS.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

A revista digital Parêntese é enviada todos os sábados aos assinantes premium do Matinal Jornalismo. 

Para receber a próxima edição, assine o Matinal. Assim você apoia o jornalismo de Porto Alegre e receba todos os nossos produtos.

Receba as newsletters do Matinal! De segunda a sexta, trazemos as principais notícias de Porto Alegre e RS. Na quinta, enviamos uma agenda cultural completa por Roger Lerina. No sábado sai a Parêntese, com reportagens, entrevistas e análises exclusivas.