Hacker: o fuçador, o decifrador

Marcelo Branco

Os hackers são programadores habilidosos e criativos, capazes de alterar o funcionamento “normal” de um sistema informático conforme previsto pelos criadores originais. Tem origem no verbo inglês “to hack”, cortar abruptamente de forma grosseira. O substantivo “hack” equivale ao nosso “gambiarra” – improvisar uma saída para um problema, de forma engenhosa e original. A expressão surgiu  na década de 1950 numa comunidade hobista de ferromodelismo dos Estados Unidos que modificava os projetos originais, através da alteração dos relés dos circuitos. Nos anos 1960, foi utilizada para descrever os técnicos que alteravam os sistemas telefônicos comerciais para fazerem ligações sem pagar para as operadoras, e na mesma década, mais adiante, para programadores que usavam “truques” e gambiarras para alterarem de forma criativa os programas de computadores originais. 

  
A ação de um hacker nem sempre segue os preceitos legais, mas é guiada pela “ética hacker” de usar o conhecimento e as informações de forma livre, sem barreiras, para construir um mundo melhor. Pela ética, um “hackeamento” não pode ser usado para garantir benefícios econômicos para o programador, mas sim para beneficiar toda a humanidade. A busca do reconhecimento público e de prestígio é o que move um coração de um hacker. 


“- O acesso a computadores – e qualquer outro meio que seja capaz de ensinar algo sobre como o mundo funciona – deve ser ilimitado e total.
– Desacredite a autoridade e promova a descentralização.
– Hackers devem ser julgados segundo seu hacking, e não segundo critérios sujeitos a vieses tais como graus acadêmicos, raça, cor, religião, posição ou idade.
– Tu podes criar arte e beleza no computador.
– Computadores podem mudar sua vida para melhor.” [1] [2]

O termo hacker é usado de forma indevida associado a criminosos digitais ou violadores de segurança. Mesmo que controverso, para tentar limpar esse desentendimento foi criado o termo “cracker” para aqueles que utilizam suas habilidades sem respeitar a ética hacker, na busca de obter benefícios materiais ou econômicos com a ação. Os programadores de software livre mais habilidosos, como Richard Stallman e Linus Torvalds, e toda comunidade se orgulham de serem chamados de hackers.

Um exemplo concreto que pode explicar uma ação hacker ilegal, mas ética na minha opinião, foi o recente caso dos “hackers de Araraquara”. Mesmo sem grandes conhecimentos informáticos, eles conseguiram invadir de forma ilegal as contas do mensageiro “Telegram” de várias autoridades brasileiras, tornando públicas as conversas de procuradores e do juiz da Lava Jato, que os mostrou num conluio fraudulento, em que eles combinavam previamente procedimentos para a condenação do ex-presidente Lula. Esses hackers prestaram um grande serviço para a democracia, revelando ao mundo que o juiz não agia com imparcialidade, conforme exigido num estado democrático de direito.  Os vazamentos do “wikileaks” ou os de Edward Snowden seguiram a mesma lógica da ética hacker.

Atualmente o termo “hackear” também é utilizado fora do âmbito da informática para definir uma ação que trabalha por dentro do sistema para alterar seu funcionamento original. Gilberto Gil, quando Ministro da Cultura, foi muitas vezes chamado de o “Ministro hacker” por suas ações inovadoras e fora do sistema, mesmo sendo uma autoridade. [3]

[1] Heroes of the Computer Revolution, Steven Levy: A ética hacker, capítulo 2, The Hacker Ethic;
[2]
The Hacker Ethic and the Spirit of the Information Age , Pekka Himanen, filósofo finlandês;
[3] Gilberto Gil: “Trabajo sobre la inspiración de la ética ‘hacker‘”, El País
.


Marcelo Branco é profissional de Tecnologia da Informação e Comunicação desde sempre. Foi co-criador do Fórum Internacional de Software Livre e do Conexões Globais. Foi o diretor geral das três primeiras edições da Campus Party Brasil.  Ativista de software livre, cultura hacker,  pelos direitos e nova formas de participação via Internet. Trabalhou  na Fundação Observatório da Sociedade da Informação em Barcelona e em empresas de tecnologia em  Roma e na Espanha.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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