Jornalismo que faz diferença

Por Marcela Donini

Duas pautas que publicamos nos últimos dias dizem muito sobre o propósito do nosso trabalho. A primeira delas foi veiculada na semana passada e apontava irregularidades na contratação do maior albergue de Porto Alegre. A Fasc contratou, sem licitação, um instituto presidido pelo filho do agora ex-secretário de Desenvolvimento Social, Itacir Flores (MDB), depois da sua posse. No dia seguinte, informamos também que o valor repassado pela prefeitura ao Instituto Renascer dobrou. Por fim, o secretário pediu exoneração do cargo, dois dias depois da primeira revelação do Matinal e após o Ministério Público abrir investigação para apurar as possíveis fraudes com base na nossa reportagem.

Chegamos a essa história enquanto a equipe de reportagem apurava outra pauta e recebeu uma denúncia. Os repórteres Sílvia Lisboa e Pedro Nakamura buscaram os documentos oficiais, consultaram advogados e tentaram contato, sem sucesso, com a Fasc, o secretário e seu filho, Thiago Flores. Por que fomos atrás dessa informação? Porque a gestão dos recursos públicos é de extrema importância para toda a cidade. Ainda mais em ano de eleições e no meio de uma pandemia que tem demandado gastos para lidar com problemas novos ou antigos que foram agravados pelo coronavírus.

Contextualizar e esclarecer

A outra reportagem que destaco pra vocês foi veiculada na quarta-feira. Um conteúdo com formato e proposta diferentes do caso do albergue. Há semanas, vínhamos acompanhando o que diz o noticiário sobre a adoção do “kit-Covid”, com medicamentos administrados em  pacientes com coronavírus no estágio inicial dos sintomas e até mesmo antes da testagem. A partir de um e-mail de uma assinante nossa, médica, que defende o “tratamento precoce”, decidimos aprofundar o assunto. Trocamos algumas mensagens e ela enviou uma série de estudos para justificar sua posição e sugerir a pauta. A assinante, que pediu para ter preservada sua identidade, estava determinada a colaborar com o debate público, assim como nós. Por isso, apesar de todas as evidências que já conhecíamos até então serem contrárias à alternativa, demos um crédito e fomos tentar entender que estudos eram esses e por que ainda há quem defenda remédios sem base científica contra a Covid-19. 

O jornalista Felipe Franke, estudante de Medicina na UFRGS e titular da seção Microscópio, mergulhou nos estudos científicos para entender qual seu grau de rigor, o que diziam – e o que não diziam. A repórter Naira Hofmeister falou ainda com prefeituras que estão adquirindo o “kit-Covid” para tentar entender suas razões. Como era de se esperar, nenhuma delas citou que poderia haver uma motivação eleitoral, mas, especialmente em ano de eleições municipais, não se pode descartar essa possibilidade. A dupla ouviu ainda professores e médicos para alertar a população sobre os riscos individuais e coletivos do uso indiscriminado desses remédios.

Por fim, costuramos informações do noticiário nacional, contexto que costumamos dar na nossa newsletter diariamente e que, acreditamos, ajuda a situar os leitores em meio à enxurrada de dados que inundam nossas redes. Tudo isso resultou num texto mais longo do que nossa denúncia sobre a gestão de um albergue em Porto Alegre. E que, na nossa avaliação, esclareceu diversos pontos ligados ao tratamento da Covid-19. Além disso, para combater a desinformação em torno do assunto, publicamos cards com informações checadas pela reportagem para veicular em nossas redes sociais e disparar para os assinantes do Zap Matinal, serviço de boletins diários no WhatsApp (ainda não assina? Manda um “oi” por aqui).

O impacto representado pela demissão do secretário mostra o quanto é importante o papel do jornalismo quando ele é independente do poder. Para que a gente continue firme no nosso propósito de produzir reportagens que façam diferença na sua vida, seja investigando o poder ou esclarecendo temas ainda obscuros, queremos contar com vocês. Estamos abertos a denúncias sobre suspeitas de irregularidades no setor público ou privado, especialmente sobre histórias de Porto Alegre. Recebemos essas sugestões pelo e-mail bomdia@matinal.news e vamos checar aquelas que tiverem interesse público.

E, para que a gente publique mais conteúdo do que hoje, precisamos do seu apoio. Vocês podem fazer isso contratando planos pagos, que dão direito a conteúdos exclusivos, e também compartilhando nosso trabalho com amigos. As eleições municipais vêm aí, e como o foco do nosso jornalismo é local, queremos planejar uma cobertura à altura do que vocês merecem. Contamos com sua ajuda!

Marcela Donini é editora-chefe do Matinal Jornalismo
marcela@matinaljornalismo.com.br

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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