José Falero: Para não enlouquecer

Quando chega esta época do ano por aqui, os cupins se comportam como se fossem os donos do mundo. E eu — que não tenho lá grandes posses, mas aprendi a ser paciente — gosto de vê-los encontrar a morte na lâmpada do quarto. Para eles, assim como para nós, parece haver algo mais urgente do que a própria vida.

Ontem de noite, atentei para um cupim desgarrado. Alheio à nuvem que envolvia a lâmpada da morte, zanzando pelo quarto sem destino certo, a princípio inspirou-me dó. Contudo, logo fui capaz de ressignificar sua solidão, e tratei de batizá-lo mentalmente: Transgressor (palavra pela qual tenho muito gosto e respeito, desde que a vi empregada para adjetivar um cachorro que costumava cagar em frente a uma delegacia).

Bem, adianto logo que, não obstante minha simpatia pelo Transgressor, ele não durou muito. Poucos segundos após ser batizado, lá estava o infeliz em apuros, enredado numa teia de aranha, exatamente na junção do forro com a parede onde penduro o cavaquinho e o violão. Tudo o que teve tempo de fazer foram duas ou três tentativas inúteis de libertar-se e, por fim, acabou engolido. O curioso é que não foi a aranha dona da teia a devorá-lo, e sim uma lagartixa morta de fome que estava pela volta e correu a aproveitar-se da situação.

Ninguém gosta de perder o jantar. Muito menos para uma lagartixa que, de olhos arregalados e lábios esticados de orelha a orelha, por assim dizer, parece sempre ocultar a custo um largo sorriso de deboche. Compreendo, portanto, a aranha, que não hesitou em abandonar o recôndito da fresta entre a parede e o forro para ir tirar satisfações. Enfurecida, percorreu a teia com impressionante rapidez, e logo estava face a face com a miniatura de jacaré. Não houve como evitar as vias de fato.

Nem bem iniciaram a contenda, despencaram as duas lá de cima e, no meio da queda, o rabo da lagartixa chegou a tirar um discreto Sol Maior das cordas do cavaquinho. Lagartixa que, inclusive, era cinzenta: fiquei me perguntando se, a exemplo de Gandalf, que também combateu o Balrog enquanto ambos caíam, ela algum dia retornaria como branca, caso derrotasse a aranha.

Essa ligeira distração bastou para que eu perdesse as duas de vista completamente. Fiquei sem saber o ponto exato do chão onde aterrissaram, e também não encontrei rastro de nenhuma olhando ao redor e por baixo dos móveis.

Hoje, depois de uma noite de sono — por mais curta que tenha sido a noite e por pior que tenha sido o sono —, estou inclinado a concluir que nada daquilo aconteceu realmente. Deve ter sido uma alucinação, um delírio. Ou talvez tenha sido a necessidade de fabular. A necessidade de fabular mesmo quando a parede do quarto torna-se o único horizonte por vários dias a fio. A necessidade de fabular para não enlouquecer.


José Carlos da Silva Junior nasceu e vive na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre. Adotou o pseudônimo “José Falero” em homenagem à mãe, de quem herdou a veia artística, mas não o sobrenome. É escritor, autor de Vila Sapo (Figura de Linguagem, 2019) e participante das antologias À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018) e Ancestralidades: Escritores Negros (Venas Abiertas, 2019). Trabalha como auxiliar de gesseiro para não morrer de fome, e toca cavaquinho para não morrer de tristeza.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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