José Falero: Um país dividido em dois

Ano passado, lá no Bate-papo Periferia em Movimento, em Canoas, tive a oportunidade de participar de uma roda de conversa foda, de trocar saberes, de pensar coletivamente o fomento da cultura na quebrada. Conheci uma pá de gente massa, incluindo o Seu Baiano, um cara ímpar, que contou um pouco da sua trajetória, e como acabou se tornando o líder comunitário que é hoje em dia.

Das histórias que o Seu Baiano contou, a que mais me impressionou foi a de como, certa vez, ele instalou gato de água pros moradores da sua antiga comunidade. Até então (pensem nisso), quase ninguém naquela comunidade tinha acesso a água potável. E daí lá foi ele e uns amigos abrir buraco na calçada. Mas, claro, toda quebrada tem sempre um caguete.

Uma mulher da comunidade, com um pouquinho mais de condição que os outros, e que já tinha água instalada e regularizada, não gostou de saber que deixaria de ser a única a possuir água nas torneiras em casa. Não gostou de saber que perderia a distinção. Era um símbolo prestes a se desvalorizar. Era como se, de uma hora pra outra, uma grife, uma bolsa louis vuitton, estivesse prestes a se popularizar, de modo que já não seria mais possível humilhar os outros e se vangloriar dizendo “veja, eu tenho isto, e vocês não tem”. Então, vendo que um símbolo de injustiça tava prestes a perder o significado, a mulher, sem pensar duas vezes, fez o que a maioria das pessoas faz quando esse tipo de coisa acontece: recorreu aos defensores da injustiça. Ou seja, chamou a polícia.

O Seu Baiano explicou que, quando a polícia chegou, os amigos dele saíram correndo, e que ele também teria saído correndo, se não fosse tão gordinho na época. Achando que não conseguiria escapar dos policiais, resolveu ficar ali, dentro do buraco, e segurar o B.O.

— O que tu tá fazendo aí?
— Tô ligando água. Não só pra mim, mas pra todo o mundo que não tem.
— Mas quem é que tu deixou sem água pra conseguir fazer isso?
— O senhor não entendeu. Eu tô ligando água, pra quem não tem. Não tô tirando água de ninguém.
— E tu sabe fazer isso?
— Ora, se eu não soubesse, não tava aqui dentro. Olha aí, já tô quase terminando.

Nesse momento, a mulher que tinha chamado a polícia apareceu, pra garantir que alguma coisa fosse feita.

— Fui eu que chamei vocês. Pode prender, que ele tá fazendo gato aí.
O policial perguntou:

— Daí, pra fazer o gato que ele tá fazendo, ele deixou a senhora sem água?
— Claro que não! A minha água é regularizada, ligada lá do outro lado.
— Então, se a senhora não ficou sem água, tá se metendo por quê? Deixa o cara ligar a água.

Depois de contar essa história, o Seu Baiano riu e explicou:

— Assim eu fui me tornando referência e ganhando o respeito da comunidade. Afinal, todo o mundo tinha medo da polícia.

Eu simplesmente não consigo definir o ponto que foi mais interessante nessa história que o Seu Baiano contou. Essa pequena história, me parece, é quase capaz de descrever o Brasil inteiro. Tá quase tudo ali: a forma de pensar burguesa daquela mulher, a sua absoluta falta de empatia, a sua incapacidade de pensar coletivamente, o seu egoísmo; o fato de a polícia só aparecer bem numa história quando simplesmente se nega a fazer o que costuma fazer; e o cidadão que se cansa da falta e resolve fazer alguma coisa por si e por seus vizinhos.

Mas acho que o que mais me chama atenção nessa história inteira é uma frase que o Seu Baiano pronunciou, e que foi prontamente entendida por todos, em toda a sua profundidade: “afinal, todo o mundo tinha medo da polícia”.

Ali, na sala, tinha lideranças de várias comunidades, e também pessoas que não chegavam a ser lideranças, como eu, mas que vieram da periferia também. Então, não era todo o mundo de uma mesma vila, de uma mesma favela, de um mesmo morro, mas, ainda assim, tínhamos uma origem em comum: a quebrada. Todos ali eram de periferia, ou, pelo menos, engajados nas causas periféricas. E isso nos unia a todos. Como diz a Dalva, a periferia, mais do que um ponto geográfico específico num mapa, é um lugar existencial, onde existimos, da forma como existimos, e isso acontece em diversos lugares ao mesmo tempo. Foi por isso que o Seu Baiano não precisou ficar dando milhares de explicações depois de dizer: “afinal, todo o mundo tinha medo da polícia”. Ele não precisou dar explicações porque todos nós sabíamos do que ele tava falando. Ali, embora cada um tivesse uma origem geográfica diferente, éramos todos oriundos ou identificados com um mesmo espaço existencial, a periferia, e por isso podíamos entender de imediato essa ideia que por vezes parece absurda a outras pessoas: a ideia de todos, absolutamente todos em uma comunidade inteira, criminosos ou não, terem medo da polícia.

Depois do evento, fiquei pensando nisso a noite inteira, demorei a dormir. As pessoas acham que o Brasil ficou dividido só nos últimos tempos, mas não. Nunca tivemos um país unido de verdade. Este país sempre foi assim, rachado em dois, dividido entre os que chamam a polícia e os que fogem dela.


José Carlos da Silva Junior nasceu e vive na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre. Adotou o pseudônimo “José Falero” em homenagem à mãe, de quem herdou a veia artística, mas não o sobrenome. É escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e participante das antologias À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018) e Ancestralidades: Escritores Negros (Venas Abiertas, 2019). Trabalha como auxiliar de gesseiro para não morrer de fome, e toca cavaquinho para não morrer de tristeza.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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