Juarez Fonseca: Geniozinho nos 60, irreverente nos 90

Ele era para mim uma figura meio mítica. Falavam de um jovem jornalista brilhante, uma inteligência fora do comum, um preparo intelectual raro em alguém com tão pouca idade. Recém-saído da adolescência e já levado a sério com crítico de cinema! Crítico de cinema, na época, meados dos anos 1960, era alguém que comentava com propriedade os filmes da Nouvelle Vague, por exemplo. Os textos de Jefferson Barros eram abrigados pelo Correio do Povo e a Folha da Tarde, principais jornais gaúchos. Eu, no curso de Jornalismo da UFRGS a partir de 1967, ouvia falar dele como se fosse um geniozinho. Algumas vezes o avistei, de longe, no âmbito da Universidade, mas nunca me aproximei, sua turma era outra, os estudantes de filosofia e política. 

Só fui conversar com Jefferson em 1993, eu já há 20 anos em Zero Hora e ele chegando com a nova administração do jornal. Foi trazido por José Onofre, outro daquela turma de jovens críticos de cinema, que depois de anos em São Paulo voltava a Porto Alegre como editor-chefe de ZH. De cara Jefferson veio conversar comigo e desfiz instantaneamente a antiga impressão de alguém de nariz empinado e, como dizia Henry Miller, com “a barriga cheia de livros”. Ficamos amigos de Redação, de sair para conversar amenidades no cafezinho, de trocar impressões sobre os mais variados temas. Continuava a escrever com brilho sobre cinema e cultura, mas algumas vezes me sugeriu que já não levava aquilo muito a sério.

Seu comportamento também indicava que não duraria muito tempo no jornal. Nas reuniões da editoria do Segundo Caderno, frequentemente colocava sobre a mesa os pés com sandálias, causando indisfarçável incômodo em algumas pessoas ciosas das boas maneiras… Mostrava nítida indiferença pelo que poderiam pensar dele. Às vezes, chegava para a reunião às 14h com bafo de álcool. Vinha falar comigo quase sempre sobre música, trazendo sugestões. Não deu outra: foi demitido. Mesmo de forma irregular, mantivemos o contato. Uma das coisas que me surpreendiam era seu interesse pelo islamismo. Logo ele! Mas não era um materialista dialético?

Em 1996, deixei Zero Hora, passando a colaborar com o jornal ABC Domingo, nova experiência editorial do Grupo Sinos, de Novo Hamburgo. Eu faria uma coluna semanal sobre música, entrevistas e matérias especiais. Como o chamado fundamentalismo islâmico seguia com grande interesse geopolítico internacional e, portanto, da mídia, tive a ideia de pedir a Jefferson uma matéria esclarecendo tim-tim-por-tim-tim os meandros da questão. Dei a ele o tamanho do texto, que seria pago e ocuparia uma página de jornal standard, equivalente a duas páginas de tabloide. Seu texto veio com mais que o dobro da dimensão solicitada. Com cortes aqui e ali, o ABC abriu duas páginas dissecando o fundamentalismo islâmico. Nenhum outro jornal brasileiro deve ter feito isso.

No início de 2000, Jefferson me ligou dizendo que estava internado no Hospital Parque Belém e que ficaria feliz com uma visita minha. Fui vê-lo, estava mais magro do que nunca naquela cama. Na mesa de cabeceira, um exemplar do Corão. Brinquei: “Sei que te tornaste um estudioso da cultura muçulmana, mas nunca imaginei que te tornarias religioso”. “Tempos atrás nem eu poderia imaginar”, me disse. “Mas é o que estás vendo: me converti ao Islã, o Corão me acompanha.” 

Fui ver Jefferson mais duas vezes. Na última, já pouco falava. Mas o Corão continuava ao seu lado.     


Juarez Fonseca é jornalista formado pela UFRGS, 50 anos de carreira, quase todos dedicados à área cultural, principalmente à música. Colunista de Zero Hora desde 1972, com intervalo entre 1996 e 2012. Produtor de vários discos de música regional gaúcha (Renato Borghetti, Victor Hugo, Leopoldo Rassier, Luiz Carlos Borges, Barbosa Lessa). Autor dos livros “Gildo de Freitas – O Rei dos Trovadores”, “Ora Bolas – O humor de Mário Quintana” e “Neugebauer – Uma história”.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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