Julie Dorrico: Eu sou macuxi

No quintal da minha infância tinha pé de lima, cana-de-açúcar, pés de coco e duas mangueiras frondosas que pareciam ser as guardiãs de nossa casa. Isso foi em Abunã, distrito de Porto Velho (Rondônia). Quando me lembro do sítio da minha bisavó, que se situa em Bonfim (Roraima), na fronteira com Lethem (Guiana), para onde fui levada aos nove anos de idade, lembro nitidamente sentir falta das árvores e das frutas, que foram substituídas pelo campo aberto, dando lugar à minha velha bisavó e seu roçado de mandioca. 

Depois de passar poucos dias vivendo com minha bisa fui morar com uma tia na capital de Roraima, Boa Vista. Em seguida, com mais ou menos onze anos, se a minha memória não me trai, voltei para Rondônia com minha mãe. Minha mãe sempre viveu no interior. Diante das constantes ausências dos professores e comuns atrasos no ano letivo, minha mãe achou uma boa ideia que eu fosse estudar na capital, Porto Velho. Basicamente foi lá que passei minha adolescência e minha juventude. Conclui assim, o ensino médio e ingressei no ensino superior no curso de Letras Português na Universidade Federal de Rondônia, mesmo lugar onde fiz o mestrado em Estudos Literários. 

Ao terminar a graduação, e ao mesmo tempo iniciando o curso de mestrado na mesma instituição, eu me casei. No segundo ano de meu mestrado, meu esposo ganhou uma bolsa de estudos de curso de curta duração em Montevidéu e fomos juntos morar lá por quatro meses. De modo que, quando me mudei três anos depois para Porto Alegre, para cursar os quatro anos de doutoramento na Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul (PUCRS), já estava, parcialmente, habituada ao frio e às novas configurações da cidade, já que para mim era bem parecida da vizinha Montevidéu.

Apresento brevemente esses diferentes deslocamentos para dizer que em todos estes espaços e convivências não me vi indígena, menos ainda macuxi, e o que é mais lamentável, não enxerguei ou ouvi os indígenas. Não obstante as contínuas associações à minha aparência, cada vez que me diziam que eu era “índia”, cada vez mais eu me silenciava e procurava me afastar da comparação. Não é possível voltar no tempo, mas caso eu pudesse gostaria de ter me tornado macuxi e indígena desde que me vi gente. 

Continuando meu deslocamento. Porto Alegre, assim, não era novidade para mim. Ou pelo menos eu achava que não. O meu tema de pesquisa do doutorado é literatura indígena brasileira, ou seja, uma literatura feita (assinada com nome próprio) por sujeitos, homens e mulheres, indígenas em nosso país. É comum entre os estudantes de mestrado e doutorado falarem de seus projetos, seus anseios, suas expectativas nas salas de aula e nos corredores. No meu caso, toda vez que eu falava que estudava literatura indígena me interpelavam: “– Mas você é “índia” né?” Se uso as aspas é para chamar atenção ao fato de que o termo é bastante redutor e não traduz a pluralidade de povos existentes no Brasil, sendo sugerido pelo ativistas, artistas e escritores étnicos “indígena”, que significa “originário; que estava aqui antes da invasão do colonizador; nativo”. 

A pergunta feita repetidamente ecoou em mim, a essa altura eu já tinha 27 anos e nunca tinha parado seriamente para refletir sobre identidade. Junto à pergunta, surgiu o conflito da pele, que embora latente na minha região, nunca foi para mim uma questão central, já que majoritariamente a população se declara parda e… fecham-se as cortinas! Mas em Porto Alegre, a cor da pele tornou-se pungente. Eu visivelmente era diferente das brancas e dos brancos com que eu passara a conviver com mais frequência. 

Eu não tinha lugar; também nunca tinha me perguntado por ele. Mas as pessoas de Porto Alegre procuravam sempre me classificar: “– O teu sotaque não é daqui, de onde você é? Você é mais morena, você é de outro lugar, né?” Todas essas perguntas, que pareciam me pressionar a uma resposta satisfatória, culminou na ação mais poderosa da minha vida: a minha autoafirmação indígena. A partir das dúvidas e dos conflitos naturalmente desenvolvidos do ser ou não indígena, passei a achar insuficiente a declaração parda. Ora, eu tinha uma vaga lembrança de ouvir minha mãe e suas irmãs falando rapidamente uma outra língua, uma bem rápida. O nome macuxi também não me era indiferente. Ser ou não ser me tirou o sono, porque eu tinha urgência de pertencer à identidade que eu passara a suspeitar que era minha, e também fazer parte dessa outra parte da história que passou por mim velada na infância e juventude. 

Certo dia mandei uma mensagem para minha mãe perguntando se tínhamos indígenas na família. Sem suspense, ela respondeu diretamente: sim, tua bisa é macuxi. A frase simples e crua revirou meu mundo. O reconhecimento, e talvez a consciência do que significava saber que minha bisavó pertencia a um povo indígena, veio como um rio represado que rompe as barreiras de concreto. A minha barreira foi uma vida toda de silêncio, invisibilidade e negação. Naquele momento ler “tua bisa é macuxi” foi mais que suficiente para eu me encontrar na encruzilhada do meu passado e do meu presente, nas memórias que eu passaria a decifrar, no presente que eu teria de enfrentar e nas pessoas, sobretudo elas, a quem eu teria de explicar o que significa ser uma indígena em contexto urbano. 

Eu não vou dizer que não estava preparada. Como disse eu já estudava autores e autoras indígenas. Meu olhar sobre o mundo indígena era completamente diferente do moldado na adolescência pela leitura dos românticos, ou dos estudados em sala de aula. Àquela altura eu já amava as palavras bilíngues, já sonhava com as rodas de conversa, passara a admirar o modo de vida umbilicalmente regido pela Mãe-Terra, tinha já como referência os intelectuais, artistas e escritores indígenas. Posso dizer que a arte, essa feita pelos parentes, já tinha me mudado sensivelmente e me inclinado à assunção desses novos discursos proferidos pelos sobreviventes desde 1500. 

Mas para não ficar no passado, o mundo indígena contemporâneo é realmente encantador. Nas redes sociais pululam indígenas já autodeclarados, ou em processo de autoafirmação como eu, são eles: artistas (Jaider Esbell – macuxi, Denilson Baniwa, Yacunã Tuxá, Gustavo Caboco para citar alguns); músicos (Djuena Tikuna); jornalistas (Anapuáka Tupinambá, Renata Tupinambá); blogueiros (@loladepoisdostrinta e todos os que cito aqui pois são bastante ativistas em prol da causa indígena); intelectuais (Ailton Krenak, Sônia Guajajara); escritores (Eliane Potiguara, Daniel Munduruku, Auritha Tabajara, Márcia Kambeba, Aline Pachamama, etc.) – todos ao mesmo tempo evocando com suas expressões estéticas uma forma mais respeitosa e menos estereotipada de ver os povos indígenas. 

Assim conheci algumas parentas que também viveram o processo de se reconhecer apenas mais tarde indígenas. Carina Oliveira (@cari.oliv) gentilmente compartilhou esse relato comigo: 

“Por muitos anos da minha vida não me reconhecia indígena. Reproduzia em minha falas estereótipos apre(e)ndidos dos meus livros de história e literatura. Mesmo em contato constante na infância com “índios” eu não conseguia me descolar de massacres colonizadores. Somente na universidade (UFRJ), ao me apropriar lentamente de questões críticas, políticas e sociais, me vi observando outros horizontes. O feminismo me permitiu a aproximação com lideranças indígenas, aproximação esta que resulta numa formação enquanto mulher indígena. Como já diz Eliane Potiguara, me perguntei: “O que faço com a minha cara de índia?” Me livrei de estereótipos, me vi e me tornei indígena, a literatura indígena me (re)apresentou a minha ancestralidade. Hoje, enquanto pedagoga e pesquisadora de literatura indígena, luto também para que crianças sejam apresentadas às outras faces da literatura. Faces estas que não nos diminuam, nem nos coloquem como objetos. Somos narradores de nossas histórias, por isso, defendo a literatura indígena”. 


Do mesmo modo, Geni Núnez (@genipapos) compartilhou comigo o seguinte relato: 

“Por muito tempo achei que não poderia me dizer indígena por ser mestiça. Então passei a vida me dizendo descendente, parda, mestiça, morena. Foi o movimento indígena e o fortalecimento que recebi/recebo dos parentes e lideranças que me permitiram poder me autodeclarar. Eu tive gagueira por toda minha infância e adolescência, e acredito que foi meu pertencimento que me curou. Hoje eu falo com fluência e sinto que, no meu caso, a gagueira vinha de uma limitação racial, social, psicológica de não poder me dizer o que sou: indígena, sapatão. Tenho muito orgulho de hoje poder honrar meus ancestrais. Não conheço ninguém da minha família materna, só minha mãe.  Mas embora destruída pelo genocídio, minha família se refez por eu ter tantos parentes, humanos e não humanos comigo”.  


Andrielle Mendes (@dielymendes), que também vive esse processo de autoafirmação, diz do seguinte modo: 

“Entendo que não sou filha de indígenas, apenas filha de uma indiodescendente, mas compreendo também que, das raízes que me constituem, eu escolho, a partir de agora, visibilizar a mais apagada – paradoxalmente a mais visível, fenotipicamente falando. Não acho justo que após décadas de desconhecimento, as pessoas me desencorajem a conhecer os meus ancestrais para reivindicar a minha história. Saber que minha ancestralidade indígena era forte – não que era a única! – me fortaleceu nos momentos de maior fragilidade. Então, para todos aqueles que me perguntaram: reivindicar-se indígena é importante? Eu respondo que sim. Sou uma indiodescedente em situação urbana apartada, pela História, das histórias dos meus. Continuo buscando o apoio do povo do qual descendo e prossigo buscando fortalecê-los. Ao reivindicar a minha identidade indígena, eu busco abrir espaço para aqueles que ainda não acessaram os espaços que ocupo. Não quero falar (só) sobre (a violência por trás da) mestiçagem, no sentido construído a partir dos textos de Gloria Anzaldua. Eu quero falar sobre genocídio indígena, ecocídio e apagamento da mulher indígena na produção de cultura e conhecimento. Eu quero começar a falar, pois por muito tempo ignorei que pudesse ou precisasse falar sobre esses temas. Percebi, muito recentemente, que não só posso, como devo”.

Todas essas meninas, que amorosamente identifico como minhas parentas, compartilharam seus processos comigo. Mas seria preciso conhecer mais, ouvi-las, a elas, a mim e a todas (e todos) que de alguma forma foram convocadas a retornarem para casa, a valorizarem suas ancestralidades indígenas, a ressuscitarem em suas árvores genealógicas as vós indígenas sepultadas, seja pela arte ou pela atuação política dos parentes que já trilham esse caminho da resistência há décadas. 

No meu instagram (@dorricojulie) procuro difundir a literatura indígena e me aproximar desses parentes ativistas e atuantes nas redes sociais. Tem sido frequente alguns parentes virem até mim e se sentirem confortáveis para partilhar sua identificação indígena ou a busca dela. Agradeço a confiança em mim e desejo que essa rede seja um espaço de acolhimento àqueles que estão se encontrando e encontrando novamente seu povo, apesar da história, apesar de tudo.  No ano de 2019 decidi escrever a minha história, esse meu processo de autoafirmação. Durante o processo de escrita, me emocionei por diversas vezes, tendo que parar de escrever e seguidamente não conseguindo ler porque a voz embargava constantemente. A minha história, como de minhas parentas, não é romântica: ela significa deslocamento, perda da identidade, desvinculação, apagamento, negação da diferença, esquecimento forçado, enquadramento em cadeias de associações negativas (selvagem, feio, analfabeto, pobre). Eu sou macuxi e outras histórias, meu livro, foi a ferramenta que achei para contar minha história e dizer ao mundo, apesar de aparentemente absurdo, que eu tenho orgulho de ser macuxi.


Julie Dorrico é doutoranda em Literatura pela PUC de Porto Alegre. Publicou recentemente o livro Eu sou macuxi e outras histórias (editora Caos & Letras, de Belo Horizonte), vencedor do Prêmio FNLIJ Tamoios 2019.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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