Júnior Maicá: O Bairrista completa 10 anos

Júnior Maicá ao lado de Eduardo Santos (Foto: Leandro Lopes)

O criador do Bairrista conta como saiu das Ciências Contábeis e se lançou no empreendimento de um veículo de comunicação que faz do jeito gaúcho uma saída inteligente para o bom humor

Existe humor gaúcho? 

Humoristas, em sentido amplo, temos sim. Desde que me conheço por gente, tem no cartum, para lembrar logo o mais forte, o Sofrenildo, do Sampaulo, um humor meio triste, de um loser, um azarado total. Tinha um quadro de rádio, que terminou quando eu era ainda menino ou recém-adolescente, uma dupla formada por um colorado, Pinguinho, e um gremista, Walter Broda. Humor e futebol, claro. 

Tem o fenômeno do Tangos & Tragédias, que merece todo um capítulo numa hipotética história do humor no sul: paródia, autodepreciação, piscada de olho chapliniana que faz o perdedor ter um certo gozo sobre o vencedor mediante solidariedade da plateia, tudo isso está na fórmula que o Hique Gomez e o finado Nico Nicolaiewski inventaram. 

Tem o humor do Frank Jorge e da Graforréia Xilarmônica, o humor involuntário da nossa sempre reiterada bravata (gaúcho, melhor em tudo), tem o Magro do Bonfa, tem as personagens da Ilana Kaplan e de outros atuais standuppers. 

Mas aqui não se trata de uma história, e sim de um simples preâmbulo para apresentar a entrevista desta edição. Com vocês, gaúchos e gaúchas de todas as querências, Júnior Maicá, O Bairrista. 

Dez anos atrás, quando apareceu no cenário, era uma coisa inesperada. Misturava sacações (se dizia antigamente “bispadas”) sobre nosso eterno complexo de superioridade, sempre alternando com seu irmão gêmeo, o de inferioridade, mas com um bom humor que fazia rir realmente com descompressão, no espelho. E isso em redes sociais, mas também em jornais impressos e a seguir em livros, depois em variadas plataformas e maneiras, como uma temporada de trabalho dentro da poderosa RBS.

Exagerando nosso bairrismo, O Bairrista foi tomando conta do cenário. E virou uma produtora de conteúdo que não para de se reinventar – para alegria de todos. Dois batalhadores que querem mudar para melhor o ambiente de negócios e de pensamento. Ouçam aí José Antônio Pinto Maicá Júnior, o Júnior, que fala também do Eduardo Santos, que é, previsivelmente, o Edu, o parceiro de todas. 

(Depoimento pessoal: são duas figuras da mais alta qualidade humana. Se eles aparecerem por perto, aproveitem. Luís Augusto Fischer)

Parêntese – Esclarecendo uma das mais persistentes dúvidas do Rio Grande amado: tu é mesmo parente do Cenair Maicá? Falando sério: conta tua trajetória antes de começar essa jornada tão interessante do Bairrista – família, escola, formação, ideias, frustrações e realizações da juventude. Com algumas datas, por favor.

Junior Maicá – Infelizmente não, quer dizer algum parentesco a gente tem e não é tão distante, mas não que eu possa chamá-lo de tio. Eu larguei a faculdade de Contábeis ali pelo sétimo semestre para me dedicar ao Bairrista. A culpa é da minha mãe. Mesmo não sendo uma grande leitora ela sempre me deu bastante coisa para ler. Quando eu pedia a assinatura da revista Placar, lá pelos meus nove anos de idade, ela enfiava uma da Superinteressante. Também trazia livros da biblioteca que havia no emprego dela. Mas como a situação financeira da minha família não permitia escolhas, o que fiz foi fazer faculdade na área que eu já estava trabalhando. Fiz o Enem e com a nota da redação consegui uma bolsa para Ciências Contábeis. Mas graças às redes sociais eu pude fazer o que realmente gostava: escrever humor e me comunicar de alguma maneira.

P – Como nasceu a ideia do Bairrista, como voz, como ponto de vista, como jeito de ser e viver? E como foi viabilizar isso, quer dizer, como foi fazer esse Bairrista ter voz pública? Tu tinha experiência boa de redes, de internet? Estudaste algo desse mundo ou a coisa foi mais intuitiva?

JM – O Bairrista nasce da soma de vontade de escrever mais oportunidade numa mídia nova. A piada já era antiga sobre o nosso exagero no apego ao que é daqui. O que faltava era um veículo que atestasse a nossa superioridade perante este punhado de terra ao redor do Alegrete chamado mundo. 

Viabilizar foi pelas redes sociais mesmo. Eu me apaixonei por este novo meio de comunicação chamado Twitter, que na minha opinião é ágil como o rádio. Apesar das limitações de espaço, o Twitter obriga quem escreve a ter a sagacidade e a criatividade de um chargista. Esse casamento de humor e informação me pegou de jeito.

Minha experiência com internet era quase zero. Fui ter meu primeiro computador com uns 24 anos de idade, quando consegui pagar por um. Eu só não sabia o que fazer depois disso, ninguém tinha me dito que precisava assinar um plano de internet. Mas com as redes sociais como Orkut, Blogger, eu sempre soube que um dia poderia fazer algo. Usei muito essas redes para me informar, já que socializar não é algo que eu faça pela internet. Foi esse monte de coisa pairando pela minha cabeça que se juntou pra gerar o Bairrista. Acho que isso de alguma forma pode ser chamado de intuição.

P – O Edu era teu parceiro já no começo? Ou veio depois? Como funciona a parceria de vocês? Algum de vocês têm vivência campeira, pessoal ou familiar? 

JM – Nos conhecemos pela internet. O Edu tem o mesmo perfil de quando o conheci, com aquele humor ácido e crítico. Nos chamavam para fazer algumas ações juntos e a gente sempre tentava criar algo. Fomos desenvolvendo nossa amizade, falando mal de algumas pessoas que mereciam, compartilhando histórias da nossa adolescência. Nós temos um passado parecido, de criação sem pai presente, de muita dificuldade financeira. Nos identificamos nestas encruzilhadas da vida e resolvemos trabalhar juntos. 

P – Depois de publicares nas redes e no primeiro livro, o que aconteceu primeiro? Tu ou vocês planejou/aram os passos seguintes? Quais foram eles? 

JM – As ideias foram surgindo. Tem planejamento, mas tem também aguardar que algumas portas se abram, principalmente as que não se abriam nunca. Depois que tua atividade atinge certo tamanho, algumas coisas ficam mais fáceis. O que fizemos foi tentar criar sempre, não parar nunca de tentar inovar. Nem sempre acertamos, mas o que fica são os acertos. A ideia sempre foi alcançar mais gente, fomentar, falar com todo o estado, não ser um veículo só da capital usufruindo do máximo de tecnologia disponível.

P – Como foi a experiência com a RBS? O começo foi ocupar o horário morto da Hora do Brasil via internet? E como evoluiu?

JM – Foi uma experiência importante principalmente na questão comercial. A RBS tem muita força no mercado e nos possibilitou realizar muitos projetos que de forma independente não saíam do papel. Também foi importante para nossa formação como comunicadores e criadores. 

P – E a Embaixada do Bairrista? Como rolou? E agora, na pandemia, como vocês se movimentaram? [A piada de haver uma embaixada se perdeu no tempo, mas é boa: o Rio Grande do Sul da imaginação deles, a República do Bairrista, tem uma embaixada em Porto Alegre, essa terra estranha. Rua Marquês do Pombal, 1111, bairro Auxiliadora.]

JM – A Embaixada surge após o nosso rompimento com a RBS. Estávamos procurando um local que fosse versátil, e esta casa, pelo fato de ser de 1922, ela nos dá muitas oportunidades. Aqui fizemos estúdios, shows, eventos e uma redação. 

P – Numa conversa, tu me disse que quem é de Cachoeirinha faz intercâmbio quando faz cursinho pré-vestibular em Porto Alegre, mas que tu conseguiu encontrar condições de uma temporada nos EUA. Como foi isso? Onde, quanto tempo? Tu tinha prioridades claras? Era para experimentar alguma coisa nova?

JM – Foi numa época muito boa nos negócios e do país, com o dólar valendo dois pila no fim de 2014. Os Estados Unidos servem como fonte para todas as inovações e tendências da comunicação. E eu sempre quis essa vivência, era sonho de moleque mesmo, fã do Dylan, dos filmes, que sempre quis conhecer o Village. Infelizmente eu gosto de muita coisa de lá: da música, das ideias, da moda, dos esportes e do capitalismo. Fiquei três meses em Nova Iorque absorvendo o máximo possível, aprendendo e comendo fast food. Foi uma oportunidade única e importante. 

P – E o Grêmio, em tudo isso?

JM – Na minha vida, uma das coisas mais importantes. Como pauta, o futebol sempre rende bastante. E foi sempre muito difícil fazer piada com o Grêmio, principalmente durante o longo jejum sem títulos.

P – E o Inter, em tudo isso?

JM – Também muito importante, grande fonte de notícias e projetos. Como apaixonado por futebol, muito respeito ao rival e sua história. E de uma maneira geral, todos os clubes do Rio Grande do Sul. Nós temos uma preocupação muito grande em não ser um veículo só da capital e ter legitimidade para fazer uma cobertura em Caxias, Pelotas ou Bagé, por isso estendemos nosso olhar para todos os times da república.

P – A tua leitura do Rio Grande do Sul é muito original e aguda, certamente por causa da experiência multifacetada do Bairrista. Em traços gerais, o que tu pensa da mentalidade, ou das mentalidades que existem no estado? É fácil lidar com elas? Tem conserto isso? 

JM – Eu desenvolvi uma tese do gaúcho em camadas. Ele é bairrista em relação ao resto do Brasil, à cidade vizinha, ao colégio rival, ao bairro, ao clube e qualquer outra coisa que seja oposta ao que ele tem, e isso se estende para o dia a dia. Essa desconfiança passa para o campo dos negócios, para as ideias antagônicas, para o contraponto, etc. O resultado de tanta rivalidade é o que vemos: muita ideia boa que nunca vai sair do papel. Falta de investimento e inovação. Conserto até tem, mas por enquanto é cada um por sim. Enquanto não houver fomento e diversidade, nada vai mudar.

P – Aquela pergunta saideira, quando a festa não vai mais render nada e o cara tá meio perdido: qual a saída? Quais os planos divulgáveis agora para o futuro desse país amigo que tu vocaliza?

JM – Estamos nos virando fora do Bairrista há um bom tempo. Diversificar e colocar nossas experiências e equipamentos à disposição do mercado. Criamos o pay per view para a Federação Gaúcha de Futebol e geramos as imagens dos jogos de todas as categorias e torneios, exceto a primeira divisão, que tem os direitos vendidos para a RBS. Estamos fazendo lives durante a pandemia e vendendo este serviço. Fizemos um investimento significativo no final de 2019 em equipamentos, mas a pandemia nos pegou. No primeiro mês tivemos cinco mil assinantes no pay per view. Um público que não conseguia ver os jogos dos times do interior. Enfim, estamos atacando no máximo de frentes possíveis porque a comunicação aqui no RS está muito centralizada nos veículos da RBS, Band e Record, e a dificuldade de vender nossos projetos de igual ou mais valia que os de muitos outros veículos é imensa, infelizmente.

Ex-governador Tarso Genro (à dir.) exibe O Bairrista a Pepe Mujica, ex-presidente Uruguaio, que estampa a capa da publicação (Foto: acervo pessoal)

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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