Luciano Mello: Diário do vírus 2

Braga, 19 de março de 2020

Hoje foi tédio, estamos confinados. Ainda que por opção, por entendermos que é necessário, pela compreensão de que é possível que tenhamos o vírus sem saber, mesmo sem sintomas, seja como for, não queremos nem pegar, nem passar, estamos confinados. Já não há aplausos às 22:00 como havia combinado a Europa, nem a vizinha fascista aparece mais para gritar que Portugal deve se livrar dos estrangeiros, alguém deu um chega pra lá na empáfia da senhora. que se retirou de cena, inclusive levou consigo a bandeira do país que ostentava na varanda. Perdemos a nossa Janaína.

Tudo está calmo, mas é mentira. O avesso toma conta e eu não entendo nada. Descobri hoje, ao ligar para um hospital privado, numa busca insana que já dura 10 dias por um medicamento controlado, que a tal rede particular de hospitais testa seus clientes antes de entrarem no prédio, e caso apresentem tosse, coriza, febre, espirros, dores musculares e sei eu lá mais o quê, são barrados. Pacientes barrados de entrar no hospital por estarem doentes. Recomendam-nos que, em vez de pagar os habituais 15 euros por um especialista, façamos uma consulta por videochamada, menos contagiosa, um pouco menos eficiente e quase 6 vezes mais cara: 70 euros. Também fecharam os plantões de emergência 24 horas. Pergunto-me o que foi que eu perdi em algum momento da existência; está difícil acompanhar a lógica dessa ordem mundial. Os bancos e os supermercados seguem recebendo clientes, o hospital particular não. A rede pública atende por e-mail e telefone e prudentemente pede que só se vá ao hospital, ou aos centros de saúde pública, em caso extremo. Solicitei pela segunda vez, via e-mail, um atendimento de urgência por telefone. Ainda não tive resposta. 

Os dias têm sido ensolarados, mas tudo está fechado. O café em frente disfarça que que não abriu, mas aos poucos jovens e velhos sentam à mesma mesa, e uma mão entrega xícaras de café, e lá se vão o resguardo e o confinamento tão necessários pra que toda a coisa entre um pouco mais rápido nos eixos. A China anunciou vacina, grita um senhor em tom profético, mas a informação comemorada não diz que talvez a vacina só chegue em abril. Abril de 2021. Todos adoram uma previsão e não é à toa que circula uma predição falsa do Nostradamus. Uma fakenews, texto falso, ilustração falsa, interpretação igualmente falsa. Não há previsão pra nada, e os bancos privados, ao contrário dos hospitais privados, seguem abertos, diminuem créditos e arrastam com todas as suas forças as negociações para o futuro. Tudo cheira a passado, não há presente, então espera-se pelo futuro.

Há oportunismo, mas há solidariedade. Hoje vi jovens se oferecendo gratuitamente para irem às compras para os mais velhos, para os doentes e para os vulneráveis. Avisem a todos que estamos disponíveis, pediam eles nas redes sociais, passem nossos números. Alguns proprietários de apartamentos alugados ofereceram desconto, outros ofereceram abatimento no adiantamento que se paga ao alugar um imóvel. A vizinhança sugeriu que ninguém vá aos grandes supermercados, vamos todos comprar na pequena fruteira da Dona Céu. Também decidimos seguir pagando a academia de ginástica, para que não tenham que demitir nenhum funcionário enquanto não puderem reabrir as portas. O hospital segue fechado para os doentes. Também, onde já se viu doente querer frequentar hospital. Ora essa!

Luciano Mello é compositor de canções, tendo duas composições (em parceria com Pedro Loureiro) gravadas por Elza Soares: “Dentro de Cada Um – Deus é Mulher” (2018) e “Lírio Rosa – Planeta Fome” (2019). Seu mais recente álbum, Homem de Mal, conta com participações da Banda Cê, Marina Lima e Arthur de Faria. É formado em Psicologia, Especialista em Literatura Comparada (UFPEL) e Mestre em Literatura Brasileira (UFRGS), com estudo sobre canção. Atualmente vive em Braga, Portugal.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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