Luís Augusto Fischer: Paciência para manter a sanidade

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Muito difícil descrever o livro novo da Eliane Brum, este Brasil, construtor de ruínas – um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago Editorial, 2019). É uma reportagem? Sim. Mas é um ensaio de interpretação. Tem informação como manda o figurino, com apuração e comprovação, logo é coisa de bom jornalista; mas o ângulo a partir do qual as informações são buscadas e alcançadas é mais característico do ensaio sociológico. Tudo isso, mais uma decidida coragem de mostrar que ali há uma primeira pessoa interessada, empenhada, configura um livro singular.

Seu objeto está no título e no subtítulo, logo é algo claro. Ao mesmo tempo, trata-se de um objeto imenso, nada menos que este tormento chamado Brasil. Por um terceiro lado, essa vastidão é fatiada num tempo, de Lula a Bolsonaro, portanto é algum recortado com clareza; mas, cá entre nós, adianta esse recorte, quando se sabe que entre os dois presidentes todo um mundo se desdobra, para muitos lados.

O livro se deixa ler com relativa facilidade, na superfície das palavras, que ali se apresentam encadeadas com clareza, frase a frase. Já no plano geral, chama a atenção que, para as 300 páginas do livro, não haja um sumário, uma divisão em capítulos. O texto é um rio caudaloso, como o Xingu a cuja beira vive agora a Eliane Brum, e vem pontuado por títulos internos discretos, que nem chegam a ser distanciados por uma página em branco, que costuma ser um respiro para o leitor. Nada disso: a autora não desiste de alinhar fatos e fatos, com foco em temas que costumam estar no centro de preocupação da autora – Amazônia, indígenas e povos tradicionais, ecologia, mas também a condição feminina, a vida dos afrodescendentes, etc. Por cima de tudo, ou por baixo, uma indagação muda – o que vai ser deste país? 

Para quem quiser repassar a vida recente do país, é a leitura ideal. Ali se descreve o terremoto atual, com epicentro em 2013, ano das famosas e esquisitas manifestações de rua, multitudinárias e sem foco. Ali se volta a Euclides da Cunha e se vai a Eduardo Cunha. Ali se relata com clareza atordoante o horror da usina de Belo Monte, um crime ecológico imperdoável, cometido sob protagonismo da esquerda, nos governos Lula e Dilma.

No livro vemos, em angustiante slow motion, muita coisa. O declínio da era dos marqueteiros eleitorais, ao lado do massacre absurdo, protagonizado por gente que se imagina de esquerda, da reputação de uma liderança que o Brasil levou cinco séculos para ver nascer, Marina Silva, que tanta falta faz agora e que talvez nunca mais se recupere. Também se lê, em linhas e entrelinhas, a distância entre o atual presidente e mínimo razoável em matéria de conduzir o país para fora do buraco. 

O livro é paciencioso, eis a palavra que eu estava buscando: ele vai levando, sem perder nem a precisão do detalhe, nem o horizonte largo, até que consiga emboscar seu objeto, para dá-lo a ver. O livro dá a clara sensação de ter sido escrito como forma de manter a sanidade, de evitar a loucura – a da Eliane, a nossa, a do país. Um livro nada menos que histórico, que ao fundo está o tempo todo desejando que a gente encontre a saída.


Luís Augusto Fischer é professor de Literatura na UFRGS, autor de, entre outros, “Dicionário de porto-alegrês” e “Literatura brasileira: modos de usar”, ambos pela L&PM . É curador da revista Parêntese.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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