Moisés Mendes: Um baita cara

Acompanhei um tempo fértil do Jefferson em Ijuí. Fui repórter dele no jornal Correio Serrano, na segunda metade dos anos 70, depois fiz algumas ilustrações para as primeiras edições do Semanário de Informação Política (um jornal nanico interiorano, o que era raro), que ele criou com o Adelmo Genro Filho e o Ben-Hur Mafra, e vi o Jefferson ser ensaísta, com o livro Função dos Intelectuais numa Sociedade de Classes, ser romancista, com O Oficial da Noite, e vi depois ser sonetista, com No Tempo das Diligências

Éramos vizinhos, morávamos num mesmo terreno com três casas. Ele e a também jornalista e professora Rosa Maria Bueno Fischer não tinham TV, por opção daqueles tempos, e aos sábados à noite viam filmes na TV em P&B lá em casa. Era um cara com a cabeça sempre em operação, como uma engrenagem que processasse o que passasse por perto. Um tipo que não existe mais, com mil chips, cultura funda, informações sobre política, cotidiano. E com bons parceiros e amigos na volta. 

Naquele ambiente de antes da anistia de 79 Ijuí era uma cidade interessante, ultraconservadora, mas sempre latejando, com uma fundação (a Fidene, depois Unijuí) que levava gente de todo lado para debates e eventos de literatura. Integralistas e comunistas conviviam numa boa. Vi o Jefferson virar estudante (de História?) com quase 50 anos, pude vê-lo enchendo o saco da mediocridade da cidade, debatendo filmes depois das sessões do Cine América (ele sabia tudo de cinema), bebemos muita cerveja juntos no quiosque da praça, e vi depois, já em Porto Alegre, o Jefferson virar muçulmano e parar de fumar. 

Eu não tinha idade nem pique para acompanhá-lo, mas troteava ao seu lado e ao lado da Rosa, que lecionava na Fidene. Quando eles foram embora de Ijuí, no final dos anos 80, me deixaram de presente uma coleção de Veja, o que hoje pode parecer meio maluco (ele tinha trabalhado na Veja do Mino Carta). Olhando em volta agora não se vê ninguém parecido com Jefferson Barros, o que não significa saudosismo, nem o sentimento de que as coisas se rebaixaram um pouco no jornalismo, mas porque ele era mesmo diferente. 

Eu gostava muito do Jefferson e acho que ele gostava de mim, o que me faz bem. Pena que, por omissões, encagaçamentos e covardias mesmo, eu não tenha ido me despedir dele no hospital, porque achei que ele viveria mais um pouco. O Jefferson foi um baita cara.


Moisés Mendes é jornalista, trabalhou em Ijuí de 1976 a 1986. Foi repórter do Correio Serrano – onde Jefferson Barros era editor nos anos 70 – e correspondente da Caldas Júnior. Por 27 anos, até 2016, trabalhou em Zero Hora, onde foi editor de Economia, editor especial e colunista. Escreve no blogdomoisesmendes.com.br e é colunista dos jornais Extra Classe, Brasil 247 e DCM. Publicou o livro Todos querem ser Mujica, pela Diadorim. 

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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