Enciclopédia Urgente: Movimento antivacina

Por Cícero Gomes Dias

O movimento antivacina avança e tem muitas faces. O(a) leitor(a) já ouviu algo assim: “Vacina? Meu avô morreu com 90 anos e nunca tomou uma vacina”. Sim, vacina, uma das mais revolucionárias conquistas da humanidade, vem recebendo ataques de diferentes setores. Pode ser nas conversas informais dos botequins, nas redes de relacionamento da internet e mesmo da academia. O conceito “hesitação em vacinas” é recente e envolve a relutância ou recusa em vacinar a despeito da disponibilidade de vacinas. Para que se tenha uma ideia da magnitude do problema, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a hesitação em vacinas uma das dez maiores ameaças à saúde global.

As razões para que alguém decida não vacinar uma criança são complexas e seu entendimento pleno ainda está distante; contudo a OMS identifica complacência, inconvenientes para o acesso e falta de confiança nas vacinas como decisivos. Um estudo recente, com 5000 entrevistados em 24 países (Brasil incluído), investigou as raízes psicológicas das atitudes antivacina e identificou, pela ordem, (a) teorias conspiratórias, (b) baixa tolerância a interferências em suas liberdades, (c) repulsa a sangue e agulhas e (d) visão de mundo individualista como associadas a não vacinação. Parecem atitudes típicas de que gosta de ficar nas redes sociais em busca de fake news.

Outra questão que merece cuidado: em países de alta renda, a hesitação é mais frequente entre os pais das classes mais altas e educadas, comparados ao restante da população. Um estudo realizado na Universidade Federal de Pelotas mostra que no Brasil isso também acontece. Entre as crianças de famílias mais pobres a cobertura vacinal plena aumentou no período 1982-2015. Inversamente, entre as crianças de famílias mais ricas nascidas em 1982 e 2015, a cobertura caiu de 89% para 69%. É lamentável, mas parece que temos mesmo uma tendência a copiar maus exemplos de países ricos.

O Brasil enfrenta um surto de sarampo, mais de 4000 casos foram detectados em 2019, a maioria no estado de São Paulo. As origens desse surto envolvem a crise política e social de um país vizinho (Venezuela), imigrantes e uma cobertura vacinal aquém da ideal no Brasil. Registre-se, a cobertura para a segunda dose da vacina contra sarampo, rubéola e caxumba no estado Rio de Janeiro foi, em 2019, de apenas 42,7%. Isso após um período de mais de uma década apenas com casos esporádicos, o que levou o sarampo à condição de doença erradicada no Brasil em 2016.  Vacinação é a única maneira de controlar a transmissão do sarampo. Valem ainda as mensagens: (1) vírus não respeitam fronteiras e não precisam de passaportes e (2) qualquer negligência com doenças infecciosas é uma possibilidade de retorno. A Lei de Murphy fala alto aqui.

Mantido pelo Sistema Único de Saúde, o Programa Nacional de Imunizações foi criado na década de 1970. É um raro exemplo que de uma política de estado bem-sucedida, os governos se sucedem e o Programa permanece. Ainda que com alguns percalços, vem sendo expandido e aprimorado, podendo ser considerado uma conquista dos brasileiros, internacionalmente reconhecido. Gratuitamente, num país com tanta complexidade e diversidade, vacinas são ofertadas para uma população de mais de 200 milhões de habitantes. O custo previsto para o ano de 2020 com vacinas no Brasil é de 5,3 bilhões de reais. Colocando na conta a prevenção de doenças que custariam, além de vidas, um valor muito maior em gastos com no sistema de saúde, o valor é baixo. Uma criança brasileira recebe, até entrar na adolescência, proteção contra 17 agentes de doenças importantes, incluído dois vírus causadores de câncer. Insisto, gratuitamente.

Por fim, e nosso antepassados que nunca receberam uma vacina? Descendemos de sobreviventes. Não colocamos na conta os milhões que foram dizimados ainda na infância por doenças hoje preveníveis e que não chegaram à vida adulta para ter seus filhos.


Cícero Gomes Dias é professor de Microbiologia na Universidade Federal de Ciências da Saúde. Faz pesquisas sobre resistência aos antibióticos e sobre efeitos de vacinas na população.

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Este texto faz parte da revista digital Parêntese publicada em 3 de janeiro de 2020.


Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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