Nathallia Protázio: sim!

Faz umas duas semanas eu conheci mais uma pessoa saída da usina manufatureira de mentes classe média alta. Fazia um bom tempo que não entrava em contato com uma herdeira tão fiel às origens dessa espécie. Acho que a última vez eu ainda morava na Suíça. E, não sei você, mas na minha opinião encontrar este tipo de gente num país rico é até tolerável. Você usa toda a tua cota de energia do dia pra entender que, cara, ok, vai ver aquela pessoa é só fruto do mundo que conhece e talvez ela não tenha internet, talvez ela nunca tenha saído do próprio país. Talvez ela more em alguma pradaria verde na primavera e branca de neve no inverno cercada por vaquinha felizes. Quem sabe se ela passa o ano alternando entre chocolate e fondue. A gente se esforça e tolera essa pessoa rica alienada num país que lhe permite isso. Porém, colega, no Brasil, a pessoa ser como aquela garota é… uffffs. Olha, é foda. Complica. Minha cota de tolerância da semana se esgotou em um dia e a gota d’água foi quando ela falou do Carnaval. Então, falemos do Carnaval!!!

Segundo nossa amiga herdeira, o Brasil está como está porque enquanto o mundo encontra-se em ebulição construindo o futuro, nós estamos gastando o dinheiro que não temos comprando fantasia, pochete néon e glitter. Onde já se viu, quem não tem nem o que comer pensar em pular numa festa que dura mais de um fim de semana. Que história é essa de parar um país inteiro? Depois fica tudo sujo, fedendo a urina. Sabe como é na Europa? Cada cidade tem uma data pra comemorar o feriado, assim as pessoas não param de trabalhar. Um absurdo. Tão reclamando de fome, podiam usar esse dinheiro pra comprar uma cesta básica. Depois o carnaval passa e todos volta a reclamar de tudo.

Palavras, obviamente, de quem nunca viveu do lado de cá. A gente gasta o dinheiro que não tem porque, simplesmente, o salário mínimo não garante os direitos básicos constitucionais – aqueles já mencionados em outro sábado. Pra quem tem de onde tirar grana é muito bonito colocar vídeo no Youtube e mudar o currículo do ensino médio aconselhando planejamento financeiro pros jovens. Mas tem um detalhe muito importante que não passou nem pela cabeça da Natalia Arcuri nem do nosso excelentíssimo Presidente: pra organizar alguma coisa primeiro a gente tem que ter essa coisa! Não posso organizar meus dinheiros sem tê-los. Então, talvez nossa amiga herdeira ache um absurdo, mas fevereiro é o mês de tirar a vida da planilha e jogar na avenida. Sim! Até porque nós não podemos nos dar ao luxo de esperar ter a vida que ela tem pra nos divertirmos.

Somos brasileiros sim, e se dizem que aqui o ano só começa depois do Carnaval a culpa não é minha. E se ela também não for tua e nem daquela velha tecla da desigualdade social etc., culpa é todinha do menino Jesus. Para pra pensar. Quem foi que mandou ele nascer no fim de ano? Pior, precisava ser justo na última semana antes do réveillon? Cara! Isso foi uma puta sacanagem. Esse pequeno escorregão do Concílio de Constantinopla quebrou toda a logística do calendário pagão e, com certeza, deu origem ao cheque especial e a esta mentira repetida pela nossa herdeira e toda a classe que ela representa. Como assim o ano só começa depois do Carnaval? 

Eu tenho o privilégio de ter feito faculdade e ter a oportunidade de exercer a profissão que escolhi, sou feliz por isso todos os dias. Contudo, eu e mais uma porrada de gente está trabalhando desde o dia 2 de janeiro. Mais que isso, trabalhamos feito loucos no fim do ano. Continuamos nossas escalas de 6 por 1 do mês de dezembro também durante janeiro e fevereiro, e seguiremos o ano todo. Na minha timeline do Facebook e do Instagram só estava viajando desde o fatídico feriado de natal até quase agora quem tem grana. Os espécimes que vivem do lado de lá, que tanto reclamam da tal mentira repetida que o ano só começa depois do Carnaval, são justamente aqueles que tem a vida que só vai se movimentar depois da quarta-feira de cinzas. Pra nós, do lado de cá, os anos vivem se emendando, igual uma ciranda sem fim. Daí a importância do carnaval. Uma pausa. Uma respirada. Um sopro. A herdeira passou quase dois meses na sua casa de praia se lamentando e decidindo o que fazer da vida agora em 2020 porque estava cansada da que levou em 2019. Nosso Carnaval tem só quatro dias. Então, sim!

Pularemos blocos de rua no bairro onde moramos e onde mais eles passarem. Sim! Perderemos noites de sono. Sim! Beberemos cerveja, de latinha, de latão, de litrão; vinho escaldado pelo sol; gin com tônica e resto de gelo; kit de vodca barata com energético de 2 litros; e se sobrevivermos também beberemos água. Sim! E se não temos uma estrutura mínima, porque folião não é cidadão, vamos mijar na rua. Sim! Usaremos fantasia, beijaremos na boca, fingiremos que o amanhã não existe, cantaremos músicas bregas, esqueceremos por alguns instantes que ontem passou, sambaremos na cara da sociedade, faremos nossos corpos objetos políticos! Sim! Porque existimos. E não queremos comemorar nossas existências separadas da existência de nossos irmãos, vai ser uma festa de um país inteiro porque assim nos afirmamos como uma nação. Sim!

Passamos ano após ano escondidos dentro de casa cuidando de nossas crianças, dentro das suas casas cuidando das suas crianças. Dentro dos shoppings, dentro dos restaurantes, das farmácias, dos salões de cabeleireiro, dos postos de gasolina, das sorveterias atendendo vocês. Passamos ano após ano dentro de ônibus, lotação, trem, gastando horas preciosas de vida que nunca mais voltarão. Mas, este Carnaval, mais uma vez, eu e tantos outros, vamos usar fantasia pra brincar que por alguns momentos não vivemos nossas tristezas, e seremos felizes pelo simples fato de existir. Vamos mostrar isso com a maior intensidade e barulho possível. Pois viver não é sobreviver. Nem que seja só quatro dias.


Nathallia Protazio é pernambucana, farmacêutica, e depois de ter morado em muitos lugares, incluindo São Paulo e Lausanne, Suíça, hoje vive em Porto Alegre.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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