O mundo à margem da Lagoa

Por Patrícia Lima

A margem da Lagoa dos Patos foi o cenário das três longas entrevistas que fiz com o oceanógrafo e museólogo Lauro Barcellos nos últimos 20 anos. Houve outros encontros, rio-grandinos que somos acabamos sempre nos esbarrando aqui e ali. Mas entrevistas, valendo, foram essas três. A primeira ocorreu no inverno de 2000, eu foca, recém-formada, fui ao encontro do diretor do Museu Oceanográfico da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (Furg), um Lauro no auge da carreira, barba cerrada e cabelos escuros, arranjados em uma boina preta de marinheiro. O sobretudo protegia o corpo alto e forte do vento gelado que a Lagoa mandava sobre nós. Estávamos sentados em uma pedra – ou um caixote, a memória já me engana nos detalhes – ao lado de um velho entreposto de pesca abandonado. Inaugurado pelo então presidente Getúlio Vargas, nos anos 1940, o grande prédio nas margens da Lagoa servia de abrigo para usuários de drogas, praticantes de roubos e furtos e cães abandonados. A pauta era a aprovação, anunciada naquele mesmo dia pelo BNDES, de um projeto sonhado por Lauro desde 1986: transformar aquele lugar degradado em um centro de convívio e escola para crianças em situação de vulnerabilidade na cidade. A matéria não foi manchete, mas ganhou uma boa página na edição do dia seguinte no jornal local.

O segundo encontro ocorreu oito anos depois, também no inverno, em outro ponto da mesma margem. Em um pequeno anexo ao Museu Oceanográfico, construído sobre palafitas, Lauro equipou uma espécie de sala-cozinha para receber amigos marinheiros, dar entrevistas e alimentar os bem-te-vis que fazem ninhos nas árvores ao redor do museu. Entre goles de café, o personagem aguardava ansioso pela inauguração do projeto que havia anunciado anos antes. O Centro de Convívio dos Meninos do Mar (CCMar) se tornaria, finalmente, uma realidade. Ligado à Furg, instituição na qual Lauro está inserido há 45 anos, o Centro abriria as portas algumas semanas depois daquela entrevista, publicada na Revista Náutica.

Nos primeiros dias de 2020, esta matéria para a Parêntese me leva novamente à margem da Lagoa dos Patos. Faz muito calor em Rio Grande. Somente no fim da tarde a brisa fresca que vem das águas é capaz de aliviar o abafamento. O encontro com o agora doutor honoris causa Lauro Barcellos ocorre no interior daquele velho entreposto de pesca abandonado – que de velho ou abandonado não tem mais nada. Já são 11 anos completos de funcionamento do projeto com que Lauro sonhou durante boa parte da vida adulta. O CCMar já atendeu perto de 11 mil jovens de 14 a 17 anos, oferecendo-lhes 15 cursos pré-profissionalizantes como Auxiliar em Operações Portuárias e Retroportuárias, Costuraria e Crochê, Construção Naval, Movelaria, Panificação e Confeitaria e Práticas de Agricultura e Meio Ambiente, entre outros. Importante: desde a primeira turma, renda familiar baixa e frequência na escola regular são indispensáveis para o ingresso.

Aguardo a chegada de Lauro em uma sala de estar que, para quem o conhece, fica óbvio que foi inteiramente decorada por ele: miniaturas de barcos, bustos de heróis marinheiros, ilustrações da vida marinha e informações sobre o ambiente costeiro de Rio Grande.

Quem me recebe com sorrisos é um sujeito calvo, de cabelos brancos e barba bem cerrada, exibindo vitalidade aos 63 anos. “Viesse aqui pra gente falar do CCMar, né?”. Sem que eu tenha tempo de fazer as primeiras perguntas, sai falando entusiasmado sobre a escola, os cursos, os jovens que passam por lá, as parcerias com empresas que possibilitam novas ações, como o curso de Agricultura e Meio Ambiente, em que os alunos debatem noções de conservação e sustentabilidade e ainda aprendem sobre o cultivo de alimentos orgânicos. Uma grande horta nos fundos da escola, desenvolvida no curso, já fornece vegetais livres de agroquímicos aos hospitais da cidade e também garante produtos saudáveis na cozinha do próprio CCMar. Tudo patrocinado pelas empresas Yara, Sagres e Embrasmaq. 

No meio da conversa, Lauro chama quatro ex-alunos e agora integrantes da equipe. “Vou te apresentar essa gurizada, tu vai ver, eles são brilhantes. Eles é que podem te falar sobre tudo isso aqui”. Levanta do sofá apressado. Em poucos minutos retorna com quatro jovens sorridentes, que vestem uniformes da instituição e, mal sentam, já desatam a contar o que fazem por ali.

“Aprendi muito sobre plantas nativas, sobre conservação do meio ambiente e sobre cidadania, e agora transmito esse conhecimento. Quero ser político e ativista ambiental”, diz Kauã de Freitas, 16 anos, que entrou como aluno no CCMar aos 15 e, agora, é menor aprendiz contratado pelo Centro.

“Entendi o que é trabalhar em equipe. Hoje ensino os novos alunos a crescerem juntos. No futuro, vou ser professor de biologia, porque tenho paixão pelo meio ambiente”, explica Pierre Rochano, 18 anos, que também entrou como aluno e hoje é menor aprendiz, monitor do curso de Agricultura e Meio Ambiente.

“Cheguei aqui sem querer fazer o curso. Eu era muito tímida. Mas logo me apaixonei. Hoje vejo muitos amigos cometendo os mesmos erros que eu cometia, maltratando o meio ambiente. Quero ser psicóloga para ajudar outras pessoas a crescer, como eu cresci”, projeta Kethelen Reis, 16 anos, que entrou no CCMar com 15, no curso de Administração, e hoje é menor aprendiz.

O quarto na fila das apresentações é o Paulinho, a quem Lauro chama de sobrevivente. Paulo Roberto Sanches viveu em um abrigo durante toda a vida em Rio Grande. Perto de atingir a maioridade, começou a se preocupar com o futuro que teria quando perdesse a tutela do Estado. Viu em um programa de TV uma reportagem sobre os cursos oferecidos no CCMar e quis tentar uma oportunidade. Seu histórico escolar atrasadíssimo era um problema, pois não são aceitos alunos que estejam fora da escola. O guri foi procurar o diretor do Centro para pedir a oportunidade. “Fizemos uma manobra de guerra para o Paulinho voltar para a escola e poder entrar no CCMar”, relembra Lauro. 

“Eu sabia que seria mais fácil nas drogas ou no crime. Isso era um caminho natural. Mas eu queria ser livre, queria trabalhar, conhecer coisas novas. E encontrei isso aqui”, conta Paulinho, 20 anos, que ingressou no curso de Administração e hoje é funcionário do CCMar, mora sozinho em um apartamento alugado e segue seus estudos.

Depois de uma longa conversa com os cinco – Lauro e os jovens –, todos fomos para a cozinha, tomar café com pastel e recheadas (o mesmo que farroupilha, em idioma rio-grandino). Tento trazer a conversa para a pauta, que não era o CCMar, mas a trajetória do seu diretor. Mas só consigo fazer as perguntas que tinha preparado quando a gurizada termina de lavar a louça e parte para a casa. Ao ficarmos sozinhos novamente, percebo o quão diferente foi este nosso encontro. Nos anteriores, havia um sonho, um projeto a realizar. Talvez por isso sobrava mais tempo para falarmos sobre o meio ambiente, sobre a vida marinheira e sobre a trajetória profissional e pessoal. Depois de se tornar o diretor voluntário do mais ambicioso projeto de sua vida, Lauro já não vê mais graça em falar de si. Ou talvez tenha compreendido que tudo o que viveu anteriormente foi para levá-lo até a margem da mesma Lagoa, agora vista pela janela de sua sala, de onde se enxerga o Eco-Museu da Ilha da Pólvora, a Ilha dos Marinheiros, os dois barcos-escola pertencentes ao CCMar. Enfim, de onde se enxerga o mundo pela escotilha de Lauro Barcellos.

Um doutor diferente

Diante de uma atenta plateia, durante a cerimônia de entrega de homenagens relativas aos 50 anos da Furg, em julho de 2019, Lauro Barcellos recebeu o título de Doutor Honoris Causa pelo trabalho como oceanógrafo, museólogo e também como diretor do CCMar e do complexo de museus da universidade – que além do Oceanográfico, inclui também os museus Náutico, Antártico, Ilha da Pólvora e CRAM. Em seu discurso, afirmou que não escreveu uma tese, mas que vem contando na areia da praia uma história de 45 anos de amor pela instituição. O primeiro capítulo começou a ser escrito poucas semanas depois de ingressar no curso de Oceanografia, em 1974. Logo que começaram suas aulas, foi até o Museu Oceanográfico se apresentar ao professor Eliézer de Carvalho Rios, fundador e então diretor, pesquisador reconhecido mundialmente por seu trabalho ligado à fauna marinha. Queria ser voluntário. Ao andar pela praia com colegas, encontrava animais como pinguins, albatrozes e tartarugas sujos de óleo e doentes. Recolhia os que conseguia e, com o consentimento do professor Rios, começou a levá-los para o pátio do museu, para que recebessem tratamento. Na época não havia veterinários na universidade e era preciso pedir ajuda do pessoal da Medicina para cuidar dos bichos. Depois de recuperados, eram devolvidos ao mar, para que seguissem seu caminho. “A gente era tachado de loucos por juntarmos bichos doentes na praia”, relembra. Assim nasceu o Centro de Recuperação de Animais Marinhos (CRAM), o primeiro do Brasil, ligado ao Museu e que, com o apoio de empresas como a Petrobras, recebe e trata cerca de 320 animais por ano e conta com seis técnicos 24 horas por dia. “O trabalho do CRAM é de educação e conscientização. As pessoas precisam saber que os animais são vítimas da ação humana nos oceanos”, afirma.

Apaixonado pelos estudos e pela ciência, foi em busca de mais aprendizado depois de terminar a faculdade. Fez pós-graduação na americana Duke University e especializações nos Museus de História Natural de Frankfurt e de Londres. Além dos cursos ligados à vida e aos ambientes costeiros, também descobriu a alma marinheira que fez dele um homem do mar, velejador e estudioso de embarcações. Imbuído por essa paixão, movimentou uma ampla rede de mecanismos de financiamento, desde as leis de incentivo à cultura até o patrocínio da Fundação Roberto Marinho, para inaugurar, em meados dos anos 2000, o Museu Náutico, mais um ligado ao complexo museológico da Furg. Instalado em um dos históricos armazéns do Porto Velho, no coração de Rio Grande, o museu reconta a história da navegação no estuário da Lagoa dos Patos, exibindo embarcações descobertas e restauradas por Lauro e sua equipe, como as célebres canoas de pranchão, a atração do local.

Foi discípulo e amigo da professora e ambientalista Judith Cortesão, portuguesa cuja família foi exilada do país natal durante o regime salazarista e que, depois de percorrer alguns países, radicou-se em Rio Grande, vindo a fazer parte do corpo docente e de pesquisadores da Furg. Com ela, compreendeu que o desafio de proteger o meio ambiente deveria ser sempre encarado em escalas globais, agregando forças diversas, jamais segregando grupos ou restringindo o avanço do conhecimento. Com esse espírito, participou da gênese de alguns dos projetos de conservação ambiental mais importantes do país, como o Projeto Tamar. Também atuou como consultor e voluntário em muitos desastres ao redor do mundo. O mais impactante, segundo ele, ocorreu em 2000, quando, junto com outros 14 mil voluntários, ajudou a minimizar os efeitos de um derramamento de óleo que impactou 25 mil animais na costa da África.

Honrado com muitos títulos e prêmios ao longo da carreira, como as Medalhas do Mérito Tamandaré e do Mérito Naval, concedidas pela Marinha, e os prêmio Unibanco Ecologia e Globo Ecologia, garante que o mais importante é o Título de Cidadão Rio-Grandino, concedido pela Câmara Municipal da cidade – Lauro é natural da vizinha cidade de Pelotas. Bom de frases desde a primeira entrevista, não perde o dom natural de expressar as opiniões e convicções em sentenças que saem quase prontas para as aspas, o que é praticamente irresistível para qualquer repórter. “Acredito que viemos ao mundo para servir e para deixar um legado. Daqui não levamos nada. Escolhi servir aqui, é o que vou fazer enquanto tiver força”.

O encontro de mais de três horas acaba com um passeio pelo pátio do CCMar, em direção à horta. No caminho, passamos ao lado de uma estátua em bronze do engenheiro Francisco Martins Bastos, uma das figuras mais conhecidas de Rio Grande, que instalou a refinaria Ipiranga e fundou a Furg, uma espécie de padrinho do jovem estudante de Oceanografia. “Olha, esse foi meu amigo querido [passa a mão pelo rosto da estátua]. Depredaram a estátua dele e eu juntei, trouxe para cá. Vou restaurar e deixar aqui, para que ele veja tudo isso”. Depois de passar pelos pés de hortaliças e verduras que crescem viçosas, chegamos a mais um ponto da mesma margem. A presença da Lagoa dos Patos é constante. Talvez seja ela o verdadeiro personagem das entrevistas, reportagens e histórias contadas sobre as gentes desse lugar. Não sei quando vou me reencontrar com Lauro para mais uma conversa. Mas posso apostar qual será o cenário.

Parêntese — Apesar de oceanógrafo e museólogo, dedicaste a maior parte da vida à educação.

Lauro Barcelos — O Brasil fabrica muito bem aviões, mas nossa fábrica de gente não é das melhores. Enquanto a educação não for prioridade no país, não tem como torná-lo uma grande potência. Os países mais desenvolvidos do mundo chegaram lá educando seu povo. Aqui no CCMar, o maior desafio é contribuir com a formação de jovens de 14 a 17 anos, independentemente do seu desempenho na escola formal. O sistema descarta os jovens pobres, diferentes, sem a instrução formal esperada. Essas pessoas são convidadas a evaporar, porque não há nada para elas no sistema. Nada apoia a emancipação dos jovens pobres. Nem todos são bandidos, pelo contrário. Temos aqui jovens pobres que são educados, não usam drogas, não roubam, têm documentos e carteira profissional e que, por razões inúmeras, foram simplesmente alijados de qualquer processo que os emancipe. Nossa intenção aqui é trazê-los para uma convivência sadia, com a retaguarda da universidade, para que adquiram conhecimentos sobre uma vida ética e saudável, com respeito ao próximo e às diferenças, com oportunidades de emancipação. Lidamos com a concorrência desleal da rua, que é muito mais atraente do que uma escola, em que eles têm que sentar e ouvir, aprender. 

P — E como lidar com essa concorrência?

LB — O CCMar tem esse sucesso porque é uma das áreas de uma universidade, ou seja, essa é uma casa da Fundação Universidade Federal do Rio Grande, onde fazemos um trabalho de assistência social refinado, inspirado em modelos aplicados em outros países como Noruega, Inglaterra, Estados Unidos, Portugal. Não é assistencialismo. 

P – Por que pensaste em criar o CCMar?

LB — Eu sei muito sobre isso porque eu fui um jovem sem grana. Quando vim estudar na universidade, ainda adolescente, eu tinha zero grana no bolso. Mas naquela época não havia os projetos sociais que temos hoje, ninguém se preocupava se a gente tinha vale transporte ou alimentação no bolso. Não havia olhar para o outro. Havia pessoas generosas, mas isso não era um programa da instituição, entende? 

P – O CCMar não é uma escola regular. Quais os princípios educacionais? 

LB — Não existe educação sem ação. Não acredito que somente uma base teórica traga resultados sociais que precisamos. Aqui no CCMar temos fundamentos teóricos para tudo, que discutimos, aprendemos. Mas imediatamente vamos para a prática. Esse fazer é o que traz a emancipação. Mesmo com toda a desconsideração do país com seus professores, um desrespeito total, eu espero que a educação ainda seja reconhecida, respeitada e considerada. São os professores que podem salvar o país desse estado em que se encontra. Vivemos um momento pouco favorável à educação. Sabemos que o investimento nessa área precisa ser alto, o que se complica em momentos de dificuldade econômica. 

P – Como é ser diretor voluntário do CCMar? 

LB — Acho ótimo estar junto com eles, aprendo muito, se pudesse estaria com eles o tempo inteiro, só me dão alegrias. Eu tive três pessoas importantes na minha vida, que foram o dr. Bastos [Francisco Martins Bastos, engenheiro e benfeitor da cidade, que fundou a universidade e implantou a Refinaria de Petróleo Ipiranga em Rio Grande], o professor Eliézer de Carvalho Rios [professor da Furg e pesquisador, fundador e primeiro diretor do Museu Oceanográfico da Furg] e a dra. Judith Cortesão [professora, ambientalista e geneticista portuguesa radicada em Rio Grande, incorporada ao corpo de pesquisadores da Furg], que eram mais velhos do que eu e me tratavam com extremo carinho, me acolheram e me ajudaram a ser quem eu sou. Os três me pediam que eu jamais abandonasse a juventude, tanto a minha quanto a dos outros. Por isso não quero deixar de ser jovem, tenho horror de caretice, quero estar entre eles.

P – Qual o perfil desse jovem?

LB – São os jovens pobres e vulneráveis das periferias do Rio Grande. Mas aqui não tem coitadinho, eu não tenho pena de ninguém. Pena é culpa por sentir desprezo. Eu não sinto desprezo, então também não sinto pena. Eu ensino pra eles que as pessoas têm que gostar de trabalhar, de estudar, elas têm que se dedicar, ser persistentes para lutar contra o sistema que as exclui. É isso.

P — Quem te inspira?

LB — Sempre fui apaixonado pelo comandante Jacques Cousteau, foi ele quem despertou meu interesse pelas coisas do mar. Fiz vestibular para Oceanografia no final de 1973 por causa desse interesse. Também sou apaixonado pelo escritor Joseph Conrad, que dizia “se quiseres saber a idade da Terra, viva uma tempestade no mar”. Leio e releio Conrad até hoje, em especial O Espelho do Mar. Quando li O Mundo Silencioso [Jacques Cousteau], também passei a ver a vida marinha com outros olhos. 

Em janeiro de 1974 me apresentei como voluntário para o Dr. Rios, na porta do Museu Oceanográfico. Ele me perguntou o que eu queria fazer no museu. Eu respondi que, um dia, queria ser diretor. Ele, muito naturalmente, disse que era exatamente isso que estava precisando (risos). Ele é até hoje uma das minhas maiores inspirações, tive a honra de ser seu assistente. Sinto que sou assistente dele até hoje. O professor Rios foi um homem brilhante, um cientista de altíssimo nível. 

P — Como foi a função de fundar o Projeto Tamar?

LB — Quem vivia sempre no Museu Oceanográfico naquela época de faculdade era um grande amigo meu, Guy Marcovaldi. A gente fazia muita expedição oceanográfica para aumentar o acervo do Museu. Éramos super animados. Em fevereiro de 1977 estávamos no Atol das Rocas e decidimos fundar o projeto Tamar. Percebemos que as tartarugas estavam sendo dizimadas. Não tinha fiscalização, ninguém sabia nada de tartaruga, não se sabia que havia cinco espécies na costa brasileira, que elas botavam ovo na praia, não se sabia nada. Começamos a estudar e a compreender a importância de trabalhar pela conservação. Articulamos ações junto aos governos e ganhamos muito apoio dos presidentes Ernesto Geisel e Figueiredo. O projeto Tamar foi um dos frutos desse trabalho, mas a gente estava envolvido no debate conservacionista, que dava os primeiros passos. A criação das estações ecológicas, como a do Taim, também é fruto desse movimento.

P — Tu e os teus amigos juntavam animais na praia do Cassino, né.

LB — Sim, em 1974 começamos a juntar animais na praia. Eram vítimas da humanidade, estavam sujos, doentes. Eram animais lindos, ficávamos encantados. Quem nos ajudava eram os médicos, porque não tinha veterinários. Até então, cuidar de animais era coisa de maconheiro, de vagabundo, de quem não tinha o que fazer. Ouvíamos os maiores esculachos por cuidar dos animais. Hoje é óbvio, pra muita gente, que tem que cuidar dos animais. É crime matar um leão marinho, é crime destruir a natureza. Naquela época não era. Quem cuidava dos animais enfermos e feridos era mal visto. Ao longo desses anos, cuidamos e salvamos mais de 15 mil animais. 

P — O Centro de Recuperação de Animais Marinhos do Museu Oceanográfico é um dos primeiros do mundo.

LB — Sim. Começamos esse movimento com uma amiga minha da Califórnia, que era enfermeira e amava os animais. Lá os centros de recuperação de animais também começaram em 1974. Eu tinha isso claro: tinha que ajudar os animais. Não era possível deixar morrerem na praia sem fazer nada. O professor Rios apoiou, era um homem de ação, não gostava de ficar ensebando. Então fundamos o CRAM e saímos trabalhando.

P — Tu ainda anda à procura de animais doentes pela praia? Limpa um pinguinzinho de vez em quando?

LB — Sim, claro. Limpo escondido (risos). O CRAM hoje tem convênio com o Porto de Rio Grande, que permite sejamos responsáveis pela proteção de fauna em toda a região.

P — Qual o impacto desses resgates no ciclo natural das espécies? Que diferença faz resgatá-los ou não?

LB — Mais do que salvar uma espécie, o CRAM mostra uma realidade que, de outra forma, seria desconhecida. É importante as pessoas saberem que os animais são vítimas das redes, da pesca ilegal, do lixo que jogamos nas ruas, que as tartarugas estão morrendo com o estômago cheio de plástico. Elas têm que saber que nós somos os culpados por tantos animais mortos. Isso modifica o comportamento da humanidade. O trabalho desses centros é muito importante na educação das comunidades. 

P – Todos esses projetos são ligados à Furg. Como é promover esse diálogo da academia com a sociedade?

LB — A universidade pública brasileira tem que estar a serviço do público brasileiro. Se não servir, não tem razão de existir. Por isso temos que fazer coisas que tenham importância para a comunidade, em todas as áreas. Não tenho interesse em estudar o sexo dos anjos, mas sou um cientista. Gosto da ciência carregada de humanismo, acho que o poder transformador está nas pessoas. 

P — Mas nem sempre é fácil tirar ideias do papel, especialmente nas esferas públicas, nas universidades…

LB — Só tem um jeito. É gente com gente. Eu te conto uma ideia, tu melhora a ideia, passamos para outros. E assim a coisa vai. O caminho é a convergência. Esses garotos só podem estar aqui por que a uma instituição universitária se juntaram servidores públicos, empresários, amigos. O CCMar é a prova de que a articulação de forças é o caminho. E isso não significa vender a alma para o diabo, pelo contrário. Sempre mantive a independência e a transparência em todos os projetos. 

P — A universidade pública brasileira está em xeque?

LB — É até bom que esteja. Acho ótimo que nos questionem, que nos esculachem. Não tenho problema nenhum que entrem aqui, vasculhem tudo. Tudo isso está a serviço da comunidade, então pode e deve ser visto. Só assim poderão ver o tamanho do serviço que as universidades públicas prestam ao Brasil. É um trabalho que impacta toda a população, em todos os sentidos. 

P — Como um cientista vê florescerem argumentos obscuros, como negação da ciência, terra plana e essas coisas?

LB — Primeiro, eu me abasteço de outras fontes. Acredito em ciência refinada, com observações e conclusões de gente que estuda muito. Não acredito em fanatismo e fundamentalismo, acho perigoso. Grande parte da humanidade vive em nível de compreensão primitivo, o que não ajuda, só atrapalha. Nossa ação no universo tem que ser baseada em ciência. E, claro, temos que lidar com burrice, com ignorância, com desonestidade. E com a comunicação, que propaga a burrice em velocidade absurda, como se fosse verdade. Outro dia dei uma palestra sobre fósseis. Gosto de explicar os fósseis como livros de pedra, que registram a história em forma petrificada. Os dinossauros, os caramujos, os seres humanos que existiram em outras eras, hoje são pedras que contam a história. Eu acredito nos fósseis e na evolução da vida, sou discípulo de Darwin. Aí estou dando a palestra e um senhor me pergunta se eu sei por que esses animais viraram fósseis. Eu respondo que temos algumas pistas bastante interessantes. E ele me diz que a verdade é que eles não tiveram tempo de embarcar na Arca de Noé. Respirei fundo e deixei o homem completamente à vontade para acreditar no que ele quiser. Quero dizer com isso que temos que ser capazes de viver no meio da ignorância, sem querer matar, sem enfurecer, sem perder a paciência.

P — Mas como mudar essa realidade, agir contra a ignorância?

LB — A única maneira é assim, sentados em volta de uma mesa, os de 20 ao lado dos de 60, trocando ideias e pensamentos. A ciência ajuda a mostrar caminhos e oferece evidências para os argumentos. 

P — Tu, como eu, és um apreciador do camarão rosa que cresce no estuário da Lagoa dos Patos, né? Eu compro a briga de que o nosso é o melhor camarão do mundo.

LB — Sim, aqui crescem os melhores camarões do mundo. Nenhum camarão é tão saboroso quanto o nosso. Até nisso a ciência nos ajuda. Ela nos mostra que os camarões desovam no mar, entram como larvas no estuário do Rio Grande, aqui crescem e depois migram para o mar. Lá alcançam 25 centímetros e se reproduzem a 80 metros de profundidade. Os filhotinhos daqueles camarões que irão morrer no mar voltam para Rio Grande, para se reproduzir novamente. Essas maravilhas vivem enterradas no fundo de lama da lagoa, numa espécie de pudinzinho de matéria orgânica. Mas a Lagoa sofre cada vez mais com erosão, desmatamento, invasão humana. Como a carga de sedimentos é cada vez maior, é preciso fazer cada vez mais dragagem. E assim vai ocorrendo o declínio da vida no estuário, vai acabando o camarão. Aqui havia tanta vida que era possível ouvir os camarões se deslocando nas noites de migração. Esse estuário era um dos mais abundantes do planeta, mas está em risco.

P — Com a tua experiência, o que aconteceu na costa brasileira, com as manchas de óleo?

LB — Um navio vazou e não quis contar. Simples assim. É terrível, mas não é o pior desastre ambiental da história do Brasil. Já vi áreas muito mais impactadas que foram restauradas pelo mar. Problema mesmo é Brumadinho, o derramamento daquilo tudo no mar. Aquilo foi uma barbaridade, os contaminantes daquilo são pesados, estão depositados na terra e nos rios, é devastador.

P — Estamos em situação pior do que já estivemos em relação à preservação do ambiente?

LB — Na natureza, a conta é um mais um. Nunca é um só. É o teu impacto mais o meu impacto mais o impacto do outro. A ação humana é um somatório de pequenos impactos, que prejudica a vida. Aqui na Lagoa dos Patos, por exemplo: temos o desmatamento, as lavouras nas margens, a carga sedimentar jogada no estuário, a pluviosidade cada vez maior, as mudanças climáticas. Tudo converge para a barra do Rio Grande, que tem cada vez mais sedimentos, mais lama, mais esgoto, mais degradação. A solução para isso? Só educação. 

P — Qual o futuro, ambientalmente e socialmente falando?
LB — Precisamos cada vez mais da integração do conhecimento produzido nas instituições brasileiras e estrangeiras com as políticas governamentais. Não podemos nos valer apenas de impressões ou de factoides. Temos que considerar a ciência e trabalhar pela educação.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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