Editorial: Parêntese 13

Grosseria nem sempre é irmã de autoritarismo. Tem vez que uma piada chula é, como o charuto da frase freudiana, apenas uma piada chula. Um guri de 11 anos fazendo trocadilho bagaceiro é um guri de 11 anos, um sujeito que ainda está formulando os limites de sua ação no mundo. 

Mas o que dizer de grosseria autoritária, machista e misógina, ainda por cima proclamada por um adulto em posição de poder?

Parêntese se associa a todos os que se manifestaram contra a fala de Bolsonaro aludindo vilmente ao trabalho da jornalista Patrícia Campos Mello. 

Não é só por ela, naturalmente.

 

Bem ao contrário, Parêntese gosta é de beleza, invenção, delicadeza. Olha só a história do Tio Ciro, do Bambas da Orgia, figuraça que há 88 verões está na área, vendo e vivendo o carnaval. Olha a memória de George Steiner, evocado por Pedro Gonzaga em sua trajetória de humanista. Acompanha a história de nosso entrevistado de hoje, o professor Nataniel Ngomane, um moçambicano tão próximo do Brasil.

Mas também queremos a dureza da vida, trazida para o plano da reflexão. As três crônicas de hoje querem ajudar a pensar sobre sofrimentos que se transfiguram em alegria – veja lá no texto da Nathallia Protazio. Veja o texto do José Falero, que vai do horror ao riso. Veja também a evocação amena e até galhofeira de cenas meio assustadoras da infância, na lembrança de Ana Marson.

Temos ainda as fotos documentais de Lars Erick, que olha para a cidade em busca de humanizar o nosso olho. E as foto-invasões de Lucas Levitan, hoje focalizando cenas com animais. Uma invasão-invenção

Completam a edição uma visita ao termo “apropriação cultural”, que voltou à voga agora, com uma atriz branca vestida de índia, e uma visita à Porto Alegre dos anos 1930, com o Retrato Escrito, em que Ângelo Chemello Pereira lembra de um obscuro texto de Reynaldo Moura. Arthur de Faria continua a nos brindar com a história do rock na vizinhança.

 

Enquanto isso, é preciso dizer ao nosso queridíssimo leitor que estamos chegando num ponto há muito desejado: teremos em poucos dias, até o fim do mês, um site digno, que permitirá ao assinante revisitar todas as edições da Parêntese, flutuar entre as matérias, as entrevistas, as crônicas, as fotos, as charges. 

A batalha é dura: estamos há algumas semanas aborrecendo os leitores para pedir não clemência, mas leitura e assinatura – nosso jeito de tentar viabilizar o projeto todo (Matinal, Roger Lerina, Parêntese) passa decisivamente por isso. Pedimos e pedimos de novo: assina aí.  

E é bom avisar, mais uma vez: a partir desta semana já, a newsletter do Roger Lerina só será enviada para assinantes. E assim que nosso site ficar bala – “em ponto de bala”, se dizia antigamente, em alusão não aos projéteis ao gosto de autoritários, mas aos doces, que eram feitos em tachos e no cozimento precisavam atingir esse preciso ponto –, também a Parêntese só será acessível aos assinantes. 

Custa pouco e, esperamos, compensa bem.

 

Ou o senhor tem alguma crítica, a senhora tem alguma restrição? Sugestão? Palpite? Ideia? Proposta? Pauta?

Para isso inventamos a Seção de Cartas, que estreia com a mensagem de Andrea Bonow, amiga da casa e já uma colaboradora, que se motivou a lembrar um tio desconhecido e amado. Olhe ali, logo abaixo.

Andrea, aliás, fez como nós, que não queremos deixar passar em branco os nossos mortos queridos. Por isso é que trazemos dois pequenos choros em forma de texto, que querem se associar ainda uma vez à tristeza pela morte do Rui Diniz Gonçalves, da livraria (e valiosa editora) Palmarinca, um livreiro comme il faut, daqueles que conhecia o metiê e os clientes, que naturalmente viravam amigos na primeira hora.

 

Luís Augusto Fischer

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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