Rafael Escobar: Festinha do Capeta – Capítulo 9

(No capítulo anterior: ao fazerem uma pequena parada em uma exposição de arte, os aventureiros adquirem máscaras mágicas que transformam a aparência daqueles que as usam; assim, munidos de disfarces convincentes, eles partem rumo ao destino final da jornada.)

Eu gostaria de conseguir explicar por que eu me sinto tão impotente e inútil o tempo inteiro – queria ter ao meu dispor uma explicação mais elaborada do que simplesmente o nome de algum transtorno emocional. Ansiedade, depressão… são palavras que não dão conta do impacto que eu sinto que todas as coisas têm em mim. Hoje eu vivo numa época em que a novidade é sempre uma tragédia, e me angustia muito a sensação de que existe algo que pode ser feito, porque acho que nem sempre existe algo que pode ser feito, e porque eu não faço nada. Faz tempo desde a última vez em que eu senti que a vida era uma sucessão de coisas que só raramente tinham de fato alguma importância. Agora é como se todos os momentos fossem definitivos pra uma nova e profunda sensação, mas a questão é que eles não são. Tudo só parece.

Com certeza, o que eu vivi durante a pandemia do coronavírus em 2020 foi determinante pra uma melhora no meu estado mental, já que hoje em dia eu sinto que descanso; no entanto, sigo sem o entendimento de o que são as coisas e de qual é a real importância delas. Quando vimos de longe uma movimentação na entrada de um prédio da rua da Praia, eu soube que Deus me esperava em algum lugar depois de tudo.

Uma música pop genérica foi ficando cada vez mais alta conforme a gente se aproximava do lugar e também foi aumentando o número de pessoas que transitavam por ali. Aproveitamos um casal que tava saindo e entramos pelo portão; algumas pessoas ficaram nos olhando, mas nada que parecesse muito desconfiado – tudo tranquilo. Fomos nos encaminhando pro fundo do corredor do prédio, rumo ao que deveria ser um salão de festas. Só gente bonita: ninguém de máscara, todo mundo com seus lindos rostos à mostra, sorridentes, dançando que nem adultos numa formatura; em uma das paredes do grande salão, uma enorme faixa: OVER QUARENTENA PARTY. Fiquei em dúvida sobre a qualidade do inglês decidido pra esse nome, mas não dediquei muito pensamento a isso. No contorno do salão, formando um círculo, havia mesas com canapés e baldes com gelo e champanhe, também long necks de cerveja. Algumas pessoas tavam sentadas nas cadeiras, e outras tavam de pé, transitando ou dançando pelo meio do salão – o clima parecia bem normal, bem tranquilo, nada preocupante, mas eu não conseguia parar de pensar que algo ruim tava prestes a acontecer, que aquele ar de tranquilidade e diversão na verdade escondia algo tenebroso. Eu tava olhando em volta quando uma mulher muito arrumada, de vestido e salto alto, gritou do outro lado do salão e veio caminhando meio exaltada na direção do nosso grupo. 

EI EI EI, QUEM SÃO VOCÊS?

Gelei, e percebi que os outros também gelaram; um pavor tomou conta de nós. Agora, outras pessoas também tavam nos olhando, e não eram olhares muito amigáveis. “Essa é a hora da criança ser útil”, pensei e abri a boca pra falar qualquer coisa. Mas não consegui: no momento em que ia sair minha primeira sílaba, um homem entrou no salão, vindo do pátio, e gritou RENAN! FINALMENTE, e veio de abraços abertos na direção do Matús, se agachou na frente dele e deu um abraço na criança. “É teu filho?”, perguntou a mulher pro cara. “Sim, tava preocupado já, minha mãe, meu irmão e meu sobrinho tinham ficado de trazer ele aqui pra voltar pra casa comigo”, ele falou apontando pra nós como se nos apresentasse um por um. “Não sei se esse é o melhor lugar pra uma criança, mas tudo bem”, disse a mulher e saiu de perto de nós.

O homem parecia um pai de família comum: cinquenta e poucos anos, uma pança de cerveja, a cara meio vermelha do álcool, uma camisa polo qualquer e um jeito meio grosso tentando ser extrovertido e comunicativo. Eu, o Gabriel e a Nana tivemos um momento de confusão que foi rapidamente resolvido pela reação do Matús, que abraçou o homem e virou pra nos olhar enquanto dava um sorriso malicioso. O homem certamente era um enviado da Nona ou do eremita ou dos dois, pra nos ajudar na missão e tranquilizar a dona da festa sobre a nossa presença. Os dois saíram de perto de nós, e o Gabriel murmurou entre os dentes: “Onde tá a minha mãe?”, e logo saiu andando rumo ao pátio, pegando dois canapés de uma mesa e enfiando na boca no meio do caminho.

No pátio, a concentração de pessoas era maior; era ali que a festa tava mesmo acontecendo – alguns bolsonaristas dançando, outros sentados em pufes e cadeiras espalhadas pelo ambiente, muitos de pé, com suas cervejinhas e taças de champanhe. Várias bandeiras do Brasil tavam penduradas nas plantas e nas paredes em volta, e algumas pessoas usavam roupas verde e amarelo. Quando reparei de novo no Gabriel, ele tava estático, parado com os braços ao longo do corpo, olhando numa direção com os olhos arregalados.

Todos na volta pareciam muito de boa, como se nada de estranho tivesse acontecendo, mas um pouco mais pro fundo do pátio, num ponto bem central, no meio dos grupinhos que conversavam, ali tinha uma árvore e, no tronco dessa árvore, uma mulher amarrada e amordaçada. “Imagino que essa seja a tua mãe”, disse a Nana, se aproximando da gente. “Sim, a gente precisa tirar ela de lá”, respondeu o Gabriel. 

O eremita tinha dito que o povo dessa festa tava enlouquecido, que era perigoso e sei lá o que mais; por isso, aquela calmaria toda tava muito estranha pra mim. De repente, como se fosse uma resposta aos meus pensamentos, a música da festa parou e soaram três batidinhas de colher numa taça de champanhe.

QUERIDOS AMIGOS, disse a mulher que tinha nos questionado antes, entrando no pátio e tentando chamar a atenção de todos, AGORA ENTENDI O QUE TÁ ACONTECENDO, NOSSOS CONVIDADOS ESPECIAIS TÃO DISFARÇADOS E, COMO ELES TÃO PRESTES A PERDER O DISFARCE, NÓS PODEMOS TAMBÉM ASSUMIR NOSSA FORMA REAL. QUE O PODER DO CAOS POLÍTICO NOS PREENCHA!

Tive tempo de ver o Matusalém e o pai dele fazerem uma cara de espanto por trás da mulher, sinalizando algo pra nós que eu não consegui entender. Em uma fração de segundo eu lembrei de toda a minha vida no colégio; lembrei das aulas de história e de como eu pensava que entendia os motivos pra todos os acontecimentos históricos; lembrei que eu cresci acreditando que o Brasil era o país do futuro, e que certas coisas eram obviamente erradas. Às vezes parece que foi do nada que tudo ficou assim, realmente como se alguém tivesse apertado um botão e mudado a configuração das coisas. Mas eu sei que não foi assim; e, se a gente parar pra pensar, dá pra refazer todo o caminho até agora na cabeça. Só que mesmo fazendo isso, ainda fica uma dúvida, uma sensação de que tem algo de estranho no meio do processo, algo inexplicável, praticamente sobrenatural, algo como a participação de um grupo de demônios chapados de ácido preparados pra levar a loucura até o limite. E na próxima fração de segundo, todo o ambiente mudou.

O povo da festa mudou de aparência subitamente: agora, cada um daqueles membros da classe média conservadora se parecia com a mistura perfeita do Kim Kataguiri com o Olavo de Carvalho: um ar enérgico, empolgado, jovial, dentro de um corpo carcomido e horroroso; dobras de pele com rugas caindo por cima dos ossos, escorrendo como se fossem uma capa colocada por cima de um boneco de palito. Porém, intensos: gritando FORA COMUNISTAS, VIVA BOLSONARO, e brandindo os punhos no ar conforme fechavam um círculo em torno de nós três. 

“O que a gente vai fazer?”, eu disse e me agarrei no braço da Nana.

“A gente devia ter preparado um plano, caralho, SE PELO MENOS EU AINDA TIVESSE MINHA ESPADA, VIU SÓ COMO A GENTE DEVIA TER MANTIDO AS ARMAS, ÓBVIO QUE NÃO IA DAR PRA RESGATAR MINHA MÃE SEM UMA LUTA, PUTA MERDA”, berrou o Gabriel.

O cerco foi fechando e, quando eu vi, eles já tavam perto demais. A gente tentou sair correndo, mas não tinha espaço entre os corpos horríveis na nossa volta. Nos debatemos, empurramos, mas não tinha o que fazer. 

AMARREM ELES COM A TRAIDORA, berrou a mulher, que também tinha adquirido a aparência medonha. E em menos de um minuto nós fomos carregados e amarrados na árvore junto com a mãe do Gabriel.

.:.

Eu nunca fui e nunca quis ser um herói, e naquele momento eu tive certeza que eu não era e que eu não seria; o grande problema são os heróis – todas as falhas catastróficas, todas as frustrações pessoais, tudo vem da ideia de heroísmo, da idealização de uma existência no mundo. Esse foi o pensamento que me ajudou a me resignar e esperar o pior acontecer naquela situação. Na nossa frente, só era possível enxergar aquela aglomeração de seres bizarros; o Matusalém e o pai dele não tavam por perto, e o enorme grupo, agora com longas unhas e dentes afiados à mostra, se aproximava lentamente de nós, gritando FORA COMUNISTAS com vozes demoníacas. No meio do processo, nossas máscaras foram arrancadas, e a mãe do Gabriel pôde perceber que era o filho dela que tinha vindo pro seu resgate – o olhar desesperado no rosto da mulher era assustador; ela parecia muito pior depois que tinha visto seu filho correndo perigo, do que quando a gente chegou e viu ela amarrada.

ESTRAÇALHEM ESSES INTRUSOS NOJENTOS, SEJAM ASSASSINOS EMPREENDEDORES E NÃO ESQUEÇAM QUE É BRASIL ACIMA DE TUDO!

Eu poderia dizer que a minha vida passou diante dos meus olhos conforme aqueles seres nojentos se aproximavam dos nossos corpos, mas seria mais fiel à realidade dizer que eu lembrei de momentos bem específicos quando me deparei com a morte iminente: lembrei de quando minha mãe me convenceu a mijar num copo de refri no cinema, pra evitar de ter que ir até o banheiro, lembrei de quando eu percebi que a falta de entendimento das emoções é o que me apavora e lembrei do meu vô e da minha vó falando mal de um amigo antigo que tinha recém morrido. Os bolsonaristas tavam cada vez mais perto de nós, e eu decidi aceitar minha morte; não rezei, não chorei, só pensei que então tava resolvido o mistério: depois de tanto fantasiar sobre como e quando seria o meu momento de morrer, ali estava ele, simples, objetivo e sem mistério; seria assim. Acabou. 

No entanto, como nem tudo funciona da maneira que a gente gostaria, e o mundo não é a Disney, eu não morri naquele momento, porque, antes que eu percebesse qualquer coisa, enquanto as unhas dos bolsonaristas quase encostavam em mim e nos meus amigos, um cheiro muito agradável de comida surgiu no ar, uma luz amarela brilhou muito forte num flash, e uma gigantesca polenta caiu do céu em cima dos monstros que se aproximavam de nós. Descendo do céu, flutuando acima da polenta e pousando nela, surgiu a Nona, a sobrenatural vó do Gabriel. Do meio da polenta, rasgando a comida gigante como um torpedo, apareceu o Matusalém e começou a nos soltar das cordas e correntes que os bolsonaristas usaram pra nos amarrar na árvore. VAMO QUE AINDA TEM MUITOS, ele gritou, e a Nona, de cima da polenta, disse com uma voz de deusa: PEGUEM SUAS ARMAS. Instantaneamente, na frente de cada um de nós, surgiram um rolo de massa (na frente do Gabriel), uma garrafa de vinho (na frente da Nana) e uma faca de cozinha (na minha frente) – pegamos nossas armas e partimos como guerreiros pra cima dos demônios bolsonaristas. Deu tempo de ver que a mãe do Gabriel, que também foi libertada pelo Matús, deu apenas um passo à frente e se ajoelhou, juntando as mãos numa posição ritualística, e uma luz azul muito forte começou a brilhar em torno dela. 

Garrafada na cabeça, pancada com o rolo de massa nas costelas, facada nas pelanca, e aos poucos fomos eliminando um por um dos bolsonaristas restantes. Também sofremos arranhões e mordidas, algumas até que bem profundas, mas nada freava nosso instinto assassino na batalha. Enquanto isso, a luz ficava cada vez mais forte, e agora a mãe do Gabriel tava acompanhada pela Nona ao seu lado, que emitia a luz amarela de polenta – era uma cena grandiosa e linda a das duas concentrando toda aquela energia. Quando já não restava mais nenhum monstro vivo à nossa volta, eu, Gabriel, Nana, Matusalém e o pai dele ficamos apenas observando as duas finalizando o ritual da mágica deslavadora de cérebros. 

A Nana me abraçou e, quando olhei pro rosto dela, ensanguentado e lindo, nos beijamos. Eu gostaria de ter terminado o beijo e olhado mais uma vez pra ela, mas isso não foi possível, porque, ainda enquanto a gente se beijava, uma imensa onda de energia, se espalhando pra todos os lados, parecida com a de uma bomba atômica, emanou da mãe e da vó do Gabriel, e nós todos caímos no chão. 

(No capítulo anterior: ao fazerem uma pequena parada em uma exposição de arte, os aventureiros adquirem máscaras mágicas que transformam a aparência daqueles que as usam; assim, munidos de disfarces convincentes, eles partem rumo ao destino final da jornada.)

Capítulo 9 – Festinha do Capeta

Eu gostaria de conseguir explicar por que eu me sinto tão impotente e inútil o tempo inteiro – queria ter ao meu dispor uma explicação mais elaborada do que simplesmente o nome de algum transtorno emocional. Ansiedade, depressão… são palavras que não dão conta do impacto que eu sinto que todas as coisas têm em mim. Hoje eu vivo numa época em que a novidade é sempre uma tragédia, e me angustia muito a sensação de que existe algo que pode ser feito, porque acho que nem sempre existe algo que pode ser feito, e porque eu não faço nada. Faz tempo desde a última vez em que eu senti que a vida era uma sucessão de coisas que só raramente tinham de fato alguma importância. Agora é como se todos os momentos fossem definitivos pra uma nova e profunda sensação, mas a questão é que eles não são. Tudo só parece.

Com certeza, o que eu vivi durante a pandemia do coronavírus em 2020 foi determinante pra uma melhora no meu estado mental, já que hoje em dia eu sinto que descanso; no entanto, sigo sem o entendimento de o que são as coisas e de qual é a real importância delas. Quando vimos de longe uma movimentação na entrada de um prédio da rua da Praia, eu soube que Deus me esperava em algum lugar depois de tudo.

Uma música pop genérica foi ficando cada vez mais alta conforme a gente se aproximava do lugar e também foi aumentando o número de pessoas que transitavam por ali. Aproveitamos um casal que tava saindo e entramos pelo portão; algumas pessoas ficaram nos olhando, mas nada que parecesse muito desconfiado – tudo tranquilo. Fomos nos encaminhando pro fundo do corredor do prédio, rumo ao que deveria ser um salão de festas. Só gente bonita: ninguém de máscara, todo mundo com seus lindos rostos à mostra, sorridentes, dançando que nem adultos numa formatura; em uma das paredes do grande salão, uma enorme faixa: OVER QUARENTENA PARTY. Fiquei em dúvida sobre a qualidade do inglês decidido pra esse nome, mas não dediquei muito pensamento a isso. No contorno do salão, formando um círculo, havia mesas com canapés e baldes com gelo e champanhe, também long necks de cerveja. Algumas pessoas tavam sentadas nas cadeiras, e outras tavam de pé, transitando ou dançando pelo meio do salão – o clima parecia bem normal, bem tranquilo, nada preocupante, mas eu não conseguia parar de pensar que algo ruim tava prestes a acontecer, que aquele ar de tranquilidade e diversão na verdade escondia algo tenebroso. Eu tava olhando em volta quando uma mulher muito arrumada, de vestido e salto alto, gritou do outro lado do salão e veio caminhando meio exaltada na direção do nosso grupo. 

EI EI EI, QUEM SÃO VOCÊS?

Gelei, e percebi que os outros também gelaram; um pavor tomou conta de nós. Agora, outras pessoas também tavam nos olhando, e não eram olhares muito amigáveis. “Essa é a hora da criança ser útil”, pensei e abri a boca pra falar qualquer coisa. Mas não consegui: no momento em que ia sair minha primeira sílaba, um homem entrou no salão, vindo do pátio, e gritou RENAN! FINALMENTE, e veio de abraços abertos na direção do Matús, se agachou na frente dele e deu um abraço na criança. “É teu filho?”, perguntou a mulher pro cara. “Sim, tava preocupado já, minha mãe, meu irmão e meu sobrinho tinham ficado de trazer ele aqui pra voltar pra casa comigo”, ele falou apontando pra nós como se nos apresentasse um por um. “Não sei se esse é o melhor lugar pra uma criança, mas tudo bem”, disse a mulher e saiu de perto de nós.

O homem parecia um pai de família comum: cinquenta e poucos anos, uma pança de cerveja, a cara meio vermelha do álcool, uma camisa polo qualquer e um jeito meio grosso tentando ser extrovertido e comunicativo. Eu, o Gabriel e a Nana tivemos um momento de confusão que foi rapidamente resolvido pela reação do Matús, que abraçou o homem e virou pra nos olhar enquanto dava um sorriso malicioso. O homem certamente era um enviado da Nona ou do eremita ou dos dois, pra nos ajudar na missão e tranquilizar a dona da festa sobre a nossa presença. Os dois saíram de perto de nós, e o Gabriel murmurou entre os dentes: “Onde tá a minha mãe?”, e logo saiu andando rumo ao pátio, pegando dois canapés de uma mesa e enfiando na boca no meio do caminho.

No pátio, a concentração de pessoas era maior; era ali que a festa tava mesmo acontecendo – alguns bolsonaristas dançando, outros sentados em pufes e cadeiras espalhadas pelo ambiente, muitos de pé, com suas cervejinhas e taças de champanhe. Várias bandeiras do Brasil tavam penduradas nas plantas e nas paredes em volta, e algumas pessoas usavam roupas verde e amarelo. Quando reparei de novo no Gabriel, ele tava estático, parado com os braços ao longo do corpo, olhando numa direção com os olhos arregalados.

Todos na volta pareciam muito de boa, como se nada de estranho tivesse acontecendo, mas um pouco mais pro fundo do pátio, num ponto bem central, no meio dos grupinhos que conversavam, ali tinha uma árvore e, no tronco dessa árvore, uma mulher amarrada e amordaçada. “Imagino que essa seja a tua mãe”, disse a Nana, se aproximando da gente. “Sim, a gente precisa tirar ela de lá”, respondeu o Gabriel. 

O eremita tinha dito que o povo dessa festa tava enlouquecido, que era perigoso e sei lá o que mais; por isso, aquela calmaria toda tava muito estranha pra mim. De repente, como se fosse uma resposta aos meus pensamentos, a música da festa parou e soaram três batidinhas de colher numa taça de champanhe.

QUERIDOS AMIGOS, disse a mulher que tinha nos questionado antes, entrando no pátio e tentando chamar a atenção de todos, AGORA ENTENDI O QUE TÁ ACONTECENDO, NOSSOS CONVIDADOS ESPECIAIS TÃO DISFARÇADOS E, COMO ELES TÃO PRESTES A PERDER O DISFARCE, NÓS PODEMOS TAMBÉM ASSUMIR NOSSA FORMA REAL. QUE O PODER DO CAOS POLÍTICO NOS PREENCHA!

Tive tempo de ver o Matusalém e o pai dele fazerem uma cara de espanto por trás da mulher, sinalizando algo pra nós que eu não consegui entender. Em uma fração de segundo eu lembrei de toda a minha vida no colégio; lembrei das aulas de história e de como eu pensava que entendia os motivos pra todos os acontecimentos históricos; lembrei que eu cresci acreditando que o Brasil era o país do futuro, e que certas coisas eram obviamente erradas. Às vezes parece que foi do nada que tudo ficou assim, realmente como se alguém tivesse apertado um botão e mudado a configuração das coisas. Mas eu sei que não foi assim; e, se a gente parar pra pensar, dá pra refazer todo o caminho até agora na cabeça. Só que mesmo fazendo isso, ainda fica uma dúvida, uma sensação de que tem algo de estranho no meio do processo, algo inexplicável, praticamente sobrenatural, algo como a participação de um grupo de demônios chapados de ácido preparados pra levar a loucura até o limite. E na próxima fração de segundo, todo o ambiente mudou.

O povo da festa mudou de aparência subitamente: agora, cada um daqueles membros da classe média conservadora se parecia com a mistura perfeita do Kim Kataguiri com o Olavo de Carvalho: um ar enérgico, empolgado, jovial, dentro de um corpo carcomido e horroroso; dobras de pele com rugas caindo por cima dos ossos, escorrendo como se fossem uma capa colocada por cima de um boneco de palito. Porém, intensos: gritando FORA COMUNISTAS, VIVA BOLSONARO, e brandindo os punhos no ar conforme fechavam um círculo em torno de nós três. 

“O que a gente vai fazer?”, eu disse e me agarrei no braço da Nana.

“A gente devia ter preparado um plano, caralho, SE PELO MENOS EU AINDA TIVESSE MINHA ESPADA, VIU SÓ COMO A GENTE DEVIA TER MANTIDO AS ARMAS, ÓBVIO QUE NÃO IA DAR PRA RESGATAR MINHA MÃE SEM UMA LUTA, PUTA MERDA”, berrou o Gabriel.

O cerco foi fechando e, quando eu vi, eles já tavam perto demais. A gente tentou sair correndo, mas não tinha espaço entre os corpos horríveis na nossa volta. Nos debatemos, empurramos, mas não tinha o que fazer. 

AMARREM ELES COM A TRAIDORA, berrou a mulher, que também tinha adquirido a aparência medonha. E em menos de um minuto nós fomos carregados e amarrados na árvore junto com a mãe do Gabriel.

.:.

Eu nunca fui e nunca quis ser um herói, e naquele momento eu tive certeza que eu não era e que eu não seria; o grande problema são os heróis – todas as falhas catastróficas, todas as frustrações pessoais, tudo vem da ideia de heroísmo, da idealização de uma existência no mundo. Esse foi o pensamento que me ajudou a me resignar e esperar o pior acontecer naquela situação. Na nossa frente, só era possível enxergar aquela aglomeração de seres bizarros; o Matusalém e o pai dele não tavam por perto, e o enorme grupo, agora com longas unhas e dentes afiados à mostra, se aproximava lentamente de nós, gritando FORA COMUNISTAS com vozes demoníacas. No meio do processo, nossas máscaras foram arrancadas, e a mãe do Gabriel pôde perceber que era o filho dela que tinha vindo pro seu resgate – o olhar desesperado no rosto da mulher era assustador; ela parecia muito pior depois que tinha visto seu filho correndo perigo, do que quando a gente chegou e viu ela amarrada.

ESTRAÇALHEM ESSES INTRUSOS NOJENTOS, SEJAM ASSASSINOS EMPREENDEDORES E NÃO ESQUEÇAM QUE É BRASIL ACIMA DE TUDO!

Eu poderia dizer que a minha vida passou diante dos meus olhos conforme aqueles seres nojentos se aproximavam dos nossos corpos, mas seria mais fiel à realidade dizer que eu lembrei de momentos bem específicos quando me deparei com a morte iminente: lembrei de quando minha mãe me convenceu a mijar num copo de refri no cinema, pra evitar de ter que ir até o banheiro, lembrei de quando eu percebi que a falta de entendimento das emoções é o que me apavora e lembrei do meu vô e da minha vó falando mal de um amigo antigo que tinha recém morrido. Os bolsonaristas tavam cada vez mais perto de nós, e eu decidi aceitar minha morte; não rezei, não chorei, só pensei que então tava resolvido o mistério: depois de tanto fantasiar sobre como e quando seria o meu momento de morrer, ali estava ele, simples, objetivo e sem mistério; seria assim. Acabou. 

No entanto, como nem tudo funciona da maneira que a gente gostaria, e o mundo não é a Disney, eu não morri naquele momento, porque, antes que eu percebesse qualquer coisa, enquanto as unhas dos bolsonaristas quase encostavam em mim e nos meus amigos, um cheiro muito agradável de comida surgiu no ar, uma luz amarela brilhou muito forte num flash, e uma gigantesca polenta caiu do céu em cima dos monstros que se aproximavam de nós. Descendo do céu, flutuando acima da polenta e pousando nela, surgiu a Nona, a sobrenatural vó do Gabriel. Do meio da polenta, rasgando a comida gigante como um torpedo, apareceu o Matusalém e começou a nos soltar das cordas e correntes que os bolsonaristas usaram pra nos amarrar na árvore. VAMO QUE AINDA TEM MUITOS, ele gritou, e a Nona, de cima da polenta, disse com uma voz de deusa: PEGUEM SUAS ARMAS. Instantaneamente, na frente de cada um de nós, surgiram um rolo de massa (na frente do Gabriel), uma garrafa de vinho (na frente da Nana) e uma faca de cozinha (na minha frente) – pegamos nossas armas e partimos como guerreiros pra cima dos demônios bolsonaristas. Deu tempo de ver que a mãe do Gabriel, que também foi libertada pelo Matús, deu apenas um passo à frente e se ajoelhou, juntando as mãos numa posição ritualística, e uma luz azul muito forte começou a brilhar em torno dela. 

Garrafada na cabeça, pancada com o rolo de massa nas costelas, facada nas pelanca, e aos poucos fomos eliminando um por um dos bolsonaristas restantes. Também sofremos arranhões e mordidas, algumas até que bem profundas, mas nada freava nosso instinto assassino na batalha. Enquanto isso, a luz ficava cada vez mais forte, e agora a mãe do Gabriel tava acompanhada pela Nona ao seu lado, que emitia a luz amarela de polenta – era uma cena grandiosa e linda a das duas concentrando toda aquela energia. Quando já não restava mais nenhum monstro vivo à nossa volta, eu, Gabriel, Nana, Matusalém e o pai dele ficamos apenas observando as duas finalizando o ritual da mágica deslavadora de cérebros. 

A Nana me abraçou e, quando olhei pro rosto dela, ensanguentado e lindo, nos beijamos. Eu gostaria de ter terminado o beijo e olhado mais uma vez pra ela, mas isso não foi possível, porque, ainda enquanto a gente se beijava, uma imensa onda de energia, se espalhando pra todos os lados, parecida com a de uma bomba atômica, emanou da mãe e da vó do Gabriel, e nós todos caímos no chão. 


Rafael Escobar. Nasceu e vive em Porto Alegre. É autor de “Elogio dos tratados sobre a crítica dos discursos” (Libretos, 2017) e de “Bando de desgraçado” (Ornitorrinco, 2018).


Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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