Rafael Escobar: Pseudo-chefão – Capítulo 7

(No capítulo anterior: Jonas, Gabriel e Matusalém encontram Nana em um sebo da Riachuelo; a moça estava comprando um livro do futuro que contava a própria história que eles estavam vivendo, e, ao ler o que aconteceria no próximo capítulo, eles cogitam sobre como deveriam seguir)

Eu não teria nenhum problema em interagir com mendigos, ainda mais sabendo que nada de grave aconteceria, porque eu realmente tenho uma grande curiosidade e admiração pelos moradores de rua; acho que nada é mais simbólico da nossa sociedade do que a existência dessas pessoas e não tenho dúvidas de que são as que mais têm algo a ensinar sobre o que é ser um ser humano. É muito bonito pensar naquelas pessoas que dizem ter cansado das convenções de uma sociedade pós-industrial, ocidental, etc., e que buscam uma volta às origens e por isso se enfiam em comunidades alternativas, ou que vão sozinhas morar em algum canto isolado, como um Thoreau desses, cheio de filosofias e tudo o mais – só que eu acho que uma decisão dessas (ou simplesmente uma situação dessas, já que nem sempre esse estilo de vida vem de uma decisão) não deveria ser considerado bonito ou honroso, mas simplesmente a verdade, a coisa mais verdadeira que poderia existir, o maior exemplo de todas as coisas que estruturam uma sociedade como a nossa; os moradores de rua é que sabem a verdade.

Mas o Gabriel insistiu que não queria perder o espeto, então começamos a pensar no que a gente podia fazer de diferente. 

ÔO, SEUS ESQUERDISTA BURRO, POR QUE VOCÊS NÃO LEEM ATÉ O FINAL ESSE NEGÓCIO? 

“É verdade” foi o pensamento que ficou estampado na cara de todos nós, e o Gabriel começou a falar: “Tá, mas peraí, acho que a gente tá entrando naquela zona paradoxal da viagem no tempo; aquele lance de que sabendo o futuro não é possível mudar o futuro, porque até mesmo a visão do futuro no passado já aconteceu no futuro e inclusive essa visão do passado foi uma das coisas determinantes pra que o futuro fosse o que é no futuro; ou seja, mesmo que a gente tente mudar o futuro, não vai adiantar, porque vai ser justamente tentando mudar o futuro que a gente vai fazer bem o que tem que ser feito pra que o futuro aconteça como a gente não gostaria que ele acontecesse, certo?”

Ah, é que diferentes obras retratam a viagem no tempo de diferentes maneiras, nem sempre tem a mesma lógica – eu respondi. 

Acho melhor a gente não mexer com isso, na real; me arrependi de ter pegado o livro, eu não tinha pensado em todos esses paradoxos e tal – disse a Nana, e nesse momento ela demonstrou uma tristeza que me pareceu bem misteriosa e ao mesmo tempo encantadora; enxerguei ela como ainda não tinha enxergado: como uma pessoa que busca incessantemente algum tipo de paz interior, tentando fazer o bem, mas que vive cheia de dúvidas e angústias fortíssimas. Me enxerguei nela, e, quando vi, ela também tava me olhando.

CÊS SÃO MUITO CAGÃO MESMO – falou Matusalém, quando a Nana saiu da sala dizendo que ia guardar o livro na estante do quarto. 

Nós não comentamos sobre isso (o que eu achei estranho), mas eu fiquei muito curioso sobre qual era o motivo pro nome do livro ser JONAS PASTELEIRO, já que eu nunca fui um pasteleiro, na verdade acho que eu nunca fiz pastel em toda a minha vida – mas eu também acabei não puxando esse assunto e ficou por isso mesmo. “É, acho que o ideal é não mexer com isso de viagem no tempo, vamo indo e deu; vai que a gente tenta algo diferente e acaba dando um tilt no universo e sei lá, a gente acorda como uns bolsonarista e o mundo inteiro tudo invertido, deus me livre, eu abro mão do meu espeto pra isso não acontecer, com certeza”, falou o Gabriel. Essa é a humildade que eu vejo no Gabriel e que também me fascina: o cara consegue mudar de ideia e conversar – talvez essas sejam as principais capacidades que faltam hoje em dia por todos os lados; a convivência em sociedade virou uma competição constante de quem é mais_________, e essa linha pode ser preenchida com qualquer coisa. Quem tá mais certo, quem é mais militante, quem tem mais coragem, quem chegou primeiro, e por aí vai; tá cada vez mais raro achar pessoas que se preocupam mesmo com os principais objetivos, é tudo pautado nas pequeníssimas conquistas momentâneas.

Tá, então vamo lá? – disse a Nana, e todos concordamos.

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Descemos a rua da ladeira ouvindo o barulho dos ratos, mas a noite não tava tão silenciosa assim: era possível ouvir as conversas e os gritos dos mendigos ali na Praça da Alfândega, e, quando chegamos na Rua da Praia, na frente da praça, um grande grupo deles já tava formado nos esperando – o líder, flutuando acima dos outros, emanava a luz verde que iluminava tudo ao redor. 

CUPINCHAS, DEIXEM ESSE PESSOAL SE APROXIMAR, o líder exclamou, com uma voz extremamente poderosa. Chegamos mais perto do líder flutuante e senti um pouco de medo diante da grandiosidade daquele ser – segurei a mão da Nana, e ela apertou forte a minha.

TÔ LIGADO EM QUEM VOCÊS SÃO E DEVO AVISAR: APESAR DE TEREM SIDO ALERTADOS PELA NONA E PELO EREMITA DA IMPORTÂNCIA DA MISSÃO QUE ESTÃO REALIZANDO, VOCÊS AINDA NÃO TÊM A REAL DIMENSÃO DO NEGÓCIO. O FUTURO DO PLANETA INTEIRO DEPENDE DO SUCESSO DE VOCÊS NESSA MISSÃO. POR ISSO, É NECESSÁRIO QUE ESTEJAM BEM TREINADOS PRO QUE VÃO TER QUE ENFRENTAR. APRESENTO A VOCÊS, O BESOURO ROLA-BOSTA!!!!!

Por mais que eu não quisesse acreditar, por mais que meus olhos se recusassem a ver, o que apareceu diante de nós era real: de dentro do chão, abrindo um enorme buraco, saiu um gigantesco besouro rola-bosta, e depois dele a própria bola de merda, também gigante, apareceu e já veio rolando na nossa direção – mas cabe explicar: a bola gigante de bosta não era composta apenas do mais puro cocô; grudados na bola de merda como larvas estavam centenas de bolsonaristas fardados com suas camisetas verde e amarelo, todos com as garras e os dentes afiados pra fora. Eu e a Nana apertamos nossas mãos ainda mais forte, mas logo tivemos que nos soltar, pra que fosse possível fugir da bola, que tava quase nos atropelando.  

CUIDEM DA BOLA, QUE EU CUIDO DO BESOURO, berrou a Nana e saiu correndo.

Eu, o Gabriel e o Matús conseguimos desviar da bola, que seguiu rolando até parar e voltar. EU TENHO UMA IDEIA, gritou o Matusalém, LIVROS! A GENTE JOGA UNS LIVROS PRA BOLA ABSORVER, É O PONTO FRACO DELES, SERÁ QUE O SEBO ALI EM CIMA AINDA TÁ ABERTO? A Nana pelo jeito ouviu isso que Matús gritou, porque parou de correr na direção do besouro e gritou SIIIM! ACHO QUE VAI TÁ ABERTO, O SEU CLÓVIS MORA LÁ! SENÃO BATE NA CAMPAINHA E EXPLICA, QUE ELE VAI NOS AJUDAR. Então decidimos que o Gabriel e o Matusalém iriam lá buscar livros enquanto eu ia distrair a bola de merda pra Nana conseguir derrotar o besouro. Fiquei atraindo a bola pra longe dela, chamando a atenção pra outros lados, mas não pude deixar de dar umas espiadas no que a Nana tava fazendo: eu não tinha reparado até então, mas logo percebi que ela tava carregando uma pequena bolsa com uma alça longa atravessada no corpo, uma bolsa daquelas com umas estampas indianas; e foi de dentro dessa bolsa que ela tirou a arma que nenhum de nós tinha visto – uma adaga de prata toda bonita, ornada com alguns diamantes e entalhes artísticos. Com o besouro tentando acertar ela com seus chifres, ela pulava de um lado pro outro, desviando com muita destreza dos golpes do enorme animal; enquanto isso, um campo de energia azul se formava em volta da adaga, que ela segurava na mão direita, usando a esquerda pra fazer sinais místicos. Eu já tava extremamente empolgado com a intensidade daquela cena, desviando da bola de merda e escutando o barulho das bocas dos bolsonaristas grudados abrindo e fechando, mas uma emoção ainda mais forte tomou conta de mim e de repente senti que aquela era a coisa mais importante em toda a minha vida, a minha vivência mais determinante, não só aquele momento, mas toda essa história que vinha acontecendo. E então, quando a bola se afastou mais uma vez, e eu vi o Gabriel e o Matús dobrando a esquina da ladeira com sacolas carregadas de livros, olhei pra Nana e percebi que, numa vacilada, ela foi atingida na perna pelos chifres do besouro.

A cada livro que era jogado na bola e absorvido por ela, a bola de bolsonaristas se desintegrava um pouco e deixava uns caídos mortos pelo caminho – nós três demos conta de destruir a bola de merda com os livros ao mesmo tempo em que observávamos a Nana fazendo um movimento final e lançando com força sua adaga mística, que voou pelo ar em mil direções, dilacerando o besouro em pedaços. No fim, uma grande trilha de merda e de monstros verde e amarelo ficou pelo chão, e um enorme cadáver despedaçado de besouro rola-bosta foi absorvido de volta pela terra quando tudo terminou. Aos poucos os mendigos foram reaparecendo, e nós três fomos na direção da Nana, que tava caída no chão, machucada.

FODA PRA CARALHO, gritou o líder dos mendigos, voltando a flutuar sobre todos, VOCÊS PROVARAM QUE CONSEGUIRÃO CUMPRIR SUA MISSÃO. COMO RECOMPENSA, VOU CURAR O FERIMENTO DA MOÇA. E começou a voar lixo de todos os lugares na direção da Nana, e o lixo se envolveu na perna dela com uma forte luz verde – quando parou, desapareceu todo o lixo voador, e a perna dela tava curada.

AGORA, PODEM SEGUIR VIAGEM, disse o líder dos mendigos, e todos nos aplaudiram.


Rafael Escobar nasceu e vive em Porto Alegre. É autor de “Elogio dos tratados sobre a crítica dos discursos” (Libretos, 2017) e de “Bando de desgraçado” (Ornitorrinco, 2018).

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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