Retrato escrito de Porto Alegre: O beijo na parede, de Jeferson Tenório

Por Ângelo Chemello Pereira

“Alugamos um quarto no centro. Era um muquifo terrível. Meu pai escolhia esses lugares a dedo. Ficamos dois dias por lá. Não sei como meu pai conseguiu alugar uma casinha entre a Voluntários da Pátria e a Av. Farrapos. Se é que se pode chamar aquilo de casa, pois era tudo muito precário. Assim que nos acomodamos, meu pai começou a ter sorte no jogo do osso e também na canastra. E por algum tempo a gente conseguiu se manter longe da fome. Eu fui para a escola por minha conta e risco, pois se fosse esperar pelo meu pai, nada acontecia. Eu ia a pé, mesmo a escola ficando a alguns quilômetros de onde a gente morava”.

Foi nesse lugar, entre a Voluntários e a Farrapos, que começou a vida de João em Porto Alegre. Ele, um menino de dez anos, que vem com o pai da cidade do Rio de Janeiro depois de perder a mãe de forma prematura. É o próprio João quem nos narra a história em O beijo na parede, do escritor Jeferson Tenório. E, como já nos mostra o recorte acima, trata-se de um guri que foi atrás dos estudos para dar conta da própria vida.

O relato de João é de uma dureza impressionante. Além da perda da mãe, ele também vê morrer o pai. Dali em diante o percurso da maturidade precisa se construir com máxima urgência. Então João trabalha atrás de matar a fome e de superar a crueza dos dias que se seguem. Tudo isso sem muito choro na busca da superação de momentos difíceis na capital gaúcha. Cidade sem pena, que coloca o garoto faminto na frente da famosa lanchonete. 

”Houve uma semana que choveu durante três dias, e eu não tinha faturado quase nada com a minha caixa de engraxate. Vagava pela praça da Alfândega com uma fome de dar até tontura. Parei embaixo de uma marquise na frente do McDonald’s porque a chuva estava muito forte. Um homem tentando se proteger parou do meu lado. Ficou passando a mão no cabelo como que tentando tirar o excesso de água. Olhei para os sapatos dele. Eram novos. Tão novos que ainda brilhavam mesmo molhados. O homem olhou para mim e para a minha caixa. Depois perguntou quanto era o serviço. Olhei primeiro para as roupas dele, que também pareciam roupas novas. Talvez fosse cheio da grana, então pensei em pedir o dobro, mas eu sabia que ele não ia querer engraxar os sapatos novos, ainda por cima num dia como aquele”.

Se temos o João engraxate, temos também o garoto que traz consigo a curiosidade da leitura. Então essa Porto Alegre, que é tão difícil em muitos aspectos, se mostra uma personagem importante e transformadora. Pois é ali, na vitrine da livraria de rua, no centro, que o mundo fascinante da literatura se oferece para esse menino que um dia resolveu escrever a coleção de suas memórias. 

Vai, João, conta pra gente como foi.

“Os dois se foram. A moça ainda olhou para trás e me acenou. Eu também acenei para ela. Quando ela se virou, comecei a segui-los. A chuva tinha diminuído. Eles entraram numa livraria na Rua Riachuelo. Eu fiquei do outro lado olhando os dois. Ficaram um tempão lá dentro. Escolheram muitos livros, e eu pensei que eu mal conseguia terminar de ler um livro quanto mais aquela quantidade toda. Quando eles iam saindo, me escondi atrás de um carro. Depois fui até a frente da livraria para olhar a capa dos livros. Lá dentro havia um senhor barbudo que parecia ser o dono do lugar. Eu até pensei em entrar, mas aquele barbudo poderia achar que eu estava ali para roubar”.

Ângelo Chemello Pereira é formado em Publicidade e mestrando em Literatura.

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Este texto faz parte da revista digital Parêntese publicada em 3 de janeiro de 2020.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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