Sergio Faraco: Um escritor sempre pensa que vai salvar alguém de alguma coisa

Sergio Faraco (Acervo da editora L&PM)

Aos oitenta anos, Sergio Faraco reconta episódios que fazem visitar seu passado na vida e na literatura, desde o Alegrete até a União Soviética

Por Luís Augusto Fischer e Cláudia Laitano

Talvez todo grande artista seja necessariamente um singular, alguém irrepetível no rigor do termo. Sergio Faraco é um deles, sem margem a dúvidas.

Completando 80 anos neste julho da pandemia, Faraco é reconhecido como um dos grandes há tempos. No Rio Grande do Sul, desde a virada dos anos 1970 para os 80. Isso quer dizer que há 40 anos ele é um clássico, quer dizer, um artista reconhecido pela sua aldeia como autor de livros imprescindíveis e, talvez não menos, como uma figura de referência. 

No Brasil, sua fama é relativamente escassa – mas quem são os grandes artistas que vivem fora do centro a gozar de fama merecida? E gaúchos, quem são esses? Faraco, talvez como Iberê Camargo ou Vitor Ramil, para usar comparações enviesadas mas precisas, são cultuados por público fiel mas não óbvio, nem hegemônico. Melhor assim, talvez. 

Como Simões Lopes Neto, Faraco tem nos contos seu ponto magno, mas é autor de obra vasta – como tradutor, antologista, memorialista, cronista, biógrafo e historiador digamos amador. Como o ilustre pelotense contista – e o pintor da Restinga Seca e o cancionista pelotense, por igual – é rigoroso com as formas que pratica, não tolerando frouxidão, improviso, trivialidade, esses alimentos para o circo de amenidades que ronda a vida cultural. Faraco não é de nenhuma turma.

Há em seus contos e em sua vida de intelectual, para além disso, um ethos cada vez mais raro, que combina irresignação, forte autoconsciência, solidariedade, voluntarismo e algo mais. O resultado é uma voz narrativa – que parece estar em todos os seus textos, ficção ou não – firme, nítida, tão cortante quanto discreta, longe de toda arrogância e de qualquer estardalhaço. Síntese admirável, de que sua literatura dá testemunho certo.

Cláudia Laitano e eu, que o conhecemos e admiramos há décadas, propusemos por email uma série de perguntas, que vão aqui por ele respondidas. Uma leitura que vai ajudar a entender mais sua visão das coisas e dos homens.  

Parêntese – Faraco, a primeira pergunta é: o que aconteceu depois que o homem Sergio Faraco entrou pelo portão de casa, ao retornar daquele impressionante périplo pela União Soviética? Quer dizer: cadê o segundo volume das tuas memórias? A pergunta é tanto mais forte quando se sabe que a grande qualidade de Lágrimas na chuva foi reconhecida imediatamente pelos leitores.

Sérgio Faraco – Para responder, preciso voltar ao Lágrimas na chuva. Levei quase 40 anos para aprontá-lo. Minhas versões não ultrapassavam o desafogo, a expressão sentimental. As tentativas se repetiam ano a ano, assim como os fracassos. Então passei a contar o possível livro a escritores amigos, Moacyr Scliar, Luís Augusto Fischer, Luiz Antônio de Assis Brasil, na esperança de poder organizar aqueles episódios que, em meus pensamentos, eram caóticos. “Falando, as imagens são distintas, no pensamento estão amontoadas”, teria dito Temístocles ao Rei da Pérsia. Quando pressenti que o expediente podia funcionar, comecei a escrever o livro e a publicá-lo em capítulos semanais no jornal A Notícia, de São Luiz Gonzaga, do qual era redator meu amigo Newton Alvim, e o compromisso a cada sete dias também me fez persistir. Após o lançamento, em 2002, muitas pessoas cobraram e ainda têm cobrado a continuação. Entendo. Se contei o que aconteceu na Rússia, não deveria contar o que aconteceu no regresso ao Brasil, durante a ditadura militar? Bem, o original de Lágrimas na chuva tinha 11 capítulos além dos 33 publicados. Narravam os depoimentos que tive de prestar em dois quartéis, a prisão na sede da Interpol, como se eu fosse um criminoso internacional, e demais tribulações comuns àquela conjuntura. Não os incluí no livro porque eram oscilantes, distensos, e eram justamente as partes que eu não narrara a ninguém nem publicara em A Noticia, e assim me achava de volta aos desacertos iniciais dessas memórias. Ao retomá-los nos anos seguintes, perpetrei a façanha de torná-los ainda mais problemáticos. Há que considerar também que foram escritos inúmeros livros sobre a ditadura. Não teria sentido aumentar a lista com outro que relataria fatos parecidos, com a agravante de ser mal escrito. O autor tem o direito de não publicar o que não o convence.

P – Falando da tua formação, mas mantendo no foco a ida à URSS: tu tinhas leituras de soviéticos? E de russos? Era coisa de predileção em relação a outras leituras da juventude? Tu voltaste à Europa oriental depois daquela temporada? Por quê? Olhando à distância, o que te ocorre, nas profundezas da tua percepção, sobre essa aventura de ir à URSS para um ano de estudos? Que sonhos eram aqueles?

SF – Não voltei à Europa depois de 1965. Minha única viagem internacional desde então foi minúscula, em 2018 estive em Montevidéu com minha mulher para comemorar nossos 50 anos de casamento. Recuso-me a viajar de avião. Para que pudesse embarcar me deram 2mg de Rivotril e então não fui. Me levaram.

Quando guri, lia gibis, mas lembro de ter feito, aos 13 ou 14 anos, nas férias escolares, uma leitura assustadora, as 500 páginas do livro Escolhi a liberdade, que pertencia a meu pai. O autor, Victor Kravchenko, relatava os crimes de Stálin. Mal sabia o guri que, menos de uma década após o “discurso secreto” de Kruschov, em 1956, ele também estaria na Rússia, a braços com os resíduos do stalinismo. Pouco depois, li A expedição Kon-Tiki, do norueguês Thor Heyerdahl, que ganhei de aniversário quando fiz 15 anos. Comecei a ler mais no quartel. Dos onze meses em que fui soldado, em 1958, seis passei na cadeia, e só não foi um período despiciendo porque minha irmã, Rita, costumava me emprestar seus livros. De literatura russa, meu conhecimento naqueles anos era escasso, penso ter lido só os contistas. Na coleção Maravilhas do conto universal havia um volume dedicado aos russos, Gogol, Lermontov, Turgueniev, Tchekov, Gorki et alii, um conto de cada um. Ainda tenho em minha biblioteca. Numa das páginas iniciais está escrito: “Lido de 19/7/60 a 31/7/60”.

Não foi a literatura que me levou à União Soviética. Em Blumenau, onde aos 22 anos eu era Chefe de Secretaria de um órgão judiciário, conheci um advogado de sindicatos operários que era um prócer do Partido Comunista Brasileiro em Santa Catarina, Francisco José Pereira, uma grande amizade que derivou de uma baderna na sala de audiências: não permiti que ele fosse agredido pelos patronos e prepostos de uma grande fábrica local. Como eu tinha certa simpatia pelo socialismo, um dia ele me convidou para entrar no PCB. Minha atuação se restringia ao auxílio financeiro. No ano seguinte, ele me indicou como representante de Santa Catarina num grupo de membros do partido que iam estudar em Moscou e também na RDA [a República Democrática Alemã, a Alemanha Oriental dos tempos da Guerra Fria]. Aceitei porque desejava conhecer a URSS e saber se de fato funcionava aquele regime. A temporada na RDA não se confirmou.

Em Moscou, 1964. (Foto: acervo pessoal)

P – A tua intimidade com a vida campeira existe desde sempre? Tu viveste experiências pessoais importantes no campo? Em que medida entra nessa tua formação a literatura gauchesca (ou de tema campeiro, mais genericamente)? Qual era ela? Que autores?

SF Desde sempre, mas não como leitura. Meu avô materno era estancieiro em Itaqui, minha irmã Rita e eu íamos para lá todos os anos, permanecíamos uns quantos meses. Aos 11/12 anos eu era um guri campeiro, de manhã cedo acompanhava a peonada no galpão para o assado do sangrador – a parte do peito da rês onde, para matá-la, crava-se a faca –, depois saía com eles para o campo, nas reculutas da manhã. À tardinha, ajudava na recolha dos terneiros. Minha irmã e eu costumávamos saltar com os cavalos de uso diário, e os obstáculos eram velhos lastros de cama empilhados. Mais tarde, minha família adquiriu uma chácara em Alegrete e, se não estávamos em Itaqui, era lá que passávamos as férias. Eram duas quadras de sesmaria e mais uma e meia que arrendávamos, mais ou menos 300 hectares para a criação de bovinos e ovinos, com lenheiras, capões e uma picada que percorríamos até o estreito fim e ali sentávamos para escutar os pios do passaredo e beber água fresca mergulhando o rosto na cacimba. Um dia um cavalo disparou comigo mato adentro, a galharia do arvoredo me derrubou e fiquei muito machucado.

Meu passado, na segunda metade dos 60, não é edificante. Quando trabalhei em Uruguaiana, fiz amizade com caçadores e os acompanhei na caça aos capinchos no Rio Uruguai. Hoje eles andam pelas casas, naquele tempo e naquela região eram ariscos. A caça era à noite, por causa da fiscalização, e era de chalana, com um silibim a bateria para enxergá-los na margem brasileira – silibim é a corruptela de sealed-beam, o farol dos carros. Com os estampidos, eles refluíam para o mato cerrado e então, já de madrugada, era a vez dos cachorros capincheiros, e tínhamos de levar apitos para avisar onde andávamos e evitar que atirassem uns nos outros. Era da carne, do couro, da banha que aqueles homens viviam. Nunca atirei num capincho. Acompanhava-os porque, no fim da noite, tinha diversão: cachaça, concurso de mentira, churrasco e o truco até clarear o dia.

Durante dois anos fiz contrabando pela Ponte Internacional. Precisava de dinheiro, assim como minha irmã, que já casada morava em Porto Alegre. Comprava vários tipos de cachmeres em Libres, ela vendia em Porto Alegre e dividíamos o lucro. Também trazia uísque, perfume, balas incendiárias, que eram proibidas no Brasil e os lavoureiros encomendavam, por causa das caturras, e quem vendia para mim era um garçom do Clube Cassino, em Alegrete, chamado Germano.

Tanto é certo que minha conexão com a vida campeira e, sobretudo, fronteiriça, não provém da literatura, que minhas leituras sempre foram distintas. Sou leitor, sobretudo, de Shakespeare, Hemingway, Bradbury, Moravia, Miller, Durrell, Simenon, García Márquez, Vargas Llosa, Borges, Quiroga, Machado, Eça. No Brasil de hoje, Lygia, Dalton, Mário Palmério, Jorge Amado, Erico e não direi outros porque vou lembrar alguns e esquecer os demais que também li com prazer. Quintana, claro, fiz uma antologia de seus poemas para a L&PM. Leio mais romances do que contos, e mais história antiga do que romances.

A literatura gauchesca, ou que outro nome tenha, nunca fez parte da minha formação, não costumava ler, exceto o Martín Fierro, alguns contos de Paco Espínola e dois ou três de Simões Lopes Neto, quando começaram a estudá-lo mais a fundo. Um ensaísta uruguaio escreveu que meus contos sofreram a influência de Mario Arregui. É anacronismo. Quando o traduzi já havia escrito todos os da primeira parte dos Contos completos, inclusive os inéditos que retrabalhei e acrescentei depois.

P – Houve na tua vida algum abismo, alguma vertigem, entre o Alegrete e Porto Alegre, ou entre o mundo pequeno e o grande mundo, o campo e a cidade? Quando e como se pode entrever isso? E entre esta parte do Brasil que tu conhecias (era só o Rio Grande e Santa Catarina?) e a Europa? Conta alguma.

SF – Acho que devo ser dispensado de evocar as estranhezas com que me defrontei no exterior, Lágrimas na chuva tirou várias edições. Além disso, não posso dizer que conheça certas cidades europeias. Estive duas vezes em Paris, duas vezes em Praga, uma em Amsterdam, mas foram estadias fugazes e então o que conheço mesmo, ou conhecia, é Moscou, são lugares do Cáucaso que penso ter mencionado no livro.

Minha primeira vez em Porto Alegre, como morador, remonta a 1954, quando meu pai me matriculou como aluno interno de um colégio religioso. Foi uma das fases mais detestáveis da minha vida, só comparável àquela em que fui soldado. Em Alegrete, era a época das primeiras namoradas, dos primeiros amigos, dos primeiros carnavais, dos banhos de rio, e de repente esses encantos da idade foram substituídos pela disciplina feroz, pela obrigação de ouvir missa em jejum às seis horas da manhã, pelos retiros espirituais em que era proibido falar e também pelos castigos a que submetiam um adolescente. Eu só podia sair do colégio no domingo e, nos primeiros meses, tinha de ir para a casa de um tio que era o responsável por mim em Porto Alegre, na Rua Barros Cassal. Num domingo de julho, ao retornar ao colégio no fim da tarde, comprei a revista O Cruzeiro, que trazia uma reportagem sobre o concurso de Miss Universo, com fotos de Martha Rocha e outras moças de maiô. No pátio, o irmão-prefeito da Divisão dos Médios literalmente me arrancou a revista das mãos e fui penalizado com duas semanas de clausura num depósito de móveis usados, de onde só podia sair para comer e dormir. Eu não era, devo convir, a vítima complacente. Era insubordinado, vadio. No final de 55 perdi o ano e me comunicaram que não poderia voltar no ano seguinte. No dia em que saí do colégio com a malinha em punho, rumo à casa do tio, o irmão-prefeito, na janela do dormitório no segundo piso, atirou meu colchão na rua.

Naquele ano eu estava interessado em outros assuntos. Meu pai autorizara que eu recebesse do colégio 25 cruzeiros por semana. Nos domingos, troquei a casa do tio pelo pradinho dos Moinhos de Vento, ia olhar os cavalos e apostar. Às vezes o bookmaker não permitia, por causa da idade, e eu procurava outro menos severo. Só não perdia tudo porque eram sagrados os miúdos do bonde e do cachorro-quente. Era aficionado de um cavalo, Major, pertencente ao Dr. Augusto Sisson, montado pelo jóquei João Carlindo. Eu o menciono porque esse cavalo ressuscitou quase meio século depois. Em 2003 o bibliófilo Waldemar Torres gravou um CD com meus contos. Num deles, A touca de bolinha, as vozes eram do radialista Vergara Marques e da netinha dele, Nathalia. Ao saber que, na adolescência e também nos primeiros anos 60, eu tinha sido turfista, Vergara gravou um segundo CD com a vitória de Major no Grande Prêmio Protetora do Turfe de 1955, que eu assistira. Quando me entregou, disse-lhe que precisávamos inverter nossos papéis, porque eu era seu admirador nos primeiros anos do Hipódromo do Cristal, quando ele transmitia as corridas no programa Turfe e boa música, da Rádio Itaí.

P – Na tua geração foi bastante típico o conto ser o foco de atenção, o veículo de expressão. Por quê? Te ocorre, vendo a coisa já panoramicamente, algum motivo? Dos teus contemporâneos, que viveram intensamente essa voga do conto nos anos 60 e 70, tu te identificas com algum, com alguns? Como?

SF – Como disse, raramente leio contos. Desconheço se há vínculos entre o que fiz e o que fizeram meus contemporâneos, nunca refleti a respeito, inclusive porque, me parece, é um assunto que não vem muito ao caso para um ficcionista, é mais apropriado para um crítico, um ensaísta.

É fato que o conto parece ter empolgado minha geração, mas este assunto também não me interessa muito. Se foi um fenômeno brasileiro, poderia, quem sabe, decorrer do grande número de suplementos literários que então circulavam em quase todos os estados. Não foi o meu caso. O conto, para mim, nunca foi um caminho opcional, foi o único.

P – Que conto teu te parece ter chegado mais perto daquilo que tu pretendias alcançar (ou, quem sabe, que superou tuas medidas)?

SF Quem falou em superação foi Hemingway, se não me engano na famosa entrevista ao Paris Review, mas terá sido força de expressão. Um escritor não se supera, só escreve de acordo com o que é capaz. Pode acontecer que, às vezes, ele desenvolva narrativas sem empregar todos os seus recursos. Elas não são, necessariamente, de menor calado, mas parecem sê-lo quando comparadas a outra ou outras em que o escritor foi obrigado a empregá-los.

A crítica costuma destacar contos bem distintos: Noite de matar um homem e Guapear com frangos entre os ditos regionais ou de fronteira, Majestic Hotel, Guerras Greco-pérsicas e Idolatria entre os ditos juvenis e Dançar tango em Porto Alegre e A dama do Bar Nevada entre os ditos urbanos. Suponho que estejam a dizer que os consideram os melhores. Inclino-me a ter mais simpatia pelos contos que me deram mais trabalho, e geralmente não são aqueles que os leitores preferem. O voo da garça-pequena é um conto que me satisfaz.

P – Como está acomodado em ti o fato de, a certa altura da tua vida, tu teres decidido parar de escrever ficção? Tu não és atacado de vez em quando por personagens ou histórias à procura de um autor?

SF – Sim, às vezes. Parei de escrever contos nos anos 90. Os que vieram depois e foram incluídos nos Contos completos já estavam quase prontos, pude melhorar e tornar publicáveis, como O céu não é tão longe e meia dúzia mais. Tenho outros tantos à espera de salvamento. E por que parei? Por que isto aconteceu? Traduzi mais de trinta livros, sendo que uns vinte antes de 1995. E ao pretender me identificar com o autor, com seu modo de narrar, para reproduzir em meu idioma, com mais propriedade, aquilo que ele constituiu no dele, acho, suponho, que a cada tradução eu ia perdendo um tanto de meu próprio modo. Perdendo meus arquétipos. É o que significa, para um trompetista, dedicar-se ao piano: ele vai perder a embocadura do trompete. Por outro lado, tenho um senso crítico severo. Percebi que não conseguiria escrever contos como os escrevia anteriormente e passei a fazer outras coisas.

P – E o romance: nunca te ocorreu tentar? Tentaste e não te pareceu bom o caminho? Por quê? Terá a ver com algo pessoal (de gosto, de limitação), com a matéria que tu frequentas literariamente (tanto no mundo campeiro e fronteiriço quando no mundo urbano), com o estado das coisas tal como te calhou conhecer (uma grande mudança no mundo da campanha, uma cidade grande mas provinciana)?

SF – Nunca tive a intenção e nunca tentei, meus “romances” acabam na sétima página. Sempre me ocorreram histórias de pequeno curso. É um gênero difícil. Às vezes, percebo nos romances segmentos em que a narrativa esmorece, mas em seguida retoma o compasso, vindo a constituir uma história que merece ser lida. No conto, isto não pode ocorrer. Se o contista erra em qualquer parte, o conto está perdido. É como comparar uma corrida de 100 metros a uma maratona.

Já as matérias que poderiam me conduzir a tal ou qual gênero… bem, alguns comentaristas entendem que, nos contos urbanos, trato de questões afetas à solidão, nos ditos juvenis da transição da infância para a adolescência, e nos contos fronteiriços, das dificuldades de adaptação dos indivíduos às novas ordens econômico-culturais que se estabelecem. Isso é o que dizem e até admito que possa ser assim, mas não escolho temas, escrevo histórias que entrevejo atrás do espelho, isto é, misturadas com as minhas e outras já sabidas ou supostas, e não as mudo para que venham a corresponder a qualquer situação. Também não escrevo contos deliberadamente. O resultado sempre é um conto porque é a única coisa que sei fazer.

P – E a tradução, como entrou na tua vida? Tu tens tradutores de eleição, modelares? Por quê? Conta alguma dessa tua faceta, tão importante para ti e para a literatura contemporânea.

SF – Minha primeira tradução, que acabou sendo determinante das demais, foi a dos contos de Mario Arregui, Cavalos do amanhecer, que conheci numa hora infame da história uruguaia. Em 15 ou 16 de dezembro de 1976, eu estava em Bella Unión, visitando parentes, e havia na cidade um clima carregado, um misto de consternação e revolta. Tinham sido torturados e assassinados pelos militares dois ativistas da Frente Ampla em Bella Unión, e naquele dia era o funeral de um deles, Saúl Facio, de 29 anos, que tinha sido namorado de uma das minhas primas. Três ou quatro dias antes, ocorrera o velório do outro, Dante Porta, de 36 anos. Os caixões lacrados foram entregues às famílias por oficiais do Regimento de Cavalaria nº 10, com a proibição de abrir. Essa medida foi sigilosamente ignorada durante a noite. O caixão de Dante tinha sido aberto por um primo dele e distante parente meu, o médico militar Atilio Sarasua Porta. Ele observara que Dante estava com uma gaze ensanguentada na boca e outra na têmpora esquerda, a mandíbula deslocada e um afundamento do tórax no flanco esquerdo. O caixão de Saúl foi aberto naquela madrugada pelo cunhado Milton Oxandabarath e o estado do corpo também indicava criminoso politraumatismo. Meus familiares estavam no velório e um dos que tinham ficado para trás, considerando perigoso que um estrangeiro comparecesse à cerimônia, levou-me a um bazar perto do porto, onde comprei dois livros de contos de Mario Arregui. Eu estava emocionado com aquele drama, e ao saber que Arregui também tinha sido preso e torturado, prometi a mim mesmo que, se os contos fossem bons, tentaria publicá-los no Brasil.

Levei nove meses traduzindo e me correspondendo com ele, e nossas cartas, mais tarde, foram publicadas no Uruguai e também no Brasil. Lembro-me de dois momentos. Ao traduzir o conto Lua de outubro, não sabia como chamar uma planta que Arregui menciona. Sem encontrar o termo em nenhum dos inúmeros dicionários de espanhol que possuo, telefonei para o consulado uruguaio em Porto Alegre. O funcionário conhecia a planta, mas ignorava o nome em português. Disse-me, contudo, que costumava vê-la em muitas casas da Rua Miguel Tostes. Fui até lá e o que vi na maioria dos jardins foram samambaias. Enviei um ramo para Arregui… por carta! A resposta confirmando, naqueles anos sem internet, só chegou um mês depois. No conto Os ladrões, o problema era semelhante. Arregui descreve a fabricação do pão e cita os instrumentos do padeiro. Para descobrir como se chamavam em nosso idioma, pedi ao proprietário de uma padaria de Ipanema que me deixasse acompanhar os trabalhos. No dia seguinte, de madrugada, lá estava eu nos fundos da padaria, anotando os nomes daquilo que os padeiros pegavam. Depois dessa tradução, fiz outras trinta e não queria traduzir mais por dinheiro nenhum, porque, como disse, era uma atividade que me prejudicava. A última foi As veias abertas da América Latina, em 2010, que só aceitei fazer porque foi um pedido do Galeano. 

P – Tua relação com a cultura brasileira hegemônica, parece que especialmente a do Rio de Janeiro, tem alguns episódios saborosos, embora tenham um quê de dramático. Uma foi a revisão de certo livro teu pela editora, alterando o tu para você etc.; outra foi aquela da tua resposta meio estabanada para o Celso Furtado, quando foste receber um prêmio na Academia Brasileira de Letras. Podes contar? E o que te parecem hoje essas passagens?

SF – Uma delas foi com a Editora Francisco Alves, do Rio de Janeiro, que em 1982 publicou o livro de Arregui. São histórias de campo, com exceção de dois ou três relatos ambientados em subúrbios de pequenas cidades uruguaias. Eu tinha usado na tradução o nosso linguajar, o do rio-grandense, mais adequado àqueles relatos. A editora fez um trabalho minuciosamente destrutivo, substituindo o tu por você e deixando o verbo na segunda pessoa, o guri por garoto, isso sem falar nos erros crassos que mudavam o sentido do texto, como trocar percussor por percurso, e nas trocas de linhas. Em 2003 a L&PM reeditou esse livro com o texto corrigido e os contos foram apreciados em sua relativa integridade. Um deles, Lua de outubro, foi filmado por Henrique de Freitas Lima. “Debalde se lança a rede àquele que tem asas”, disse o sábio Salomão. Um desastre semelhante aconteceu com um livro meu sobre o processo dos Inconfidentes, publicado pela Editora Vozes, de Petrópolis, com tantos erros e aberrações que tive de ligar para o diretor e prevenir que processaria a editora se o distribuísse. Ele prometeu não distribuir.

O outro episódio é conhecido. É de 1999, quando minha mulher e eu fomos ao Rio de Janeiro, onde eu receberia o Prêmio de Ficção da Academia Brasileira de Letras, atribuído à coletânea Dançar tango em Porto Alegre. No chá da tarde, antes da solenidade, um dos acadêmicos, Murilo Melo Filho, ofereceu-se gentilmente para me apresentar aos demais e um deles foi Celso Furtado, que também estava com a esposa. Celso comentou que tinha gostado do livro e votara nele, mas que para ler a primeira parte, dos contos fronteiriços, era recomendável ter à mão um dicionário de termos regionais. Eu o admirava e sempre o admirei depois, mas quando ele disse aquilo, de pronto me ocorreu que ninguém pedia dicionário para ler Guimarães Rosa, Jorge Amado, José Lins do Rêgo ou Mário Palmério, e então respondi, quase sem querer – e quando me dei conta já havia respondido –, que para ler a segunda e a terceira parte, de contos urbanos, o Aurelião lhe bastava. Ele pediu licença e se afastou. Foi uma grosseria da qual não canso de me arrepender. Não sou assim. Às vezes me pergunto se esse episódio não resultou de minha indisposição por ter de comparecer à academia, após as três desfeitas que fez a Mario Quintana. Embora tivesse dois amigos queridos entre seus membros, Lêdo Ivo e Carlos Nejar, só estava lá para receber o dinheiro do prêmio, pois me haviam dito que era impossível enviar por passe bancário, como eu pedira. Aliás, o desagrado ainda persiste, não faz muito a academia descartou esse grande intelectual brasileiro, o Fábio Lucas, em favor de um jornalista da TV Globo. Tenho cópia de uma carta de Erico ao meu tio Eduardo Faraco, de 9 de agosto de 1965. Ele estava no Rio de Janeiro para autografar O senhor embaixador e teve de aceitar o convite para um chá na academia. Ele comenta: “Impossível narrar por carta o que foi essa viagem à aurora do mundo”. Erico também não gostava da academia. Quando Vianna Moog pediu insistentemente que se candidatasse, ele respondeu: “Só se for na tua vaga”.

P – E com São Paulo, que atualmente joga de mão na cena cultural brasileira, como é tua relação? Tens algum paulista entre teus escritores de eleição?

SF – Se os paulistas estão jogando de mão, não é no meu truco. Nem sei quem são os escritores de São Paulo, exceto a Lygia e o Fábio Lucas. Tem também o Ruffato. A Lygia eu amo não só como escritora, também a pessoa que ela é. Tenho todos os livros dela autografados e a maioria ela mesma me enviou. Nós nos correspondíamos, cartas escritas à mão. Quem também conheço em São Paulo é o Jacob Klintowitz, notável crítico de arte, tem uma bonita coletânea de contos e outros 100 livros publicados. Reconheço, confesso que tenho uma grande dificuldade de ler autores contemporâneos, seja de São Paulo ou de qualquer outro lugar. Prefiro reler meus velhos conhecidos, que me parecem tão atuais como o jornal de hoje.

P – Queria te pedir ainda que fizesses depoimentos, eventualmente relatando alguma história interessante, com figuras da tua amizade que já não contam entre os vivos: Quintana (sobre quem escreveste muito, já), Rubem Mauro Machado, Scliar, Arnaldo Campos. Algum outro?

SF – Com Rubem Mauro eu não tinha muita intimidade, ele morava no Rio de Janeiro, mas nossas relações eram cordiais, eventualmente nos correspondíamos por e-mail. A última vez foi no final de 2018, pouco antes de seu falecimento. Ele queria publicar o conto As palavras certas no Suplemento Literário de Minas Gerais, que eu distribuía aqui no Sul, e me escreveu perguntando como devia proceder. Eu o recomendei ao escritor Jaime Prado Gouvêa, diretor do suplemento. Houve uma troca de mensagens entre ambos e Rubem contou que, em janeiro, ia fazer uma cirurgia de revascularização. Quando Jaime o avisou que publicaria o conto na edição inaugural de 2019, quem respondeu foi o irmão do Rubem, Milton, informando que ele falecera durante a cirurgia.

Sobre Quintana escrevi muitas crônicas, estão no livro O pão e a esfinge seguido de Quintana e eu, que saiu em 2008, mas vou contar uma história que pouca gente conhece. É de 1986. Eu precisava falar com ele e fui ao Hotel Royal, na Rua Marechal Floriano, onde ele morava – um nobre gesto do Falcão, nosso grande jogador. Era um assunto meteórico e, como havia muitos automóveis estacionados ao longo da quadra, deixei o meu em fila dupla. Quintana estava deitado de bruços na cama, olhando um caderno. Quando me viu, sentou-se. “Terminei o soneto”, ele disse. Soneto? Que soneto? “O da folha seca”. Continuei sem entender. Ele custou, mas sempre percebeu que, se conversara a respeito com alguém, fora com outra pessoa. Era um caso pitoresco. Em anos bem recuados, ele tinha escrito um soneto cujo primeiro verso trazia uma comparação: “Como folha seca…” Lera-o para Cecília Meireles e ela fizera uma graça: “Comes folhas secas? Ah, não, vai fazer aquele barulhinho, rac-rac-rac”. Aborrecido, ele resolvera mudar o começo e acabara cortando outras coisas. Sobreviveram apenas os dois quartetos. Agora estávamos em 1986, era abril. No mês anterior morrera-lhe um grande amigo. Tão pesada lhe fora essa morte que a assumira quase como se fosse a sua e, no sofrimento da própria imagem perdida, retomara o soneto inacabado, escrevendo os tercetos. Leu-o em voz alta, era lindo e me comovi. “Queres uma cópia”, ele perguntou. Sim, eu queria, mas… ele ia copiar à mão! Aquilo ia demorar. Não, agora não, eu disse, estou com o carro no meio da rua. Tratei do que me levara até lá e fui embora. Logo me arrependi. Que me importavam multas ou carros guinchados, se em meu bolso estivesse um poema manuscrito de meu amigo? Em casa, telefonei para o hotel. Tive de falar com a secretária, ele ouvia mal ao telefone. “Pede que ele faça a cópia, vou buscar”, e enfatizei: “Quero esse soneto, entendeste?” Ele não copiou. Pensei que estivesse zangado com minha pressa, e em encontros posteriores não reclamei. No ano seguinte, compreendi o que ocorrera. A secretária dera o recado errado e a prova estava na página 133 do livro Preparativos de viagem: o soneto da folha seca a mim dedicado. Foi desse modo que, sem querer, apossei-me de um sentimento poético que, na verdade, homenageava outro amigo. Quem tiver o livro deve fazer a correção. Onde se lê Sergio Faraco, leia-se Josué Guimarães.

O Scliar, lembro uma viagem que fizemos juntos. Nos anos 70 havia uma promoção do governo estadual chamada Projeto Cultur e compreendia seminários de literatura em cidades do interior. Em certa ocasião realizou-se em Bagé e, entre os escritores convidados, estávamos Scliar e eu. Combinamos ir no meu carro e numa calorosa madrugada fui buscá-lo em Petrópolis. Tempo, havia de sobra. Nosso compromisso, um encontro com o público, era às quatro da tarde. Scliar, no dia-a-dia, era um profissional atarefado e sempre andava com pressa, mas outro era o homem na vilegiatura, bem-disposto conversador e não menos qualificado ouvinte. Ia nossa prosa, portanto, mui animada. Ele se ofereceu para dirigir, de bom grado aceitei e seguimos proseando. Deram as nove, as dez, e seguíamos proseando. Depois do almoço, ele reassumiu o volante. Dirigia cuidadosa e serenamente, bem ao contrário do guri que, alucinado, conduzia o carrinho de Matias naquele inesquecível Trem fantasma, um de seus contos mais celebrados. E deu a uma, e quando deram as duas, sem que terminasse a viagem, passei a desconfiar do motorista e sugeri que tomássemos informações. Vinha um velho de bicicleta pelo acostamento e perguntei se faltava muito para chegarmos a Bagé. Bastante, disse o velho. Não pode, retruquei, deve estar aí na frente. O velho espichou o beiço para a estrada e resmungou: “Aí na frente, até ontem, tava São Gabriel”. Começamos a voltar. Aquilo já me cheirava a uma nova versão da história de Matias e eu me perguntava se teríamos de enfrentar, como o Matias, uma bruxa velha, um esqueleto, um cavalheiro na forca e duas damas apunhaladas. Mas o resto da viagem transcorreu em paz e à meia tarde chegamos a Bagé, a tempo de participar do final do encontro. No palco havia uma grande mesa, à qual nos sentamos, e logo um cidadão desconhecido acocorou-se atrás de nós, dando um aviso: vedavam-se os comentários políticos, pois havia familiares do General Médici na plateia. Pouco depois, quando mencionei, de passagem, o supérfluo que era o livro, num país em que as pessoas, na maioria, não dispunham do mínimo necessário para uma existência digna, o mediador me cassou a palavra, observando que não estávamos ali para debater aquelas questões e sim as estritamente literárias. Foi muito aplaudido. Era outro o trem fantasma nos anos 70.

Entre os incidentes marcantes daqueles anos está a passagem de Mario Arregui pela nossa cidade. Era uma figura extraordinária, paradoxal, um selvagem letrado, capaz de recitar William Blake enquanto apagava o palheiro em teu carpete. Ele veio para autografar seu livro brasileiro. Tão logo chegou a Porto Alegre pedi a um jornalista que fosse ao City Hotel entrevistá-lo, encarecendo que evitasse as questões políticas. A ditadura ainda sufocava o Uruguai e suas prisões tinham sido tão brutais que delas herdara um marca-passo. No dia seguinte, ao abri o jornal, ai de mim. O jornalista me desatendera e, conquanto pudesse ter outras e até melhores intenções, agira a contrario sensu, ressaltando a subversão de Arregui: ele escreveu que, na entrevista, a situação uruguaia estivera em evidência, mas optara por não reproduzir os conceitos políticos do escritor para poupá-lo de mais uma prisão quando voltasse ao seu país…

Arregui autografou na feira. À noite, com representantes da editora carioca e alguns amigos, entre eles os escritores Laury Maciel e José Eduardo Degrazia, fomos jantar num restaurante chinês da Praça da Alfândega. Já bem tarde, veio à nossa mesa um homem de seus trinta e poucos anos, atlético, pletórico, cabelo à escovinha, identificando-se como uruguaio exilado, admirador de Arregui, mas comecei a desconfiar quando propôs ao escritor um passeio de táxi pelos bairros da cidade. Arregui, que nutria uma fé cega na humanidade, aceitou. Para o alívio de sua esposa, que também estranhara o convite, pude convencê-lo de que, em hora tão entrada, não convinha deixar-se guiar por um desconhecido. Na outra noite jantei com o casal no mezanino do hotel. Eu estava de costas para a escada. Em dado momento vi que a mulher de Arregui, visivelmente inquieta, olhava para algo atrás de mim. Voltei-me e ainda pude ver o rosto do homem, antes que se ocultasse. Era o mesmo do restaurante chinês. Levantei-me às pressas, quis alcançá-lo e ainda o avistei quando ganhava a rua, mas o perdi no meio da multidão que convergia para o Largo da Prefeitura, onde haveria um comício. Podia não ser nada, mas… e se fosse? Ao fim a refeição, acompanhei os visitantes até o quarto. Na portaria, recomendei que não permitissem visitas ou chamadas locais, exceto as minhas, e telefonei ao jornalista Paulo Gastal, no Correio do Povo, pedindo que, no dia seguinte, noticiasse a viagem de Arregui para o centro do país. No Largo da Prefeitura sucediam-se os oradores e permaneci na porta do hotel, ouvindo os discursos. Terminado o comício, continuei no mesmo lugar, a vigiar quem entrava. Depois já não entrava ninguém, só a madrugada, e eu ali, encostado num pilar do passadiço, a pestanejar meu sono e meu cansaço. De manhã, transferi o casal para o Preto Hotel. No Correio, a nota falsa de Paulo Gastal: Arregui seguia para São Paulo. Mas foi para Gramado. À tardinha, quando retornou, eu já comprara sua passagem para Montevidéu, no ônibus da noite − a saúde não lhe consentia viagens aéreas. Ninguém sabia da troca de hotel, o dia e a hora da viagem eram um segredo meu, mas pouco antes do embarque, já na Estação Rodoviária, o homem tornou a aparecer. Eu o vi de longe, aproximando-se com pressa, e fui ao seu encontro para interpelá-lo. Vendo-me, contudo, e era a terceira vez que me via em seu caminho, deu meia-volta e foi embora.

Na Feira do Livro de 1999, 17 anos depois da visita de Arregui a Porto Alegre, o acaso me colocou novamente frente a frente com o intrigante personagem. Ele abordou o jornalista Ruy Carlos Ostermann, com quem eu conversava, e apresentou-se, queria tratar de um assunto esportivo. Engordara. E a calvície de hirtas farripas, com o concurso de uma pornográfica barriga, dava-lhe um ar de barnabé jubilado, que a sacola de ráfia ao braço reforçava. Não me reconheceu, eu sim e o reconheceria se o visse em Cochabamba. Lembras de 82, perguntei. Ele me olhou e pronunciou meu nome como quem duvida. Ouviu calado enquanto eu contava ao Ruy, palavra por palavra, o que foi contado acima. Ele então falou, disse que se esquivara de mim por pensar que eu fosse um policial da ditadura. Eu? Bem, era uma explicação plausível naquele tempo em que não podíamos confiar em ninguém, naquele tempo em que amigos, conhecidos e até colegas de serviço nos traíam. Mas se ele explicou algumas coisas, não explicou outras, como o seu conhecimento do dia e da hora da viagem. E se retirou abruptamente, como em 1982 no restaurante do City. Ainda hoje não sei o que pensar. Quem era o homem? Um agente da polícia política querendo intimidar? Um espia do consulado? Um exilado inconveniente com saudade da pátria? Agi como deveria ou, com a cumplicidade involuntária da esposa do escritor, deixei-me levar pelos receios próprios daqueles anos de horror? Mas estou certo de que não precisava ter vivido essa experiência, que em qualquer caso derivou da matéria jornalística. Quem a redigiu não se capacitara de que, às vezes, o dever de quem dá a notícia é justamente não dá-la.

Poderia falar também sobre Arnaldo Campos. Não éramos amigos próximos, só nos víamos nas livrarias que ele abriu e, mais tarde, no Brique da Redenção, onde ele mantinha uma banca de livros. Arnaldo estava com Alzheimer. Saiu a caminhar pela Avenida Farrapos e foi atropelado, fraturando a perna. Não podendo cuidar, a esposa o levou para a casa de uma sobrinha, em Gramado. Quando eu soube, fui visitá-lo. Era uma casa bem modesta no Dutra, bairro que os turistas não conhecem nem mesmo enxergam. Sua doença se arrastou por vários anos, eu o visitava duas vezes por mês. No começo ele ainda conversava, dizia meu nome ao me ouvir a voz quando eu chegava, depois a memória foi sumindo. Foram raras as outras visitas, apenas alguns amigos meus e um ou dois amigos dele. Seus últimos meses de vida foram desoladores. No velório, havia somente duas pessoas.

P – Que papel cumprem esses gostos teus por determinadas figuras e temas, como Shakespeare, a sinuca, o Titanic, etc., sobre os quais escreveste livros? Eles entram no lugar do negado segundo volume das memórias e do teu freio de mão puxado quanto a voltar à ficção? Agora tu andas pesquisando sobre o caso do assassinato de Aida Cury. Gostaríamos que tu falasses um pouco desse aspecto particular da tua vida intelectual: o apetite eclético e insaciável. E especificamente sobre Aída Cury: o que nesse crime atraiu tua atenção?

SF – Se algo me interessa muito, acaba por me dominar. Também escrevi um livro sobre um reino contemporâneo de assírios e babilônios cujas ruínas conheci no Cáucaso. Metade da edição foi adquirida pelo Curso de Armênio da USP, a outra metade se perdeu num alagamento do depósito da Editora da UFRGS. Mais tarde escrevi três sobre Tiradentes e a conjuração mineira. Também organizei uns 20 livros para a coleção de bolso da L&PM, a maioria por minha iniciativa. Não é só o tema que me empolga, é também a possibilidade de compartilhar aquilo que pesquisei e aprendi. Não creio que esse empenho de saber e informar esteja ligado à minha incapacidade de continuar o Lágrimas na chuva ou de perseverar na ficção. É uma paixão legítima. O caso de Aída Curi me fascinou desde a juventude. Tenho muitos livros sobre aquela tragédia, entre eles o de David Nasser, o responsável pela indignação popular naqueles anos, as três edições das memórias do monsenhor Maurício Curi, irmão de Aída, e uma raridade, o livro escrito pelo Dr. Sousa Neto, o juiz crucificado pela imprensa por ter inicialmente impronunciado os réus. É uma edição fora de comércio, de 1959. Tenho revistas antigas que tratam do caso, O Cruzeiro, Manchete, Fatos & Fotos, informações de jornais digitalizados, e no computador guardo a fonte essencial, as 800 páginas do processo criminal. Infelizmente, esta pesquisa talvez resulte apenas num pequeno ensaio, na minha idade não há mais tempo para grandes projetos. Pena que não comecei antes. A leitura parcial do processo me fez suspeitar, primeiro, que não é tão evidente que Aída tenha sido assassinada, e segundo, que o principal acusado e condenado já não estava no terraço do Edifício Rio Nobre quando houve o desfecho do episódio. E então me pergunto se o Dr. Sousa Neto, odiado por meio mundo no final dos anos 50, não terá sido o único de passo certo naquela confusa marcha penal.

P – Em julho, tu completas 80 anos. Qual a tua relação com a passagem do tempo e a ideia de finitude? Tu és o tipo de pessoa que gosta de ler e refletir sobre o assunto ou é algo que tu evitas pensar? Que tamanho tem o passado no teu presente?

SF – Vejo com naturalidade a aproximação da morte. Se ela é certa, inexistem razões para que esteja na ordem do dia. Penso, sim, na saúde, em projetos exequíveis a curto prazo e naquilo que preciso equacionar em minha vida privada. Não há nisso nenhum sentimento mórbido, apenas o desejo de que, sem mim, não tenham embaraços os que permanecem. Mas estou feliz, sadio e cheio de energia, ainda faço todos os serviços que uma casa requer, inclusive os que demandam grande esforço físico. Uma pessoa que chega a esta idade pode perfeitamente concluir que viveu bastante e, quando a mirrada senhora se anunciar, recebê-la de bom grado e com uma branda ironia: “Te perdeste no caminho, minha velha?”

Sergio Faraco (Foto: acervo pessoal)

P – Tu és um grande contador de histórias, ao vivo, não somente por escrito. É um talento. Pessoalmente, que grandes contadores de histórias tu conheceste? Conviveste com algum? Vem da família, do Alegrete ou de que banda esse talento?

SF – Não sei de quem herdei o costume, se é que o herdei de alguém. Poderia ser de meu tio-avô Jorge Conceição, mas não tivemos convivência bastante para gerar influências e suas histórias eram muito excêntricas. Minha mãe, talvez. Ela nos impressionava quando éramos pequenos, eu e meus irmãos. As histórias podiam ser assustadoras, trágicas, como a do Titanic, ou muito engraçadas, como as do Tio Jorge, que era uma figura inspiradora. Ele foi autor de uma façanha que jamais será igualada na história humana. Partindo de Porto Alegre, ele foi até a Bolívia de carro de praça. Não é uma lenda.

P – Em mais de uma ocasião, com relação a diferentes pessoas, presenciamos situações em que tu saíste em defesa de amigos, às vezes inclusive ajudando materialmente alguém em dificuldade. Qual o significado na tua vida das amizades? Quem são ou foram teus amigos mais próximos? O teu jeito de ser neste campo configura uma “ética da amizade” especial para ti?

SF – Sou uma pessoa solidária. E deve ser por isso que escrevo. Tenho um conto em que o personagem diz: “O que importa é o coração. Um escritor sempre pensa que vai salvar alguém de alguma coisa”. Talvez também se possa reconhecer uma ética, que daria melhor resolução à minha têmpera. Trato de cultivar bons sentimentos, para que sejam os alicerces de minhas relações interpessoais. Hoje, por diversos fatores, quase não prosperam verdadeiras amizades nas grandes cidades, mas ainda assim tento praticar aquilo que Aristóteles chamou de amizade virtuosa, para distinguir de afetos menos sólidos. Já tive algumas decepções, que me tornaram moderadamente seletivo.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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