Sistema de saúde está perto do colapso

Julho começa com indício de colapso do sistema de saúde

A situação complicou de vez. Diante da aceleração de casos e internações, o sistema de saúde do Rio Grande do Sul começa a dar sinais da pressão causada pela pandemia do novo coronavírus. Estamos, de acordo com o governador Eduardo Leite (PSDB), no período mais crítico da crise sanitária até agora. “Os próximos 15 dias serão cruciais”, disse ele, em tom dramático, em pronunciamento ontem. 

A emoção em seu discurso se justifica. Ao menos dez hospitais gaúchos – de diferentes regiões do Estado – já suspenderam ou reduziram cirurgias eletivas por falta de medicamentos. Em Canoas, o município alega não ter analgésicos para manter pacientes em coma induzido e irá suspender internações em UTI. Porto Alegre, que registrou ontem a sua 100ª morte por Covid-19, voltou a renovar seu recorde de pacientes com a doença em terapia intensiva. Já está bem próximo do limite de leitos destinados. Não será um mês fácil.

Para tentar conter o avanço do coronavírus, o governo do Estado prometeu ampliar em 3 mil os testes diários que são realizados – hoje são feitos cerca de mil por dia. Para isso contará com apoio do Instituto Carlos Chagas, de Curitiba. O plano é testar inicialmente trabalhadores e residentes de clínicas de idosos e, em seguida, assintomáticos. “Será fundamental para identificarmos de forma precoce os casos”, afirmou a secretária de Saúde do Estado, Arita Bergmann. 

Essa busca ativa visa bloquear disseminações localizadas. Com quase 30 mil diagnósticos positivos de Covid-19 e 663 mortes, o RS já teve 99 surtos em locais fechados. A maioria deles ocorreu em frigoríficos e empresas de lacticínios, onde ao menos 4,3 mil trabalhadores testaram positivo para o novo coronavírus.


O que mais você precisa saber

Sem previsão de volta às aulas – O agravamento do quadro da pandemia no Estado atrasa, também, o retorno às aulas presenciais. Se um mês atrás se falava em uma volta das escolas infantis ainda em junho, agora não há prazo algum para qualquer faixa etária, seja a escola pública ou privada. Ainda assim, segundo o governador Eduardo Leite, o Piratini está se organizando para definir um roteiro para o retorno, que será gradual. Nessa quinta, o Executivo começou a enviar um questionário para cerca de 1,5 mil entidades das áreas de educação, saúde e assistência social, como secretarias e conselhos municipais de Educação, conselhos tutelares, sindicatos de professores, centros de referência em assistência social e órgãos da saúde, que irão opinar sobre a retomada. Cada uma tem até o dia 12 para apontar o modo que considera mais adequado para quando for possível reabrir as instituições de ensino. As atividades escolares presenciais no Estado estão suspensas desde a segunda quinzena de março.

Expointer cancelada – Uma das maiores feiras de agronegócio do Brasil não vai ser realizada neste ano. Depois de previsões de adiamento, a Expointer foi oficialmente cancelada por causa da pandemia. A decisão foi unânime entre todos os promotores. “Não tínhamos alternativa. Não existem protocolos suficientes para um evento do porte da Expointer. É um grande investimento que corria o risco de as próprias pessoas não irem, de o produtor não aparecer, inclusive”, disse o prefeito de Esteio, Leonardo Pascoal (PP). O município, que recebe o evento, não terá impactos significativos em suas contas. Contudo, provas técnicas de associações de produtores e atividades de julgamento de animais serão consideradas, respeitando os protocolos de saúde e sem a participação de público visitante. No ano passado, mais de 416 mil pessoas circularam pelo evento, que movimentou 2,7 bilhões de reais.

Prefeitura lança concessões da orla e do Harmonia – Na manhã desta sexta-feira, a Prefeitura de Porto Alegre lança o edital de concessão do trecho 1 da Orla do Guaíba e do Parque Harmonia. De acordo com secretário de Parcerias Estratégicas de Porto Alegre, Thiago Ribeiro, os vencedores da licitação não poderão cobrar ingressos de entrada nos locais. No entanto, pode haver cobrança por eventuais atrações promovidas pelos administradores. Entre as contrapartidas ao poder público, estão a manutenção da orla, já consolidada como um dos principais cartões postais de Porto Alegre, e reformas no Harmonia, para torná-lo atrativo ao longo de todo o ano. O tempo de concessão será de 35 anos. 

Outros links:

  • Desde o início da semana, o Grupo Hospitalar Conceição conta com mais 74 profissionais da área da saúde. Eles integram um grupo de 585 funcionários contratados para o combate da Covid-19.
  • Coordenador do estudo da vacina no Hospital São Lucas, o infectologista Fabiano Ramos exaltou a cooperação entre cientistas do mundo em torno de uma dose eficaz para combater o vírus.
  • A Fundação Irmão José Otão e o PUCRS Carreiras criaram o Grupo de preparação para o Mercado de Trabalho, que auxilia mulheres que estão em busca de vagas.
  • Sancionada no início da semana, a Lei de Emergência Cultural, a Lei Aldir Blanc vai destinar 155 milhões de reais ao RS. Desse montante, 70 milhões irão para o Estado e 85 milhões, para os municípios.
  • Após 22 anos de atividades, o Carmen’s Club fechou as portas. Segundo a proprietária, Soraia Rosso Saloum, o imóvel será vendido para quitar dívidas trabalhistas.
  • Ao Ministério da Infraestrutura, o Governo do Estado se disse favorável à federalização de estrada (), na divisa com SC, nos Campos de Cima da Serra. No ofício, Eduardo Leite pediu prioridade na recuperação da Ponte das Goiabeiras, entre Bom Jesus (RS) e São Joaquim (SC).
  • Os adeptos da bicicleta ganharam sete rotas de cicloturismo em Gramado. Os roteiros oferecem a experiência de pedalar por paisagens do interior, além de conhecer comunidades e sabores da gastronomia local.


Carta da editora: É hora de ser antirracista

Por Marcela Donini

Não há nenhum jornalista preto na redação da Matinal. Não foi hoje, ontem nem nesta semana que nos demos conta disso, mas a força da atual mobilização do movimento negro me estimulou a escrever a respeito. Assim, quem sabe, podemos enriquecer a reflexão que se faz por aqui internamente desde o início do projeto, ao qual me uni em fevereiro. 
Não é difícil explicar o perfil da nossa redação. Chegamos até aqui carregados por uma série de privilégios – que se resumem ao fato de que não é a cor da pele a raiz das dificuldades na vida dos brancos. Reconhecer a branquitude como privilégio faz parte do processo de se tornar antirracista, como defende a escritora Djamila Ribeiro no seu Pequeno Manual Antirracista. Apoiada no pensamento do professor Silvio Almeida, a filósofa nos ensina que ser racista não se trata de um posicionamento individual, mas de um problema estrutural. 
Esse mesmo racismo estrutural explica a discrepância entre negros e brancos entre os entrevistados e autores de conteúdos publicados na Parêntese, nossa revista semanal. O diretor administrativo do Grupo Matinal, Ângelo Chemello Pereira, fez um levantamento de gênero e raça nas primeiras 24 edições da publicação. Contabilizamos 17 entrevistados brancos, 6 negros e 1 indígena – oito mulheres. De 23 reportagens publicadas, apenas 4 foram assinadas por repórteres negros, Renato Dornelles e Amanda Hamermüller, autores de duas matérias cada um. Dos 24 ensaios fotográficos, todos foram feitos por brancos.
Na outra ponta da balança, temos os cronistas José Falero e Nathallia Protazio, ambos negros. Falero escreve desde a primeira edição da Parêntese, e Protazio escreveu 8 vezes nessas 24 edições analisadas. Mas não foi o suficiente para a conta geral nos orgulhar. O levantamento apontou que 87% dos autores e entrevistados da Parêntese são brancos.
Como escreve Almeida no livro Racismo Estrutural, “o silêncio nos torna ética e politicamente responsáveis pela manutenção do racismo”. É esse silêncio que quebramos hoje. […]

Leia a carta completa aqui.


Cultura

Uma voz que emerge do fundo do mar

Foto: Bretz Filmes

A edição 120 da News do Roger, enviada ontem aos assinantes premium, trouxe uma entrevista com a compositora Jocy de Oliveira, que lançou nas plataformas de streaming a ópera Liquid Voices – A História de Mathilda Segalescu. A artista é uma das pioneiras da música eletroacústica no Brasil e foi a primeira mulher a ter uma ópera encenada no Theatro Municipal de São Paulo.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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