Um passeio pelo Carnaval de Porto Alegre pelo olhar de Tio Ciro, um dos mais antigos carnavalescos da cidade

Por Renato Dornelles

Em 31 de janeiro de 1932, uma semana antes do início do que viria a ser conhecido como o primeiro Carnaval do Brasil, nascia no bairro Bom Fim, em Porto Alegre, Luiz Círio dos Santos. A certidão tão próxima ao evento histórico selou o seu destino. Hoje com 88 anos, Tio Ciro, como é mais conhecido, é considerado um dos baluartes do Carnaval porto-alegrense. Acompanhou a evolução, as transformações e o declínio da folia de momo na Capital gaúcha ao longo de oito décadas. Apaixonado pela festa, ele resiste. Assim como o próprio Carnaval.

Em 7 de fevereiro, quando o pequeno Ciro era embalado em uma casa da rua Garibaldi, onde nasceu, realizava-se, pela primeira vez no Brasil, um concurso de escolas de samba. Participaram 19 agremiações, que desfilaram perante um coreto montado na Praça Onze de Junho, centro do Rio de Janeiro. Quatro escolas foram premiadas: Mangueira, Vai Como Pode (atual Portela), Para o Ano Sai Melhor e Unidos da Tijuca.

Naquela experiência pioneira, as escolas de samba tiveram temática livre e também a liberdade de apresentarem até três sambas a sua escolha. A campeã, Mangueira, levou duas composições para a sua apresentação. Uma delas, Pudesse Meu Ideal, de Cartola e Carlos Cachaça.

Possivelmente nem Mário Filho – que empresta seu nome hoje ao Maracanã, então diretor do jornal Mundo Sportivo, que organizou e patrocinou o concurso – poderia imaginar que aquele evento, com o tempo, se tornaria uma marca do Carnaval brasileiro e o maior conjunto de manifestações artísticas simultâneas do planeta.

Tio Ciro caiu na folia ainda na infância nos anos 1930, quando as festividades começavam a ser apropriadas pelos afrodescendentes, com pessoas fantasiadas e bandas executando ritmos variados. Ele nem precisava ir longe de casa. “Lembro de ir com a minha mãe no Carnaval ali no Bom Fim, na esquina da Garibaldi com a Santo Antônio. Também, na Sarmento Leite”, recorda.

Inicialmente, os festejos em Porto Alegre foram marcados pelo entrudo, trazido pelos açorianos, no século 18. Essa forma de brincar consistia em jogar água, farinha e limão de cheiro (pequenas bolas de cera recheadas com água perfumada) uns nos outros – quando se popularizou no século 19, passou a ser considerada atrasada e grosseira, alvo de perseguições policiais e críticas moralistas da imprensa.

Para contrapô-la, foram criadas as grandes sociedades carnavalescas, essencialmente da elite – inclusive de governantes. Venezianos e Esmeralda realizavam desfiles luxuosos, levando às ruas um estilo importado da Europa. Crônicas do início do século 20 descreviam desfiles na Rua da Praia, ocupada de um lado por brancos e, de outro, por negros, que iam até lá assistir aos cortejos. Era o Carnaval permitido pelo poder público e incentivado pela imprensa.

A resistência das camadas populares, principalmente dos negros, vinha de locais não muito distantes do Centro, mal iluminados, alagadiços, quase invisíveis para o poder público no que dizia respeito à infraestrutura. Deram a partida a então Colônia Africana (território assim chamado por abrigar ex-escravos e que abrangia o que hoje é o bairro Rio Branco), a Ilhota (vila localizada no bairro Menino Deus, onde nasceram e cresceram o compositor Lupicínio Rodrigues e o jogador de futebol e carnavalesco Osmar Fortes Barcellos, o Tesourinha) e o Areal da Baronesa (hoje quilombo urbano localizado no bairro Cidade Baixa). “No Areal, peguei a época que tinha dois palanques. Um na Miguel Teixeira e o outro na entrada da Barão do Gravataí”, relembra Tio Ciro.

Naquele mesmo período, o governo de Getúlio Vargas tirava o samba da marginalidade e transformava-o em um símbolo nacional – no início daquele século o ritmo chegou a ser proibido e considerado caso de polícia.

Em 1940, época em que prevaleciam blocos, cordões e sociedades carnavalescas, foi fundada, no bairro Santana, a Sociedade Beneficente e Cultural Bambas da Orgia, escola de samba mais antiga entre as que ainda estão em atividade. Seis anos depois, Tio Ciro viu nascer as tribos carnavalescas, com a fundação de Os Caetés. A novidade, que levava para os desfiles componentes com trajes indígenas, acabou se transformando em marca do Carnaval porto-alegrense. “Depois vieram Bororós, Xavantes, Arachanês, Guaranis, Comanches, que se mantêm, e muitas outras. Os Xavantes saíam no estilo dos índios americanos. Teve uma época em que as tribos desfilavam com as escolas, no mesmo concurso, e os Caetés foram seis vezes campeões”, conta Tio Ciro.

Nos anos 50, os carnavais seguiram com características das décadas anteriores, com pouco auxílio da prefeitura. Por outro lado, ocorreu uma espécie de descentralização, com coretos espalhados pela cidade, erguidos a partir de doações das comunidades e da iniciativa privada. Com o valor arrecadado, eram montadas as coberturas para abrigar as bandas, decoradas ruas e distribuídos prêmios. Foi nessa época que Tio Ciro passou a efetivamente fazer parte da festa, como um de seus mais ilustres integrantes. “A primeira vez que desfilei foi em 1952, nos Embaixadores do Ritmo, na Borges de Medeiros. A escola tinha só 24 pessoas. Em 1954, entrei de sócio nos Bambas. Aí, quando eu saí dos Embaixadores em 1958, fui direto para os Bambas, onde eu já era sócio. Em 1960, eu desfilei nos Bambas, no pentacampeonato. Mas, por amizades que eu tinha, também saí no Aí Vem a Marinha.”

A ‘cariocalização’ do Carnaval – e sua derrocada

Em 1960, o Carnaval de Porto Alegre passou por transformações. Como forma de organização e de integração entre as agremiações, foi criada a Associação da Entidades Carnavalescas. No ano seguinte, uma escola recém-criada, a Academia de Samba Praiana, revolucionou. “Quando os Bambas vinham tirar o hexa, surgiu a Praiana e modificou o Carnaval de Porto Alegre. Vieram com esplendor (espécie de costeiro da fantasia, feito com plumas), arrasaram no Carnaval com o tema Coroação de Dom Pedro II. Eles entraram às sete horas da manhã e, ali da Salgado Filho até a Rua da Praia, levaram uma hora. Antes, os Bambas desfilaram com o tema Os Dez Mandamentos, levando 180 pessoas. Eles (Praiana) vieram com 80 e ganharam o Carnaval. Naquela época tinha instrumentos de sopro”, relembra Tio Ciro.

Com as mudanças introduzidas pela Praiana, as escolas passaram a ter seus componentes divididos em alas, cada qual com sua fantasia, dentro do enredo apresentado. Também foi introduzida uma ala de baianas, ao estilo do Rio, para homenagear as quituteiras que, no início do século 20, foram consideradas as guardiãs do samba, época em que o ritmo ainda era proibido. As modificações, na visão da historiadora Helena Catani, foram uma espécie de “cariocalização” do Carnaval porto-alegrense. Com isso, aos poucos, blocos e tribos vão sendo extintos, perante uma predominância das escolas de samba.

Nesta mesma época, a cidade também passava por mudanças. A Colônia Africana foi sendo expulsa dos bairros mais centrais em função de um processo de especulação imobiliária, e seus antigos moradores passando a habitar zonas periféricas. O mesmo destino tiveram moradores da Ilhota que, atingidos pelos projetos municipais de urbanização “Remover Para Promover” e “Renascença”, foram compulsoriamente removidos para a região do atual bairro Restinga.

Os dois processos – cariocalização das festividades e urbanização da região central –, na visão de carnavalescos, deram início a um processo de derrocada do Carnaval. “Antigamente, o Carnaval valia a pena, tinham os desfiles nos bairros. As escolas tinha 30 ou 40 pessoas, não eram grandes como hoje em dia, mas a gente se divertia muito. O último lugar que íamos era na (rua) Santana. Lá, terminava por umas 10h, com sol forte”, conta Tio Ciro.

Ao afastamento das camadas mais pobres da população, seguiu-se o gradativo término do Carnaval de bairros e a expulsão, via decisões judiciais, das quadras de escolas de Samba dos bairros mais centrais. Esses fatores tiveram influência não só no Carnaval, como nas comunidades que participavam da festa – ao contrário do que se pode pensar, as escolas de samba, ao longo da história, não funcionavam apenas durante um período do ano, mas serviram de espaços de manifestação cultural, convivência social e resistência. Por conta disso, há quem as compare com quilombos.

Com o fim gradual dos coretos de bairros (extintos entre os anos 70 e 80), os desfiles de escolas de samba nos anos 70, 80 e 90 passaram a se caracterizar pela centralização em dois sentidos: realizados praticamente em um único local e em área central da cidade.

Tio Ciro, como tantos outros carnavalescos que já haviam brincado no Areal da Baronesa, na avenida Borges de Medeiros e na rua João Alfredo, passou também pelas avenidas João Pessoa, Perimetral e Augusto de Carvalho. Na João Pessoa, ele viu a sua Bambas da Orgia voltar a ganhar um título, em 1974, quebrando um jejum que durava desde 1961, e a despedida dos instrumentos de sopro, em 1975. Em 13 anos na Perimetral, seu palco favorito, viu a escola conquistar sete títulos. “Eu gostava quando era na Perimetral. Tínhamos que passar embaixo do Viaduto (dos Açorianos). Ali, dava para ver se a bateria estava boa ou não”, diz.

Na Augusto de Carvalho, que abrigou a passarela do samba por 16 anos, ele testemunhou dois momentos tristes da sua escola de coração. “Em 1988, teve um ex-dirigente dos Bambas (Hermes Souza) que estava coordenando os desfiles pela associação das entidades. As escolas tinham que assinar um documento na concentração e, em cada minuto de atraso, perdiam dois pontos. E os Bambas assinaram com dois minutos de atraso. Desfilaram muito bem e chegaram três pontos na frente dos Imperadores. Mas o falecido Betinho (Roberto Barros, ex-presidente da Imperadores do Samba) já sabia. Quando deu a diferença de três pontos, ele gritou: ‘é campeão’.” Ou seja: pela pontuação dos desfiles, a Bambas da Orgia ficou três pontos à frente da Imperadores. Porém, com o desconto de quatro pontos pelo atraso , acabou perdendo o Carnaval.

O outro episódio de tristeza é de 2000, justamente quando a escola comemorava seis décadas de fundação. “Quando estávamos indo para a avenida, o (Edgar) Damião (ex-dirigente) nos avisou que o único carro alegórico que tinha ficado pronto quebrou quando estava sendo tirado do barracão. Aquilo determinou nosso rebaixamento para a segunda divisão.”

Tio Ciro, contudo, não desanimou. No ano seguinte, aproveitando-se de que a Bambas desfilou em dia e divisões diferentes, integrou também a Estado Maior da Restinga e a União da Vila do IAPI.

Da mesma forma que comunidades e quadras de escolas de samba, os desfiles oficiais foram os últimos a serem enxotados da região central da cidade. O processo derradeiro ocorreu durante reunião do Conselho do Plano Diretor do município, em 2002, sob a administração do PT. No entanto, as discussões acerca de um local para abrigar um sambódromo definitivo se arrastavam desde 1988. “Quando o (Alceu) Collares estava saindo da prefeitura (1988), deixou uma pedra fundamental para a construção da pista na Augusto de Carvalho. Eu vi, eu estava lá”, atesta Tio Ciro.

Mas a própria Augusto de Carvalho foi vetada. Na sequência, outros locais, como o estacionamento ao lado do ginásio Gigantinho, a Orla do Guaíba, junto ao Parque Marinha do Brasil e a rua que separa o Parque da Harmonia dos prédios da Justiça Federal e do Tribunal Regional Federal, também foram excluídos por pressões diversas, como da Associação de Moradores do Bairro Menino Deus, movimentos tradicionalistas, ambientalistas e até de direitos humanos, que alegaram possíveis prejuízos ao parque se a construção fosse realizada no Parque da Harmonia.

Na reunião do Conselho do Plano Diretor, em 2002, havia três áreas em discussão. Duas delas em extremos da cidade: Restinga (Sul) e Porto Seco (Norte). A outra, em área mais centralizada, era no bairro Humaitá, cujos dirigentes da associação de moradores alegaram que o local não teria estrutura para enfrentar o impacto que os desfiles causariam – menos de 10 anos depois, não houve resistência para a construção da Arena do Grêmio.

O Carnaval acabou deslocado para o Porto Seco, no extremo norte da cidade, a cerca de 20 quilômetros do Centro. Resultado: o público minguou. Já as escolas de samba enfrentaram altos e baixos. O pior momento foi em 2018, quando, pela primeira vez sofrendo com corte total de verba por parte da prefeitura, os desfiles não foram realizados. “Lá no Porto Seco, a vantagem é que tem os barracões (onde são confeccionadas as alegorias). Mas durante o ano não tem viaturas, não tem polícia e ladrões vivem depenando. No ano passado, não tinha nem luz, pois tinham furtado os fios. Levam até as tampas de bueiro. E foi muito triste e decepcionante ficar sem Carnaval em 2018”, lamenta Tio Ciro.

Em 2019, em uma iniciativa própria das escolas de samba, os desfiles foram retomados, sem a estrutura necessária. As escolas de samba, que já tiveram uma associação e uma liga, agora se organizam em torno da recém-criada União das Escola de Samba de Porto Alegre (Uespa), por meio da qual buscam captar recursos junto à iniciativa privada – desde 2017, não recebem apoio do poder público. Em 2020, uma parceria com uma empresa vai garantir a montagem de arquibancadas e camarotes para os desfiles dos dias 6 e 7 de março. O Carnaval e carnavalescos como o Tio Ciro resistem.

Este texto faz parte da edição 14 da revista Parêntese, publicada em 29 de fevereiro de 2020.

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